
De acordo com os dicionários, ver é um ato fisiológico, automático e superficial de captar imagens com os olhos. Enxergar é um processo mental, cognitivo e profundo, que enolve interpretação, compreensão e o entendimento do que está sendo visto. Enxergar o mundo através da literatura transforma a realidade, permitindo viajar no tempo e espaço, desenvolver empatia e compreender a diversidade cultural e a complexidade humana.
Quando nos remetemos às literaturas, elas funcionam como um espelho e janela, oferecendo-nos novas perspectivas, estimulando o nosso senso crítico e expandindo a nossa visão sobre a sociedade e nosso eu interior. São como um portal mágico que nos transporta para outros universos, nos fazendo enxergar além do óbvio. Cada palavra escrita e/ou imagem é um convite para explorar novas perspectivas e expandir nossa percepção de mundo.
Enxergar o mundo através das obras de Italo Calvino (1923-1985) é um exercício de observação minuciosa, mistura de fantasia com precisão matemática, e a busca por leveza na compreensão da complexidade da existência. O autor italiano propõe um olhar que frequentemente "desnuda" a realidade, desconstruindo-a para melhor entendê-la, seja através de cidades imaginárias seja da observação paciente da natureza.
· No livro Palomar, o personagem homônimo decide que sua principal atividade será observar as coisas do lado de fora, tentando entender o mundo através de um olhar paciente e detalhado, quase científico, mas também melancólico.
· Na obra As Cidades Invisíveis, Marco Polo descreve cidades para Kublai Khan que funcionam como espelhos da alma humana, revelando a dualidade, a beleza e a podridão da civilização. Enxergar o mundo é encarar as "cidades invisíveis" dentro de nós.
Nessa perspectiva, Reginaldo Dias (licenciatura História Universidade Jorge Amado, pós-graduação em História Social Política e Econômico faculdade São Bento, Especialização em Imagens, representação na Educação IFBA e fundador do Kilombo Virtual – siga em @kilombovirtual2024) nos convida a uma profunda reflexão sobre a visão de mundo que construímos ao longo da vida. A partir de um pensamento do professor: “Quem reduz nutrientes e pedagogia sabe o que está fazendo”, uma reflexão profunda nos provocada. De acordo com o pesquisador, essa frase nos provoca “uma reflexão profunda. Ela desloca o debate da ideia de simples problema social e nos leva a perceber que tais ações podem estar inseridas em processos muito mais amplos e estruturais.
Quando nutrientes — base material da vida humana — e a pedagogia — caminho para a construção do conhecimento são reduzidos ou enfraquecidos, não se trata apenas de carência ou descuido. Estamos diante de decisões que impactam diretamente a formação e as condições de existência das pessoas.
Essa reflexão dialoga com o conceito de Necropolítica, desenvolvido por Achille Mbembe, que discute como determinadas estruturas de poder passam a decidir quem pode viver plenamente e quem é empurrado para condições de morte social, abandono ou precariedade extrema. Nesse sentido, a restrição de nutrientes e de acesso ao conhecimento pode funcionar como um mecanismo silencioso de controle e de desigualdade.
Também é possível aproximar essa reflexão do pensamento de Giorgio Agamben, especialmente de sua análise sobre o Homo Sacer e o Estado de Exceção, que mostram como certas populações podem ser colocadas à margem da proteção plena das leis e das políticas públicas, vivendo em condições de vulnerabilidade permanente.
Nesse contexto, é importante reconhecer que a população negra e os povos originários do continente americano são, historicamente, os mais afetados por essas dinâmicas. Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que diversos outros fatores compõem essa conjuntura de ações e escolhas de governos e estruturas de poder.
Outros elementos também impactam diretamente o desenvolvimento das pessoas, como segurança pública, acesso à água potável, transporte público de qualidade, iluminação urbana, redes públicas de infraestrutura e acesso efetivo à rede de saúde. Esses fatores fazem parte das condições materiais mínimas que possibilitam uma vida digna e o pleno desenvolvimento humano.
Também é sempre necessário lembrar que boa parte do mundo passou séculos marcada por sistemas que transformaram seres humanos em propriedade. Essa herança histórica ainda projeta efeitos no presente. Por isso, tanto o acesso aos nutrientes, que sustentam a vida, quanto ao conhecimento, que emancipa e amplia a consciência são pilares essenciais para a humanidade. Comprometer esses elementos — juntamente com as demais condições básicas de vida significa afetar não apenas indivíduos, mas o próprio futuro das sociedades”.
A partir dessa reflexão do professor Reginaldo Dias, podemos pensar que se, em condições normais, nossos olhos nos permitem caminhar sem tropeços, contemplar a beleza do céu e do mar, admirar o encanto dos animais e nos emocionar com a alegria das crianças. Saudável, a visão amplia nossas experiências e nos conecta com o que há de mais belo ao nosso redor. No entanto, quando surgem sinais de cansaço ou a vista começa a ficar embaçada, sabemos ser hora de procurar um especialista: o oftalmologista. Após exames cuidadosos, ele prescreve óculos que corrigem as falhas da percepção, devolvendo nitidez às imagens que estavam distorcidas.
Mas o que acontece quando a limitação não está nos olhos, e sim na maneira como enxergamos o mundo? Quando as dificuldades estão no campo político, econômico e social, a correção não é simples nem imediata. Diferentemente dos óculos, que ajustam a visão física com relativa rapidez, a ampliação da visão crítica exige tempo, disposição e um conjunto de fatores formativos. A mente precisa de leitura, diálogo, experiências diversas, educação de qualidade e acesso à informação para que sua percepção se torne mais clara e consciente.
É nesse ponto que a reflexão ganha densidade. Ao afirmar que “quem reduz nutrientes e pedagogia sabe o que está fazendo”, o professor aponta para algo estratégico: limitar o acesso à alimentação adequada e à educação é também limitar horizontes, restringir consciências e enfraquecer a capacidade crítica da sociedade. A precarização dessas bases não é neutra. Ela impacta diretamente a forma como as pessoas compreendem a realidade e participam dela.
Assim, a melhor forma de corrigir a “visão mental” não é por meio de lentes, mas pela ampliação do conhecimento. Investir em educação, ciência, cultura e políticas públicas que fortaleçam a dignidade humana é o caminho para formar cidadãos capazes de enxergar além das aparências, questionar injustiças e atuar na transformação social. Enxergar é mais do que ver com clareza. É compreender o mundo com consciência crítica e responsabilidade coletiva.
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