
Carlos Furtado
Durante 35 anos de minha vida, despertava às 6h da manhã, porque, logo às 07h30m, iniciava as atividades na caserna. Nesse período, poucas foram as oportunidades em que essa rotina foi quebrada, uma vez que o relógio biológico passou a ditar o comportamento do corpo.
Mas houve momentos ou oportunidades em que eu acordava, e não sabia quem estava me olhando do outro lado do espelho. O uniforme pendia nos ombros como se vestisse outro homem. Os gestos eram automáticos; as palavras, protocolares; o sorriso, ensaiado. Eu cumpria horários, respondia às demandas, resolvia problemas — mas, por dentro, havia um silêncio sepulcral, desses que não gritam, apenas pesam.
Na verdade, eu estava cansado, e foi nesse cansaço que me perdi.
Não no cansaço do corpo, pois, para se livrar desse, basta deitar-se na cama, e a noite cura; mas naquele que se acumula na alma quando se tenta ser fortaleza o tempo inteiro. A rotina tornou-se um corredor estreito, sem janelas. Eu me tornei eficiente, respeitado, funcional — e invisível para mim mesmo.
Houve uma ruptura. Não um escândalo, não um colapso dramático. Apenas um dia em que percebi que já não me emocionava com as minhas próprias conquistas. O que antes era vocação, nesses momentos, parecia obrigação. O que era propósito tornara-se protocolo. E foi ali, nesse quase nada, que me dei conta de que havia me distanciado do homem que um dia prometera e pretendia ser.
O recomeço não veio com aplausos, e, sim, com silêncio.
Um silêncio diferente — não o que sufoca, mas o que nos impele a escutar. Passei a prestar atenção aos pequenos sinais: a exaustão que eu fingia não sentir, a saudade de conversas simples, a falta que me fazia a minha própria voz. Permiti-me parar por alguns instantes. Permiti-me não ser invulnerável. Permiti-me despir da couraça de quem tudo pode, bastando querer. Constatei que esse super-homem não existia, mas, sim, um ser humano composto de ossos, carne, músculos, mas também de sensações, que possuía alma e espiritualidade.
Foi numa manhã comum, enquanto o café esfriava sobre a mesa, que uma memória antiga me visitou. A voz firme e serena que tantas vezes me orientara, a voz daquele que sempre foi o meu norte, aquele que possuía um significado especial em minha vida, orientador e que, com a sua experiência de vida, dizia: “Siga sempre o caminho da honradez, seja sereno em suas atitudes, faça o bem”. Por incrível que pareça, não soou como cobrança. Soou como abrigo, como aquela chamada de atenção no sentido de que era preciso eu me cuidar mais.
Percebi, então, que eu não havia desaparecido — apenas estava soterrado sob expectativas, responsabilidades e uma ideia rígida de força. Reencontrar-me não significava abandonar o que era, mas ressignificar. Não era preciso deixar o caminho; era preciso lembrar por que o havia escolhido e, vez por outra, optar por atalhos mais verdejantes.
Comecei pequeno. Um pedido de desculpas que estava engasgado havia anos. Uma conversa honesta sobre meus limites. Um gesto de gentileza comigo mesmo. Fui recolhendo os cacos daquilo que julgava perdido e descobri que não eram fragmentos inúteis — eram partes de mim que pediam integração.
Mais uma vez, percebi a importância que esse homem tinha em minha vida: meu pai, que, ainda hoje, sem sua presença física, continua a me influenciar para o bem.
Hoje, quando me olho no espelho, ainda vejo marcas. Vejo o homem que enfrentou dúvidas, que conheceu o seu próprio esgotamento, que aprendeu que a fragilidade pode nos visitar em algum momento. Mas vi, sobretudo, alguém que teve coragem de se rever, de se reinventar, de seguir adiante.
Percebi que sou feito de rupturas, sim.
Mas sou, acima de tudo, feito de reencontros.
E talvez seja essa a mais verdadeira forma de permanecer inteiro: aceitar que, às vezes, é preciso se perder para, enfim, voltar para casa, dentro de si e dar continuidade, ver a vida seguir em frente.
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