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“UM HOMEM, UMA MULHER, UM NEGRO E UM CANADENSE”

“A PENA DO PAVÃO”, publicado em Ensaios, Jurídico, Opinião, Política Ano 14 – vol. 04 – n. 42/2026 https://doi.org/10.5281/zenodo.19481880

09/04/2026 às 15h37 Atualizada em 09/04/2026 às 16h37
Por: Mhario Lincoln Fonte: JOSE CLAUDIO PAVAO SANTANA
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(Divulgação).
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JOSÉ CLAUDIO PAVÃO SANTANA, convidado da Academia Poética Brasileira.

Há frases que dispensam análise. Não porque sejam simples, mas porque são reveladoras demais. Daquelas que, ao serem ditas, não informam sobre o mundo — informam sobre quem as pronuncia.

“Um homem, uma mulher, um negro e um canadense.” Sim, esta frase foi dita em um programa de televisão por uma jornalista quando o assunto girou em torno da viagem dos astronautas em torno da lua. Houve uma certa concordância de uns e o silêncio de outros, o que me inquietou de imediato.

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Confesso que revi a cena mais de uma vez. Não por dificuldade de compreensão, mas por resistência em admitir que, em pleno século XXI, ainda seja possível ouvir algo que, se não é abertamente racista, ao menos flerta com a desumanização pela via do lapso — esse velho refúgio das verdades incômodas.

Porque, no fundo, é disso que se trata: quando alguém precisa separar “um negro” ou “um canadense” da categoria “homem”, o que se revela não é um problema de sintaxe. É um problema de concepção. Há ali, ainda que disfarçada, uma hierarquia implícita sobre quem integra — ou não — o gênero humano em sua plenitude.

Mas não nos apressemos em julgamentos. Afinal, vivemos tempos de elevada sensibilidade moral seletiva. Indigna-se com vigor diante de metáforas inconvenientes, vigia-se a linguagem com lupa militante, mas, curiosamente, certas construções que tangenciam o preconceito passam quase incólumes — talvez porque não estejam no script da indignação do dia.

É um curioso fenômeno: há um zelo quase litúrgico com determinadas causas e uma indulgência desconcertante com outras. O resultado é esse mosaico de incoerências em que se combate o símbolo e se tolera o sintoma.

Nesse ponto, convém lembrar — ainda que pareça elementar — o que dispõe a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Logo em seu art. 1º, III, estabelece-se como fundamento da República a dignidade da pessoa humana. Não de algumas pessoas. Não das pessoas previamente classificadas como adequadas a determinados padrões. Mas da pessoa humana, em sua inteireza, sem adjetivações excludentes.

O art. 5º reforça o óbvio que, ao que parece, precisa ser constantemente reaprendido: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. E, para que não reste margem a dúvidas, o constituinte foi ainda mais direto ao qualificar o racismo como crime inafiançável e imprescritível (art. 5º, XLII). Não como deslize linguístico. Não como “interpretação possível”. Como crime.

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Diante disso, causa certa perplexidade que profissionais cuja função social é informar — e, em alguma medida, formar — incorram em construções que tensionam exatamente esses pilares. Não por ignorância normativa, presume-se, mas por algo mais profundo: a naturalização de categorias mentais que resistem à ordem constitucional.

E aqui entra um detalhe que não deveria ser secundário: o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Entre seus princípios fundamentais está o compromisso com a verdade, o respeito à dignidade da pessoa humana e a rejeição a qualquer forma de discriminação. Não se trata de recomendação estética. É norma de conduta profissional.

Mas, ao que tudo indica, há uma distância confortável entre o texto normativo e a prática cotidiana. O jornalismo que deveria esclarecer passa, não raras vezes, a deformar. Não há mais o fato em sua inteireza, mas a versão. E, por vezes, nem mesmo a versão — apenas o reflexo de um repertório intelectual que, quando pressionado, revela suas fissuras.

O episódio em questão é ilustrativo não pelo escândalo que provoca, mas pela banalidade com que pode ser absorvido. E é justamente aí que reside o perigo. Quando o absurdo deixa de causar estranhamento, é porque já encontrou abrigo.

No fim das contas, talvez a maior ironia seja esta: aqueles que frequentemente se apresentam como vigilantes da linguagem e da moral pública acabam, em um instante de descuido, expondo exatamente aquilo que dizem combater.

E então resta a imagem inevitável: a mão que aponta, firme e acusadora, esquecendo-se de que, ao fazê-lo, revela muito mais de si do que do outro.

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Desde que, claro, ainda se reconheça que essa mão pertence — sem distinções — ao mesmo gênero humano.

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Maria SoteroHá 2 meses Brasília DFMuito forte. Mas eles podem tudo ou não?
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