
FALAR É FÁCIL...
Eloy Melonio (Poeta, cronista, escritor).
Em 2018, subindo a ladeira da incoerência, duas compositoras fizeram uma versão feminista de “Mulheres” (Toninho Gerais/1995), um grande sucesso na voz de Martinho da Vila (“Já tive mulheres de todas as cores...”). O objetivo era inverter a letra como quem põe na cozinha os móveis da sala. Pretendiam, assim, corrigir um erro que não errou em nada. E terminaram apagando uma declaração de amor com uma borracha ideológica.
Certamente, havia uma intenção, mas nem sempre uma intenção se veste de adequação. Em sua releitura da letra, pisaram feio na casca das palavras, confundindo o "eu-lírico" com um "euzinho” qualquer. Se fizerem isso com outras músicas que supostamente denigram a dignidade das mulheres, vai faltar tempo e sobrar mulheres. E eu, simplesmente, ousarei pedir-lhes que poupem a "Amélia" (1941) do Ataulfo Alves e do Mario Lago.
E, se a agressão vier da mulher, será que vão meter a colher? Lembrei-me da “Loba”, um dos maiores sucessos de Alcione ("Se pular a cerca eu detono”/“Adoro sua mão atrevida”/“Faço o que te der prazer”). O que está certo, o que está errado?
Quanto a nova versão de “Mulheres”, mesmo tendo viralizado, parece que desapareceu das plataformas digitais.
Dizem por aí que “falar é fácil”. Difícil é argumentar, convencer. E, assim, aproveito para destacar esta oportuna intervenção de Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento” (Argumento/1975). Nessa canção, o compositor denuncia algo estranho com um tipo de samba que andavam fazendo. Sensato, ele entende a novidade e, ao mesmo tempo, sugere a Benito de Paula (outro bamba da composição musical) uma adequação: “Mas não me altere o samba tanto assim”. Como dizem por aí, o carioca falou e disse.
Parece razoável que a música de hoje seja diferente da música de ontem. Gostando ou não, a gente vai se adaptando aos novos ritmos e temáticas. Os primeiros a sentir algo estranho, podem relutar, mesmo quando dizem “Tá legal!”.
Nesse contexto, Baden Powel e Vinicius de Moraes defendiam que “pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza”. Paulo César Pinheiro reitera a ideia: “Eu tenho saudade/ Dos sambas de antigamente/ Quando o samba deixava/ Uma vaga tristeza/ No peito da gente”. Caetano Veloso apela para uma saída harmoniosa: “Cantando eu mando a tristeza embora”. Como se vê, a tristeza já passeou mais elegante entre os versos de um cenário romântico.
Sereno e brincalhão, hoje o samba segue mais voltado à fluidez da vida. Tem de tudo no terreiro de Iaiá: desde o “camarão dorminhoco” até a “mulher que bebe todas”.
Cada um no seu quadrado, samba e pagode se mantêm amigos. Tudo certo se você encontrar Zeca Pagodinho e Ferrugem numa mesa de bar: abraços, brincadeiras, risos,... e cerveja e música, que ninguém é de ferro.
Nada a reclamar da inovação em qualquer palco da arte. Nem dos movimentos de resistência, que defendem uma estrada pavimentada com “coragem e luta”. Quem não se lembra das sacadas geniais dos compositores para driblar a censura nos impiedosos anos da ditadura militar (1964-1985)?
Criticar é tarefa do crítico de arte, que tem as ferramentas próprias do ofício. Gente que repete Picasso: "a arte é uma mentira que nos permite conhecer a verdade". E que, sem os sapatos adequados, rejeita dançar um tango num piso escorregadio.
Atrevo-me a imaginar a decepção de Monteiro Lobato se soubesse o que estão fazendo com suas obras. A justificativa: palavras, frases e contextos qualificados de racistas. Ou seja, a arte sendo julgada e subjugada por uma visão ideológica em detrimento de seu real valor. Já imaginou se decidirem fazer isso com todas as obras da literatura?
Imagine uma cena com Simão Bacamarte, (“O Alienista”, Machado de Assis/1881) tentando instalar o “reinado da razão” em nossa capital federal. Acho que a Casa Verde ficaria entupida com gente que tece pautas recheadas de narrativas inconsistentes e demandas injustificáveis.
Para onde afino os ouvidos, um mundo de gente com ideias esquisitas. E aí, uma frase da idade do vento sopra aos meus ouvidos: “O mundo tá de cabeça pra baixo”. Nessa onda de intenções repressivas, o caráter artístico não deve se curvar a questões ideológicas. É isso o que defende um doutor em Teoria da Literatura: “(...) a ponderação ainda é necessária, sobretudo, na verdadeira arte, que não pode ser feita de qualquer jeito”/“Literatura, sempre digo, não é sociologia” (Arte e Ressonância/EDUFMA, 2016).
Seja qual for o contexto, deve-se apresentar um argumento consistente para reprovar uma tendência ou posicionamento. Se tiver de contestar, não se esqueça da elegância do Paulinho da Viola, tá legal?
Pois é, amigos, falar é fácil quando se tem as palavras certas na hora certa... e quando a coerência não serve a dois senhores.
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