
*Mhario Lincoln
É impossível não aplaudir de pé meu professor, amigo, irmão e conselheiro-padrinho, cronista Edomir Martins de Oliveira, nestes 88 anos de feliz vida coletiva. Sim, viver para os outros, sem muito tempo para cobrar “provas” de seus alunos-amigos. Provas são atos aleatórios; ações (como a que ele incita aos seus) são por demais importantes.
Desta forma, alcançar-me o privilégio de ler – antes de que todo o Mundo - “Uma Rosa, por Favor”, sua mais nova obra-sequência amadurecida e ampliada, do universo já esboçado em “Finalmente a Noiva Chegou”, faz do casamento, remodelado, um laboratório de humanidade.
Em 40 crônicas que vão do “Casamento em avião” ao enlace adiado pela pandemia, passando por garis, caminhoneiros, músicos, idosos, veganos, capoeiristas e casais improváveis, Edomir transforma situações aparentemente corriqueiras em narrativas cheias de graça, fé e delicadeza, numa continuação amadurecida do universo já esboçado em “Finalmente a Noiva Chegou”.
Cada texto nasce ancorado numa passagem bíblica – Lucas 2:14 num casamento a bordo de um jato particular, Cântico 8:7 quando o amor é celebrado em versos, Provérbios e Lucas no enlace em pleno zoológico, Isaías 40:29 ao narrar a reconstrução afetiva de um viúvo, Eclesiastes 4:9-12 ao acompanhar um casal de caminhoneiros, entre tantos outros.
Em vez de mera citação decorativa, as Escrituras funcionam como chave de leitura: o casamento não aparece apenas como rito social, mas como vocação, pacto e caminhada espiritual. Há uma ética evangélica discreta, que insiste em perdão, cuidado, misericórdia e aliança – mais próxima das parábolas do cotidiano do que de qualquer discurso doutrinário.
Literariamente, as crônicas combinam rigor narrativo e simplicidade de voz. Em “Casamento em avião”, repito, luxo e extravagância são atravessados por um gesto de amor planejado com humor e engenho; em “Um casamento poético”, a liturgia se funde a quadras rimadas, Camões e Vinicius, num casamento que é também celebração da palavra; no zoológico, uma cobra mansa trazendo as alianças desloca o leitor do lugar comum e devolve o sacramento ao convívio com a criação; em “Quando o amor cura”, o reencontro de um idoso viúvo com a possibilidade de amar novamente mostra que o tempo afetivo nem sempre coincide com o calendário do luto.
Como lembram filósofos da narrativa, ao contar uma vida nós reordenamos o tempo e devolvemos sentido àquilo que parecia apenas perda ou acaso – é exatamente esse o movimento que o livro oferece ao leitor.
Há, ainda, um forte subtexto social: casamentos de garis, histórias que nascem em presídios, festas comunitárias, enlaces atravessados por greves, crises econômicas, acidentes e pandemias colocam no centro personagens que a literatura frequentemente deixa à margem.
Ao participar dessas experiências “quase reais” – muitas delas claramente alimentadas pela observação e vivências do próprio autor, reelaboradas como ficção de superfície, mas com fundo documental – o leitor tem a sensação de estar ouvindo causos de família, histórias que “poderiam ter acontecido comigo”. O impacto tende a ser duplo: conforto espiritual para quem crê e reconhecimento humano para quem vê suas alegrias e feridas representadas com respeito e ternura.
A grande verdade é que, dentro da tradição brasileira da crônica, Edomir se aproxima de autores que transformaram a própria experiência em matéria literária. Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, fez de livros como Comédias da vida privada um espelho bem-humorado da vida conjugal e urbana, reunindo situações nascidas do cotidiano – casais, amigos, pequenas neuroses – em textos que misturam observação pessoal e imaginação ficcional; crônicas como “Palavreado” e “Defenestração”, recolhidas em seleções para a escola, mostram como o vivido se converte em narrativa que questiona e diverte ao mesmo tempo.
Enfim, “Uma Rosa, Por Favor” dialoga com essa linhagem, mas imprime um sotaque próprio: maranhense, pastoral, com importantes citações Bíblicas e por uma confiança radical de que o amor, quando levado a sério, ainda pode ser boa notícia. Imensamente feliz em ter sido convidado para apresentar essa brilhante obra.
Mhario Lincoln*
Jornalista e poeta, editor da Plataforma Nacional do Facetubes.
É impossível não aplaudir de pé meu professor, amigo, irmão e conselheiro-padrinho, cronista Edomir Martins de Oliveira, nestes 88 anos de feliz vida coletiva. Sim, viver para os outros, sem muito tempo para cobrar “provas” de seus alunos-amigos. Provas são atos aleatórios; ações (como a que ele incita aos seus) são por demais importantes.
Desta forma, alcançar-me o privilégio de ler – antes de que todo o Mundo - “Uma Rosa, por Favor”, sua mais nova obra-sequência amadurecida e ampliada, do universo já esboçado em “Finalmente a Noiva Chegou”, faz do casamento, remodelado, um laboratório de humanidade.
Em 40 crônicas que vão do “Casamento em avião” ao enlace adiado pela pandemia, passando por garis, caminhoneiros, músicos, idosos, veganos, capoeiristas e casais improváveis, Edomir transforma situações aparentemente corriqueiras em narrativas cheias de graça, fé e delicadeza, numa continuação amadurecida do universo já esboçado em “Finalmente a Noiva Chegou”.
Cada texto nasce ancorado numa passagem bíblica – Lucas 2:14 num casamento a bordo de um jato particular, Cântico 8:7 quando o amor é celebrado em versos, Provérbios e Lucas no enlace em pleno zoológico, Isaías 40:29 ao narrar a reconstrução afetiva de um viúvo, Eclesiastes 4:9-12 ao acompanhar um casal de caminhoneiros, entre tantos outros.
Em vez de mera citação decorativa, as Escrituras funcionam como chave de leitura: o casamento não aparece apenas como rito social, mas como vocação, pacto e caminhada espiritual. Há uma ética evangélica discreta, que insiste em perdão, cuidado, misericórdia e aliança – mais próxima das parábolas do cotidiano do que de qualquer discurso doutrinário.
Literariamente, as crônicas combinam rigor narrativo e simplicidade de voz. Em “Casamento em avião”, repito, luxo e extravagância são atravessados por um gesto de amor planejado com humor e engenho; em “Um casamento poético”, a liturgia se funde a quadras rimadas, Camões e Vinicius, num casamento que é também celebração da palavra; no zoológico, uma cobra mansa trazendo as alianças desloca o leitor do lugar comum e devolve o sacramento ao convívio com a criação; em “Quando o amor cura”, o reencontro de um idoso viúvo com a possibilidade de amar novamente mostra que o tempo afetivo nem sempre coincide com o calendário do luto.
Como lembram filósofos da narrativa, ao contar uma vida nós reordenamos o tempo e devolvemos sentido àquilo que parecia apenas perda ou acaso – é exatamente esse o movimento que o livro oferece ao leitor.
Há, ainda, um forte subtexto social: casamentos de garis, histórias que nascem em presídios, festas comunitárias, enlaces atravessados por greves, crises econômicas, acidentes e pandemias colocam no centro personagens que a literatura frequentemente deixa à margem.
Ao participar dessas experiências “quase reais” – muitas delas claramente alimentadas pela observação e vivências do próprio autor, reelaboradas como ficção de superfície, mas com fundo documental – o leitor tem a sensação de estar ouvindo causos de família, histórias que “poderiam ter acontecido comigo”. O impacto tende a ser duplo: conforto espiritual para quem crê e reconhecimento humano para quem vê suas alegrias e feridas representadas com respeito e ternura.
A grande verdade é que, dentro da tradição brasileira da crônica, Edomir se aproxima de autores que transformaram a própria experiência em matéria literária. Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, fez de livros como Comédias da vida privada um espelho bem-humorado da vida conjugal e urbana, reunindo situações nascidas do cotidiano – casais, amigos, pequenas neuroses – em textos que misturam observação pessoal e imaginação ficcional; crônicas como “Palavreado” e “Defenestração”, recolhidas em seleções para a escola, mostram como o vivido se converte em narrativa que questiona e diverte ao mesmo tempo.
Enfim, “Uma Rosa, Por Favor” dialoga com essa linhagem, mas imprime um sotaque próprio: maranhense, pastoral, com importantes citações Bíblicas e por uma confiança radical de que o amor, quando levado a sério, ainda pode ser boa notícia. Imensamente feliz em ter sido convidado para apresentar essa brilhante obra.
Mhario Lincoln
Jornalista e poeta, editor da Plataforma Nacional do Facetubes.
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