O “Insólito maranhense” leva o debate literário para dentro da Academia Maranhense de Letras
“(...) o insólito maranhense não é fuga da realidade; é uma forma de revelá-la por meio do assombro. O estranho não funciona apenas como efeito narrativo. Ele abre uma passagem para aquilo que a crítica demorou a enfrentar (...)”. MHL
05/05/2026 às 10h52Atualizada em 05/05/2026 às 12h51
Por: Mhario LincolnFonte: Editoria de Literatura do Facetubes com base em artigo publicado por José Carlos Sanches, a quem agradecemos
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Mesa diretora dos trabalhos (Divulgação).
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, jornalista e poeta
A Academia Maranhense de Letras recebeu, em 30 de abril de 2026, em São Luís, a programação do Grupo de Estudos de Literatura Maranhense dedicada ao tema O Insólito na Literatura Maranhense. O encontro reuniu pesquisadores, escritores, artistas, acadêmicos e estudantes em torno das manifestações do estranho, do fantástico e do extraordinário na produção literária do Maranhão.
A abertura ocorreu com o recital A Noite dos Insólitos, interpretado por Linda Barros, da Academia Poética Brasileira, e pela professora Maria Regina Costa. A apresentação trouxe textos de Maranhão Sobrinho que, nesse trecho abaixo, apenas um exemplo de sua escrita no gênero:
"O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
do dia em que, a lembrar piratas do mar Jônio,
põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio..."
Vieira da Silva. (Idem):
"E numa alegria louca
De luz o céu regorjita.
Um verso me sai da boca
e Sirius perto palpita"
Inácio Xavier de Carvalho, (Idem)::
"De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos". (Noivas Mortas).
e José Neres (Idem):
"Mais de mil sonetos falam de amor,
Dez mil idolatram a solidão,
Mas estes meus têm outro sabor,
Sabor de fome medo e podridão".
Todos esses fragmentos líricos aproximam a palavra literária da cena e dão ao tema (mesmo que esses fragmentos não sejam especificamente os pronunciados no evento), dão uma dimensão pública do que foi debatido na ocasião.
A mesa foi conduzida por José Neres e contou com Lourival Serejo, (Presidente AML), Mauro Cezar Vieira, Tarcyene Muniz e Naiara Sales. A discussão tratou da presença do insólito na literatura maranhense, campo em que o cotidiano passa a conviver com a ruptura da lógica comum, com o sobrenatural, o horror, o fantástico e as formas narrativas que deslocam a realidade para outro plano de leitura.
Organizado pelo professor Dino Cavalcante, coordenador do GELMA, o evento também aproximou a Academia dos estudantes do curso de Letras da UniFacam, presentes ao encontro ao lado de acadêmicos, artistas, intelectuais e agentes culturais. Ao final, houve doação de livros aos alunos, gesto que reforçou o compromisso de formar leitores e manter a literatura em circulação fora dos limites da solenidade.
A noite confirmou o papel da Academia Maranhense de Letras como espaço de debate, memória e formação. Ao levar o insólito para o centro da pauta, o GELMA abriu uma frente de leitura sobre autores, obras e abordagens que ajudam a compreender a literatura maranhense para além do registro histórico, alcançando também suas zonas de espanto, invenção e ruptura.
Aproveitando a deixa, vale acrescentar que o insólito na literatura maranhense é discutida atualmente através de uma linha crítica capaz de reler autores do Maranhão fora do enquadramento habitual. A fonte mais direta é o artigo “Manifestação do insólito através do duplo no conto O Duplo, de Coelho Neto”, de Onivaldo Ferreira Coutinho Sobrinho e Naiara Sales Araújo, publicado na Revista de Letras Juçara, da UEMA. O estudo acrescenta que o "fantástico' foi “consideravelmente explorado por autores maranhenses” e toma o conto O Duplo, de Coelho Neto, como caso de presença do insólito na chave do duplo e da hesitação fantástica.
Momentos importantes do evento. (Divulgação). Outra fonte consistente é a dissertação de mestrado de Lívia Fernanda Diniz Gomes, defendida na UFMA, com o título “O fantástico em Aluísio Azevedo e Coelho Neto: análise dos contos Demônios e A Bola”. A pesquisa sustenta que Demônios, de Aluísio Azevedo, e A Bola, de Coelho Neto, podem ser legitimados como narrativas fantásticas, embora seus autores sejam mais lembrados por outros movimentos literários. A dissertação aponta que essas obras ficaram esquecidas pela crítica e pelo público, em parte porque o fantástico brasileiro ainda é pouco divulgado e pouco estudado no meio acadêmico.
O dado mais forte, do ponto de vista jornalístico, talvez esteja em A Virgem da Tapera, de João Clímaco Lobato. O repositório da UFRJ registra uma monografia sobre o romance e afirma que a obra “ressurge como uma importante peça do gênero gótico na literatura brasileira”. A mesma pesquisa trabalha a relação entre sobrenatural e trauma histórico, assinalando que o romance também expõe horrores do escravismo, preconceitos raciais e genocídio indígena.
A Livraria AMEI, ao apresentar a edição da UEMA, informa que o livro, publicado em 1862, é tratado como o primeiro romance gótico brasileiro, marcado por ruínas, figura fantasmagórica e clima de mistério. Há também uma opinião direta do escritor e professor José Neres, (AML/APB-MA). Em entrevista à Plataforma Nacional do Facetubes, ele destacou A Virgem da Tapera como obra maranhense do século XIX que já trazia “elementos que remetem ao insólito” e que pode servir como fonte para estudar linguagem e costumes de sua época. Essa declaração ajuda a deslocar o tema do campo puramente teórico para a leitura da tradição maranhense.
A presença de Naiara Sales Araújo no debate também tem peso. Professora associada do Departamento de Letras, ela atua em áreas como Literatura Comparada, Ficção Científica e Literatura Fantástica. A própria EDUFMA registra ainda o livro Literatura fantástica, ficção científica e literatura gótica: interfaces e diálogos entrelaçados, organizado por Naiara e publicado em 2018, como exemplo fundamental para entender o gênero. Em artigo de 2025, ela mesma escreve sobre a produção fantástica feminina brasileira esquecida e inclui Laura Rosa, autora ligada ao Maranhão, entre nomes que ajudam a preencher lacunas da historiografia literária.
BELO: Linda Barros & Regina Costa. O GELMA (leia-se Dino Cavalcante, coordenador), também aparece como núcleo importante dessa retomada. A própria UFMA registrou, em 2022, que o II Simpósio do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense incluiu o tema “Insólito na Literatura Maranhense” em sua programação, ao lado de discussões sobre modernismo, literatura infantil e Astolfo Marques.
Desta forma, a editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes conclui que o insólito maranhense "(..) não é fuga da realidade; é uma forma de revelá-la por meio do assombro. O estranho não funciona apenas como efeito narrativo. Ele abre uma passagem para aquilo que a crítica demorou a enfrentar: o medo, a duplicidade, a ruína, o trauma histórico, o apagamento de obras e a permanência de uma literatura maranhense que, mesmo à margem do cânone mais repetido, já dialogava com o fantástico, o gótico e o sobrenatural", complementa o jornalista e poeta Mhario Lincoln.
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
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Joizacawpy Há 1 mês São Luís Com certeza foi um momento produtivo e necessário no campo das letras. Que outros eventos desse porte possam acontecer. Parabéns pela matéria.
Keila MartaHá 1 mês São LuísE como sempre, uma matéria irretocável. Parabéns!
Keila MartaHá 1 mês São LuísInteressantíssima essa matéria e que bom que tem acontecido eventos como esse que abre debate sobre um tema pouco visto em Literatura Maranhense, pelo menos na época em que fiz faculdade eu achei muito escassa essa disciplina no curso de Letras, e até porque algumas obras são difíceis de encontrar. Vejo que é muito pertinente esse olhar e a proximidade dos universitários com a Academia Maranhense de Letras é algo que abre perspectivas sobre a pesquisa literária em nosso estado.
Linda BarrosHá 1 mês São Luís -MaranhãoFoi uma noite memoria, em que a AML recebeu o grupo de pesquisa GELMA assim como alunos universitários e o público em geral. Linda matéria, so gratidão
José Neres Há 1 mês São Luís/ MAFoi um excelente evento, assim com excelente também está matéria de divulgação.