
Por Vitória Duarte.
Dizem que ler e escrever não servem para nada. Que não alimentam, não constroem, não resolvem. Que, diante das urgências do mundo, a literatura é um luxo, um excesso, um desvio. Amar palavras, então, seria um tipo refinado de inutilidade.
Repetem isso com a segurança de que só o que é útil merece existir. Mas basta pensar um pouco mais demoradamente para se dar conta de que nem mesmo nós somos, de fato, úteis. Quando alguém morre, o mundo não se interrompe. As ruas continuam cheias, os relógios seguem funcionando e o mar não recua. Até mesmo aqueles que amavam quem se foi continuam, mesmo com dor, com ausência, mas continuam.
Há um fato simples, quase incômodo: a vida não depende de ninguém em particular para seguir adiante. E, ainda assim, cada existência é irrepetível. Talvez o nosso erro esteja justamente em medi-la por utilidade.
Se é assim com a vida, por que seria diferente com a literatura?
Foi nesse deslocamento que Antonio Candido, em “O direito à literatura,” pensou a literatura como uma necessidade universal. Não como adorno, mas como direito. Não como distração, mas como aquilo que forma, que organiza a experiência humana, que impede que a vida se reduza a uma sequência de fatos brutos.
Mas percebe-se que a palavra “necessidade” incomoda, já que tudo o que é necessário, imagina-se, deveria proteger, evitar a perda, conter o tempo, impedir o desgaste inevitável das coisas. E a literatura não faz nada disso. Um livro não devolve o que se perdeu, e uma frase não suspende o fim.
Reconhecendo-me um ser dispensável e, nesse ponto, próxima de Fernando Pessoa, porque a literatura me permite crer que posso ser, e sabendo que as flores florirão da mesma maneira sem mim, acredito na escrita de Lygia Fagundes Telles, na sua coragem de confiar no que não se justifica e de permanecer fiel ao que já não tem função, mas resiste quando insiste que é preciso amar o inútil, criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar.
Acredito em Lygia porque amar o inútil é uma forma de permanecer em um mundo que opera por perdas. E é no interior dessas perdas que encontramos o motivo dessa insistência: uma frase, uma lembrança, um gesto sem função e, claro, a literatura, que não impede o desaparecimento, mas impede que tudo se torne indistinto.
Costumo dizer que ter uma vida, existir e viver é atravessar o mar amando essa inútilidade. Atravessar o mar que não precisa de nós, que não se altera com a nossa presença e não guarda memória dos que o atravessam. E, ainda assim, há quem entre nele como quem busca alguma forma de sentido, mesmo sabendo que não há garantia de retorno intacto.
Ler e escrever pertencem a esse mesmo risco. Não servem para nada que o mundo possa contabilizar, mas são modos de não desaparecer completamente dentro do que acontece e quem sabe a forma mais inútil e, por isso mesmo, mais humana de dizer humanidade.
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