
Esmeralda Costa
Na bela cidade de Recife, a história foi escrita com tinta, xilogravura e resistência. Realizou-se nos dias 20, 21 e 22 o 1º Congresso Brasileiro de Cordel, reunindo 146 participantes, pertencentes a 19 estados brasileiros. E não foi apenas um encontro, foi um marco civilizatório para a cultura popular brasileira, foi o grito coletivo que ecoa das feiras nordestinas para todo o país.
Reunindo poetas, pesquisadores, editoras, artistas e agentes culturais, o congresso consolidou aquilo que há muito já era verdade nas vozes do povo: o cordel é literatura plena, viva e essencial. Não é folclore reduzido, nem curiosidade periférica. É arte com estética própria, tradição editorial e uma potência única de comunicação e formação social .
Recife foi o berço acolhedor, o palco do grandioso evento e ponto de partida para a unidade no cordel, para reunir e estreitar laços entre os cordelistas do Brasil, mas sobretudo para buscar juntos as políticas e metodologias que ampliarão ainda mais os espaços ocupados pela Literatura de Cordel no Brasil.
Escolher Recife como sede não foi acaso. Foi reverência. Foi reconhecimento. Foi retorno às origens, pois foi nessa terra que Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima e outros grandes nomes, ajudaram a transformar o cordel em um dos mais autênticos meios de expressão do povo brasileiro.
Também foi aqui que o jornalista Luiz Beltrão de Andrade Lima reconheceu o valor dessas manifestações ao formular a teoria da folkcomunicação um marco que elevou o cordel ao status de sistema legítimo de produção de conhecimento popular.
Mais do que celebrar o passado, o congresso apontou caminhos concretos para o futuro. A criação da Federação Brasileira dos Cordelistas (FEBRACORDEL) surge como um divisor de águas, unindo vozes e estruturando uma representação nacional capaz de dialogar com políticas públicas, ampliar direitos e fortalecer toda a arquitetura produtiva da literatura de cordel .
A Carta do Recife, documento central do encontro, é ao mesmo tempo manifesto, denúncia e projeto. Denúncia da histórica marginalização do cordel e projeto de um Brasil que reconheça, valorize e invista em sua própria cultura.
O Cordel precisa ser visto tal como ele realmente é: cultura, educação e transformação.O congresso reafirmou o cordel como ferramenta estratégica em múltiplas dimensões: educação, comunicação, economia criativa e formação cidadã. Entre as propostas, destacam-se a inserção do cordel nas escolas, a criação de cordeltecas, editais permanentes, preservação de acervos e incentivo à presença feminina, historicamente invisibilizada, mas essencial na construção dessa tradição. E aqui ressalte-se Maria das Neves a primeira mulher cordelista que precisou esconder-se por trás de um pseudônimo masculino para ter seus cordéis publicados.
Ao reconhecer o cordel como instrumento de consciência crítica, o movimento também o posiciona como aliado fundamental na democratização da informação e na luta contra desigualdades sociais. Trata-se de uma história de resistência que floresce na primavera cultural da literatura de cordel no Brasil. Durante décadas, cordelistas enfrentaram censura, perseguição e exclusão. Ainda assim, mantiveram viva a chama da poesia popular, levando versos às feiras, às praças e aos corações. Hoje, essa chama não apenas resiste, ela ilumina.
O 1º Congresso Brasileiro de Cordel simboliza essa virada: da margem ao centro, do silêncio ao protagonismo, da resistência à organização. Recife não foi ponto final. Foi ponto de partida para que venham os próximos capítulos dessa história. O congresso inaugura um novo tempo, em que o cordel se afirma como política de Estado, patrimônio vivo e força criativa do Brasil. Um tempo em que a poesia popular deixa de pedir espaço e passa a ocupar, com legitimidade, o lugar que sempre lhe pertenceu.
Que venham os próximos congressos.
Que venham mais encontros, mais vozes, mais versos.
Porque o cordel não apenas conta a história do povo, ele é, em si, a própria história viva do Brasil
Apresentamos aqui a Diretoria provisória da FEBRACORDEL
Susana Morais - Pernambuco
Graziela Barduco - São Paulo
Jotacê Freitas - Bahia
João de Castro - Pará
Lucivânio Correia - Ceará
Simone Carla - Pará
Nando Poeta - Rio Grande do Norte
Alexandra Lacerda - Santa Catarina
VÍDEO BÔNUS
FEBRACORDEL - Diógenes Pereira e Antônio Marinho, falam sobre o 1° Congresso
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Esmeralda Costa é natural de Campos Sales-CE
Membra da Academia Poética Brasileira(APB)
Membra fundadora da Academia Cearense de Literatura de Cordel(ACLC)
Membra correspondente da Academia Groairense de Letras(AGL)
Membra da Academia Internacional de Literatura Brasileira(AILB)
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