
Eloy Melonio
“Valeu, amigo!” Foi só o que eu disse ao entregador depois de receber uma encomenda no portão da minha casa. Ele sorriu agradecido e, provavelmente, ficou surpreso com o tratamento cordial a ele dispensado. Nesse contexto informal, minhas palavras, àquela hora da noite, soaram mais generosas que o tradicional “Muito obrigado!”.
Motivado por um texto carinhoso num grupo do WhatsApp, em que uma pessoa homenageava um aniversariante, decidi escrever sobre "amigos", embora ela não tenha usado essa palavra. Falou dos dezessete anos de convivência, que, entre eles, é uma fortaleza decorada com as bandeiras do Flamengo e do Fluminense. E que o segredo dessa amizade consistia em “rir das diferenças e manter o respeito”.
Nosso tema, portanto, não é “amizade”, mas a pessoa que valoriza e celebra essa condição em seus relacionamentos. Ou seja, o “amigo”. Complicado? Talvez. Se você me acompanhar até o fim desta crônica, tentarei tirar essa pedrinha do meio do caminho.
Por enquanto, ficamos assim: amigos, amigos; amizade à parte. Parece incoerente, mas não é. É que a amizade — sentimento fiel de afeto, carinho, simpatia — pode definir algo que está só de um lado da rua. Como, por exemplo, a senhora que demonstra atenção cordial por uma vizinha, mas não se sente correspondida.
Pois é, amigo(a), recorro a essa palavra para mantê-lo(a) interessado nesta conversa. E — quem sabe — conduzi-lo(a) até o ponto final. E aí, uma pergunta necessária: se você não me conhece, nunca falou comigo, como posso chamá-lo(a) amigo(a)?
Amigo ou amiga, essa palavrinha é a cara da simpatia. Serve para tanta coisa que nem dá para listar aqui. No auge das redes sociais, as mulheres, em especial, falavam amiúde de suas “best friends”. O entusiasmo era tão flagrante que a expressão se resumiu a “best”. Nunca esqueci desta declaração: “Foi minha best de Fortaleza quem me presenteou com este livro”.
Recentemente perguntei a uma pessoa: quantos amigos você tem? Ela baixou a cabeça e soltou esta: “Amigo amigo...”. Pensou um pouco mais e concluiu: “Dez, talvez. Ah, sei lá! Seis ou sete”. Por que essa dúvida? Será que estamos passando por uma crise de falta de amigos? Conhecemos muita gente, é verdade, mas quantos desses são nossos amigos.
E sobre a dupla “amigo amigo” (pronunciado de um fôlego) do parágrafo anterior? Essa combinação pode até não ser gramaticalmente correta, mas é muito significativa. E eu a qualifico assim: amigo (substantivo) e amigo (adjetivo), respectivamente. Faz ou não faz sentido?
Tradicionalmente, estamos mais familiarizados com este velho e cansado provérbio: “Amigos, amigos, negócios à parte”. Nessa expressão, a ideia é: “amigo é amigo", “negócio é negócio". Ou seja, cada um no seu quadrado, e ponto final.
Mas o que dizer da nossa personagem no palco da vida real?
Alguém já me confidenciou o seguinte: “se conheço a pessoa, chamo-a pelo nome; se não, uso ‘amigo’ (ou amiga) para deixá-lo(a) mais à vontade. Em situações formais, não tem como nos livrarmos do pesado ‘senhor’ ou ‘senhora’”.
Sobre a reputação do nosso velho e bom “amigo”, felizmente temos muito a celebrar. Milton Nascimento diz que “é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”. O Grupo Fundo de Quintal decanta a amizade, mas conversa mesmo é com o amigo: “Amigo, hoje a minha inspiração se ligou em você...”. Entre tantos versos com essa palavra, fico com este, de um hinário cristão, sobre Jesus: "(amigo) mais chegado que um irmão”.
Ah, os amigos! Que tal, então, um teste para avaliar alguns tipos curiosos? Quanto tempo dura uma amizade com um “amigo da vida toda”? Já sentiu a falta de um “amigo de todas as horas”? Você contaria um caso inconfessável a um “fiel amigo”? Você tem visto seu velho “amigo oculto”?
Entre tantas e tantas situações, “amigo do peito”, “amizade colorida”, “amigos das caminhadas” e por aí vai. Mas não é nada bom lembrar-se daquele “amigo do alheio”, nem esquecer que você é amigo de seu melhor amigo.
Para concluir, um recadinho oportuno: “Não te abras com teu amigo/ Que ele tem um outro amigo/ E o amigo do teu amigo/ Possui amigos também...” (Mário Quintana).
Sem contradizer o saudoso poeta gaúcho, bom mesmo é ter muitos amigos para celebrar a vida.
(Eloy Melonio: maio de 2026)
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