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De Rogério Rocha: “O leitor como metáfora: um olhar do mundo pelas letras vivas”

Rogério Rocha é membro da Academia Poética Brasileira.

30/01/2026 às 10h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha (Autor).
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Rogério Rocha. Arte: MHL/GINAI
Rogério Rocha. Arte: MHL/GINAI

Rogério Henrique Castro Rocha[1]

“Deve-se ao leitor a existência das editoras e o sentido do seu trabalho.” [Alberto Manguel]

Somos, na natureza, a única espécie animal que lê e conta histórias. Que decifra e decodifica a linguagem inscrita em letras, sinais gráficos criados por nós mesmos. A única que dá sentido a elas e que, a partir do registro histórico e cultural de uma língua, cria e escreve sobre mundos imaginados, levando luz ao seu próprio mundo.

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A identidade da vida parece necessitar de um reencantamento por meio da criação de um espaço de sentido que se utiliza do artifício da metaforização daquele que lê o grande livro do mundo. Mas como definir, então, o indivíduo leitor?

O escritor e bibliófilo argentino-canadense Alberto Manguel nos propõe três importantes metáforas para compreendermos essa personagem singular. São elas: a do leitor como viajante, como torre de marfim e como traça. Poderíamos falar também em um leitor rato e um leitor louco? Sim, poderíamos. Mas nossa exposição ficará restrita, aqui, unicamente, aos três conceitos apontados.

 

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Se o mundo é um livro a ser lido, sugere Manguel [2019], a vida é o plano dessa viagem e o leitor é justamente esse viajante que avança, prossegue, caminha e dá saltos no tempo, de um mundo a outro, de um lugar a outro dentro do texto, o que aqui chamaremos de seu “espaço-tempo” alternativo. Daí a tão conhecida expressão ‘viajar no texto’. Ou seja, do leitor iniciante ao experimentado, todos ‘viajam’ nesse espaço-tempo [do espaço-texto].

O ato da leitura subentende, pois, um empenho e uma jornada através do espaço-texto, base e plataforma de lançamento para ‘outros mundos’. Ler é empenhar-se numa caminhada de descobertas onde cada um dará seu sentido às coisas. E a leitura é nada mais é do que a vida em viagem. Sendo assim, perguntarmo-nos sobre por que lemos é como perguntar sobre por que viajamos. Ademais, a leitura é uma experiência mental e corpórea, através de um processo que envolve a memória [tudo que é lido e que se torna visão em retrospecto], um presente em devir [quando dá-se o ato de ler] e um futuro, formado pela expectativa de reviver essa experiência [com novas leituras] e pela angústia diante de todo um universo de livros e textos que nunca confrontaremos.

 

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Dando continuidade ao diálogo com as ideias manguelianas, chegamos à metáfora bíblica da torre [a de marfim ou aquela em que Montaigne tinha uma biblioteca e seu gabinete de leitura]. A torre guarda o simbolismo da pureza, da virgindade, do enclausuramento. O leitor ou leitora na torre de marfim é alguém que se retira do espaço social para encerrar-se em seu próprio mundo, passando a conviver ensimesmado com seus livros. Temos, portanto, a imagem de um santuário, de um refúgio ou abrigo quase inexpugnável. Símbolo também ligado, na história da literatura, à figura do intelectual diferenciado e daquele que cultiva um ideal de vida meditativa.

O terceiro e último perfil de leitor está vinculado à figura da traça [Lepisma saccharina], inseto primitivo que se arrasta vagarosamente e se alimenta, dentre outras coisas, da lã [das roupas e tecidos] e do papel das páginas dos impressos, dentre eles os livros. Esse bicho nos remete, segundo Alberto Manguel [2019] à representação dos que ‘devoram’ os livros. O que implica em falarmos na forma como lidamos com esses objetos culturais e, por conseguinte, em como lidamos com a própria leitura. Trata-se, portanto, de um leitor arrebatado, que fica intumescido de palavras, não se contenta com a viagem ou a torre. Necessita de algo além. Correndo o risco de perder a sanidade, desenvolve um comportamento quase patológico.

Podemos observar que, ao ler, estabelecemos disposições de vontade em nossas relações com o mundo exterior, interior e as obras impressas chamadas livros. Sendo assim, o leitor-viajante termina por conhecer o mundo pelos múltiplos caminhos imaginados pelo ato demiúrgico daqueles que plasmaram universos em seus escritos. Então, a leitura consiste também num comportamento ativo que leva os leitores a viajar pelas estradas do grande livro do mundo. Por sua vez, o leitor na torre de marfim, tal como o monge solitário, em seu reino de beleza interior, submerge tranquilamente nas paisagens da literatura, seu refúgio e abrigo.

Segundo Manguel:                  

Ler, acima de todas as outras atividades, propiciava um espaço no qual a mente poderia descolar de seu entorno cotidiano e dedicar-se a assuntos mais elevados [...] permitindo que o texto transportasse o leitor numa jornada interior”. [2017, p.88]

 

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Por fim, a metáfora do leitor-traça, típico fanático, ‘devorador’ de livros, conecta-se ao fato da atitude como lidamos com a leitura. Trata-se, sobretudo, de um exemplo paradigmático de leitor arrebatado, possuído por uma pulsão, uma força maior que si mesmo. Força que cria um elo inquebrantável entre sua necessidade e o prazer extraído da fruição atenta daquelas páginas, numa experiência que muito se aproxima de uma espécie de suspensão do tempo.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que a leitura é uma forma de ser e estar no mundo. O leitor, enfim, aparece como aquilo que é: um aprendiz da vida. Ademais, a leitura e os mundos saídos da imaginação criativa, promovem o reencantamento do real. Afinal, aquilo que chamamos realidade fica muito mais interessante quando tingida pelas cores que o imaginário e seus mundos imaginados proporcionam.

 

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Referência:

MANGUEL, Alberto. O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça. São Paulo: SESC São Paulo, 2017.

Verbete: traça. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lepisma_saccharina Acesso em:25/01/2026.


[1] Escritor, servidor público, livre pensador, Bacharel em Direito [UFMA], Licenciado em Filosofia [UFMA], Mestre em Criminologia pela Universidade Fernando Pessoa [Porto – Portugal], Pós-graduado em Paradigmas na pesquisa em Ética [IESMA/Faculdade Católica do Maranhão]. Criador da Iniciativa EIDOS, do DUO Litera [projetos literário-filosóficos] e dono do canal Hipertexto com Rogério Rocha.

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Lindalva MendesHá 2 semanas Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa. Quando vem aqui?RR, o mesmo Alberto Manguel diz que ler é um gesto de poder, porque permite ao leitor interpretar, questionar e reconstruir o mundo a partir do texto.
Samir LageHá 2 semanas Brasília Distrito Federal.Gosto demasiado de seus textos, poeta.
Professor EuclidesHá 2 semanas São Luís MaCaro Rogério. Bem colocado porque o leitor é símbolo vivo da própria experiência humana diante do mundo. Quando se diz “o leitor como metáfora”, abre‑se a ideia de que cada pessoa, ao ler, recria o mundo dentro de si, filtrando-o por suas memórias, emoções e expectativas. Portanto, muito interessante suas palavras.
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