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Algo diferente acontece no Planeta Lírico: “Curare” chega aos 30 anos fazendo da amizade um poema vivo

Grupo celebra três décadas de literatura, memória e afeto, enquanto o poema “Pescaria” reafirma a delicadeza humana de sua travessia

18/03/2026 às 12h42 Atualizada em 18/03/2026 às 13h57
Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes/Editoria de Literatura e Arte
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César Willian e Bioque Mesito
César Willian e Bioque Mesito

Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln, jornalista e poeta.

Há grupos literários que nascem para publicar livros, frequentar salões ou ocupar calendários culturais. O "Curare de Poesia", ao que revelam os materiais comemorativos de seus 30 anos, nasceu para algo mais raro e mais duradouro: transformar amizade em permanência estética. Sua história aparece marcada não apenas pelo encontro entre escritores, mas por uma vocação afetiva que fez da poesia um elo entre sensibilidades, sonhos e experiências compartilhadas. Em tempos de vínculos rápidos e dispersos, esse traço confere ao "Curare" uma grandeza silenciosa. O grupo não celebra apenas uma data. Celebra uma maneira de existir.

O que se vê nessa trajetória é uma literatura que não se separa da convivência. A palavra, nesse ambiente, não surge como ornamento nem como exercício de vaidade, mas como lugar de abrigo. O próprio texto comemorativo indica que, desde o início, o "Curare" foi organizado por amigos unidos pelo desejo de escrever poemas, viver a literatura e cultivar a amizade. Há nisso uma beleza antiga, quase artesanal, como se cada verso também tivesse sido feito para sustentar a presença do outro. A poesia, aqui, não é somente linguagem. É casa comum.

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Como toda história verdadeira, a desse grupo também carrega ausência. A lembrança de Rosemary Rêgo e Itaguacy Silva, citados no material, dá à celebração uma espessura humana ainda maior. Eles já partiram deste mundo, mas permanecem vivos na memória, no afeto e na poesia que ajudaram a semear. Essa passagem é uma das mais comoventes porque revela o que há de mais nobre numa comunidade literária: a capacidade de guardar seus nomes não como sombras do passado, mas como presenças que continuam respirando dentro da obra coletiva. A amizade, quando tocada pela arte, recusa o desaparecimento completo.

O marco inaugural do grupo, com a exposição "Sygnos.Doc", nas dependências do Palacete Gentil Braga, da UFMA, ganha valor simbólico nessa comemoração. Ali, ao que tudo indica, começou uma travessia que o tempo não dissolveu. Mesmo com novos rumos ao longo dos anos, o verdadeiro motivo permaneceu o mesmo: a amizade. Muitos grupos sobrevivem por disciplina. Poucos atravessam décadas por fidelidade emocional. E é justamente isso que torna seus 30 anos algo maior que uma efeméride. Trata-se da confirmação de que a literatura também pode ser uma forma de lealdade.

 

Nesse contexto, o poema “Pescaria”, de César William, fundador-integrante do grupo, surge como uma espécie de síntese sensível dessa jornada. O texto vê nas mãos enrugadas que tecem a rede uma imagem de criação profunda, quase sagrada. O velho pescador, ao cruzar nó por nó no nylon, é comparado a um poeta que burila a palavra. Não se trata apenas de uma metáfora feliz. Trata-se de uma visão de mundo. Em “Pescaria”, a rede não é mero instrumento de trabalho; é extensão da alma, oficina de angústias, geografia íntima. O labor das mãos e o labor do verso se confundem, como se pescar e escrever fossem gestos irmãos diante do mistério.

A força do poema está justamente nessa fusão entre matéria e emoção. A malha que se refaz em zigue-zague, a agulha que vai “desembrulhando angústia”, o polegar que abre “nova janela” para o escoamento das mágoas revelam um poeta atento à dignidade do gesto humano. César William, destarte, faz da pescaria uma imagem da própria existência, com suas dúvidas, seus atalhos, suas perdas e suas insistências. É um poema de apuro imagético e pulsação humana, perfeitamente ajustado ao espírito do "Curare"", que parece ter aprendido, ao longo do tempo, a transformar convivência em permanência verbal.

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Aos 30 anos, o Grupo Curare de Poesia se apresenta, assim, como uma pequena e preciosa resistência contra a aridez. Sua comemoração não fala apenas de produção literária, mas da permanência de um vínculo fraterno construído pela arte e pela convivência. E talvez seja exatamente isso que mais comova. No fundo, este grupo recorda o que o jornalista e poeta Mhario Lincoln, sempre fala. Que "a poesia continua sendo uma das formas mais delicadas e mais firmes de impedir que a vida endureça por completo".

Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.

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