
PÓesia
SHARLENE SERRA
Meu pai tinha um jeito curioso de falar da vida.
Enquanto muita gente prefere evitar certos assuntos, ele olhava para eles com uma serenidade quase filosófica. Um dia, no meio de uma conversa simples, dessas que parecem não querer dizer nada demais, já incomodado com o Parkinson e suas consequências, comentou sobre o corpo humano e o fim da matéria.
Falou disso como quem fala do tempo, da chuva ou das folhas que caem das árvores.
— Já parou para pensar na minha partida?
Confesso que não era exatamente um pensamento que costumava visitar meus dias. Não sei lidar bem com partidas, embora saiba da existência delas. Nosso egoísmo natural em querer a presença de quem amamos, independentemente de tudo, muitas vezes nos faz evitar pensar no fim.
A vida nos distrai com projetos, compromissos, sonhos e caminhos. Pensar no que acontece depois que tudo, materialmente, termina parece, para muitos, um assunto intocável.
Mas meu pai tinha esse talento: transformar perguntas incômodas em reflexões tranquilas, pelo menos para ele.
Ele dizia que o ser humano passa a vida tentando se eternizar: nos filhos, nas obras, nas lembranças, nas palavras. No entanto, o corpo segue seu curso natural, obedecendo às leis silenciosas da natureza.
Também dizia que não devemos almejar homenagens póstumas. Mas que, ainda assim, quando alguém retorna ao que sempre foi, matéria, elemento, parte do todo, isso não elimina a essência e a importância do que aquela pessoa foi em vida.
Isso permanece.
É o ciclo natural.
E agora a saudade me trouxe essas memórias.
Lembro das nossas caminhadas. Caminhávamos devagar, sentindo os pés afundarem naquele chão macio, como se a própria areia nos convidasse a sentir algo mais profundo.
Ali, nós dois e a areia entre os dedos, conseguimos tatear sentimentos. Conversávamos sobre a vida e, sem perceber, também sobre a partida.
Foi naquele momento que compreendi algo íntimo: eu não estava preparada para o processo convencional que costuma seguir uma despedida.
Havia em mim outra compreensão.
Ali, diante da areia que tocávamos, quase como um sacramento silencioso, entendemos juntos que transformar-se em pó nos aproxima imediatamente da natureza, sem atravessar certos rituais doloridos.
O corpo que volta à terra não desaparece.
Ele apenas retorna.
Talvez por isso o desejo do meu pai pela cremação sempre me tenha soado profundamente simbólico. Não pela despedida em si, mas pela imagem final: o corpo que um dia carregou histórias, abraços, lágrimas, passos e risos transformando-se em algo tão leve que pode caber na palma da mão.
Pó.
Mas aquilo que fomos não se dissolve.
Fica espalhado nos gestos que ensinamos, nas palavras que deixamos, nos afetos que plantamos.
O corpo vira pó.
E talvez seja justamente aí que algo bonito acontece.
Porque, no fim, o que permanece de nós continua circulando pelo mundo, em lembranças, em histórias, em sentimentos.
Talvez por isso, de alguma forma inesperada e bonita, a cremação nos transforme em outra coisa.
Não apenas em pó.
E em uma das nossas caminhadas matinais pela praia, ele disse:
— Filha, na hora certa, você transformará o pó em PÓesia.
E eu obedeci.
Do pó viemos e em PÓesia nos transformaremos.
(2 anos e 8 meses sem a presença física do meu pai)
Sharlene Serra
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