Segunda, 27 de Julho de 2026 00:07
(xx) xxxxx-xxxx
Cidades Vitória Duarte

Mais um texto especial de Vitória Duarte (MA): “A utilidade do inútil”.

Vitória Duarte é convidada da Plataforma Ncional do Facetubes.

15/04/2026 05h18 Atualizada há 3 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Vitória Duarte (autora)
(Crédito: original do texto).
(Crédito: original do texto).

Por Vitória Duarte.

Dizem que ler e escrever não servem para nada. Que não alimentam, não constroem, não resolvem. Que, diante das urgências do mundo, a literatura é um luxo, um excesso, um desvio. Amar palavras, então, seria um tipo refinado de inutilidade.

Repetem isso com a segurança de que só o que é útil merece existir. Mas basta pensar um pouco mais demoradamente para se dar conta de que nem mesmo nós somos, de fato, úteis. Quando alguém morre, o mundo não se interrompe. As ruas continuam cheias, os relógios seguem funcionando e o mar não recua. Até mesmo aqueles que amavam quem se foi continuam, mesmo com dor, com ausência, mas continuam.

Continua após a publicidade

Há um fato simples, quase incômodo: a vida não depende de ninguém em particular para seguir adiante. E, ainda assim, cada existência é irrepetível. Talvez o nosso erro esteja justamente em medi-la por utilidade.

Se é assim com a vida, por que seria diferente com a literatura?

Foi nesse deslocamento que Antonio Candido, em “O direito à literatura, pensou a literatura como uma necessidade universal. Não como adorno, mas como direito. Não como distração, mas como aquilo que forma, que organiza a experiência humana, que impede que a vida se reduza a uma sequência de fatos brutos.

Mas percebe-se que a palavra “necessidade” incomoda, já que tudo o que é necessário, imagina-se, deveria proteger, evitar a perda, conter o tempo, impedir o desgaste inevitável das coisas. E a literatura não faz nada disso. Um livro não devolve o que se perdeu, e uma frase não suspende o fim.

 

Reconhecendo-me um ser dispensável e, nesse ponto, próxima de Fernando Pessoa, porque a literatura me permite crer que posso ser, e sabendo que as flores florirão da mesma maneira sem mim, acredito na escrita de Lygia Fagundes Telles, na sua coragem de confiar no que não se justifica e de permanecer fiel ao que já não tem função, mas resiste quando insiste que é preciso amar o inútil, criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar.

Continua após a publicidade

Acredito em Lygia porque amar o inútil é uma forma de permanecer em um mundo que opera por perdas. E é no interior dessas perdas que encontramos o motivo dessa insistência: uma frase, uma lembrança, um gesto sem função e, claro, a literatura, que não impede o desaparecimento, mas impede que tudo se torne indistinto.

Costumo dizer que ter uma vida, existir e viver é atravessar o mar amando essa inútilidade. Atravessar o mar que não precisa de nós, que não se altera com a nossa presença e não guarda memória dos que o atravessam. E, ainda assim, há quem entre nele como quem busca alguma forma de sentido, mesmo sabendo que não há garantia de retorno intacto.

Ler e escrever pertencem a esse mesmo risco. Não servem para nada que o mundo possa contabilizar, mas são modos de não desaparecer completamente dentro do que acontece e quem sabe a forma mais inútil e, por isso mesmo, mais humana de dizer humanidade.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Keila MartaHá 3 meses atrásSão LuísObservo que a percepção cultural do nosso povo ainda tem muito a evoluir, quando as pessoas entenderem que o saber cultural e que se reflete de forma positiva na forma de pensar, andar, de conversar, expressar e sobretudo deixar de lado hábitos grosseiros. E só com muito saber o homem de fato se torna civilizado. É tanto que as nações ricas lutaram muito e se fortaleceram nesse quesito e não abrem mão do que conquistaram.
Keila MartaHá 3 meses atrásSão LuísA literatura parece desnecessária porque ela não está na banca de utilidades, entre os serviços básicos, ela não está de forma fluida entre a maioria, da classe C para baixo as pessoas nem leem direito, sentem dor de cabeça, salvo uns poucos que rompem com essa preguiça intelectual. Assim, a produção literária está cotidianamente no lugar onde as pessoas buscam evoluir nos detalhes, a literatura assim como a filosofia, as artes de forma em geral e ciências, refina e nos tornam pessoas melhores.
Vitória DuarteHá 3 meses atrásSão Luis Sharlene, sua leitura me toca de um lugar antigo e muito querido. Obrigada por seguir apreciando minhas travessias e voos. Um grande abraço!
Vitória DuarteHá 3 meses atrásSão Luis Muito obrigada, professor Carlos Trumman ! Suas palavras me emocionam e me dão ainda mais coragem para continuar escrevendo.
Vitória Duarte Há 3 meses atrásSão Luis Agradeço a leitura, querida Marluce Negrito. Há, de fato, certos leitores que, às vezes, reduzem a literatura a uma utilidade que não é a dela, quando a preocupação maior deveria ser ampliar o olhar, sem precisar desqualificar quem pensa diferente.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 21h01
14°
Tempo nublado

Mín. 11° Máx. 22°

14° Sensação
1.28 km/h Vento
96% Umidade do ar
12% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (28/07)

Mín. 15° Máx. 27°

Tempo limpo
Quarta (29/07)

Mín. 17° Máx. 28°

Tempo limpo
Ele1 - Criar site de notícias