
Em "Uma conversa com o poeta Manoel de Barros", Vitória Duarte estabelece um diálogo ontológico com a herança do poeta das "desimportâncias", subvertendo a lógica da comunicação para encontrar a essência no que é miúdo e abstrato. A autora compreende que, na poética de Manoel, a palavra não serve para explicar, mas para transfigurar; ela descreve um jogo de esconde-esconde semântico muito interessante.
Há uma profunda percepção filosófica de que o silêncio e a "deriva" não são vazios, mas estados de gestação poética. Ao afirmar que "sentir é o único fato", Vitória resgata a pureza do olhar infantil, onde a gramática se dobra diante do afeto e a matéria do amor se funde ao verbo.
A obra destaca-se pela sensibilidade ao tratar a palavra como uma entidade viva, quase física, que se aloja "entre o peito e a garganta". A metáfora da tortura pelo silêncio prolongado revela a angústia existencial de quem sabe que a poesia exige um tempo próprio, alheio ao cronômetro do mundo produtivo.
Duarte utiliza insights poéticos para mostrar que a proteção da metáfora é o que permite a revelação do "mais profundo", sugerindo que a verdade só pode ser dita quando está devidamente vestida de imagem.
É uma homenagem digna e autêntica, que não apenas cita Manoel de Barros, mas habita o território da criação metafísica para celebrar a eterna busca do encontro através da perda.
Uma conversa com o poeta Manoel de Barros
Vitória Duarte
Manoel,
as palavras também me escondem sem cuidado
e me acham onde não estou.
é um relacionamento abstrato
onde sentir é o único fato.
a poesia é a matéria do nosso amor.
as palavras me escondem sem cuidado
e me fazem revelar o mais profundo de mim,
embora me protejam com toda a graça
de se transformarem em metáforas.
as palavras me escondem sem cuidado
e por vezes me deixam à deriva,
no escuro,
faltando uma sílaba...
as palavras,
para provarem
o quanto influenciam minha vida,
por vezes ficam entre o peito e a garganta.
elas me torturam com um certo silêncio
que, de vez em quando, dura meses ou até anos...
as palavras que me escondem
gostam que eu as procure
e que, nessa procura, eu me perca
para, outra vez,
me encontrar nelas.
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