Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacionald do Facetubes.
No momento em que é comemorado o centenário do poeta, compositor, músico, artista multifacetado Lopes Bogéa, vale ler o que está publicado às fls. 25/26/27/28 do livro "Pedras da Rua", editado em 1988. Os textos abaixo são originariamente publicados no livro. Não são de autoria desta Plataforma.
Lopes Bogéa & Erasmos Dias
“Os meios intelectuais, principalmente os ligados à Academia Maranhense de Letras, estão divididos quanto à quebra do ritual que dá posse aos imortais. Segundo alguns acadêmicos, o presidente da Academia não deveria ter deixado que o protocolo da posse do escritor Erasmo Dias fosse violentamente infringido quando o compositor Lopes Bogéa, em plena sessão solene, cantou várias composições de sua autoria, em homenagem ao mais novo imortal maranhense. Para outros, entretanto, o espetáculo ocorrido na Casa de Antônio Lobo foi de uma beleza transcendental, pois permitiu a participação espontânea do público, enriquecendo muito mais aquela festa, na medida em que trouxe uma contribuição nova ao ritual acadêmico, que já se mostra um tanto ultrapassado".
“Fato que passou sem ter sido noticiado pela Imprensa de São Luís e que, no entanto, deveria ter tido o seu registro foi a homenagem prestada pelo compositor Lopes Bogéa ao jornalista Erasmo Dias, na Academia Maranhense de Letras. Foi, inegavelmente, uma ocorrência inédita nos anais dos sodalícios culturais de todo mundo".
“As Academias de Letras mantêm - e dela nunca descuram - uma certa circunspecção que é uma decorrência do alto nível intelectual em que vivem. Daí não serem aceitos nos seus recintos determinados tipos de manifestações, principalmente aquelas de cunho rigorosamente popular”
ERASMO DIAS
“A posse do jornalista José Erasmo Dias, cadeira número 15 da Academia Maranhense de Letras, que tem como patrono Odorico Mendes, e que vagara em razão do falecimento do professor Silvestre Fernandes, ocorreu no dia 15 de setembro último. O acadêmico Manuel Caetano Bandeira de Melo foi quem pronunciou o discurso de recepção do novo companheiro".
RECINTO A DENTRO
“Imediatamente após ter o poeta Bandeira de Melo ter concluído a sua oração, o compositor Lopes Bogéa provocou violento impacto tanto nas galerias quanto no seio dos acadêmicos. Acompanhado do professor Osvaldo Costa que conduzia um violão debaixo do braço, Lopes Bogéa entrou no recinto destinado aos acadêmicos e pediu a palavra, justificando a sua atitude com o fato de querer prestar ao seu dileto amigo Erasmo Dias uma homenagem que seria o reflexo da amizade que os ligava".
O PINHO
“O Presidente da Casa, ante o inesperado, resolveu conceder a oportunidade e Lopes Bogéa não contou conversa... Deu o tom ao professor Osvaldo e este mandou brasa no pinho. Lopes Bogéa cantou, para estupefação de alguns e para satisfação de outros acadêmicos, a música de sua autoria intitulada “Não volta não”.
BATENDO PALMAS - “Como não houvesse qualquer reação negativa mais pronunciada dos acadêmicos, Lopes Bogéa continuou o seu programa musical cantando “A Lenda dos Lençóis” e “Rasga Mortalha”, também de sua autoria e igualmente acompanhado ao violão por Osvaldo Costa.
Convém ressaltar que, a certa altura, tanto o pessoal das galerias quanto alguns dos acadêmicos fizeram o coro às músicas, batendo palma de mão e transformando aquela reunião da nossa Academia Maranhense de Letras no mais original de quantas se tem notícia."
CONCLUSÕES
“Após cantar 3 músicas, Lopes Bogéa e o seu companheiro Osvaldo Costa deixaram naturalmente o recinto. É certo que até hoje há quem faça muxoxo e diga que o gesto conspurcou a dignidade do recinto. Outros, mais “prafentex”, acham que a atitude de Lopes Bogéa deveria até ser imitada porque vivemos numa época em que não se pode mais admitir os ranços de certos rigorismos”.
Agora, como um amigo seu, compositor e, algumas vezes seu co-autor, arremato os depoimentos e apreciações críticas: conheço a sua obra, e, como poucos, os vários aspectos de sua Arte. Aspectos, por conseguinte, desconhecidos por muitos: telúrico, lírico, rústico, religioso. Sei que ele é um adorador de folclore, e das coisas simples de nossa terra. As vezes, coisas relegadas a plano inferior por outros bons compositores daqui, da terra. Quem sabe por que, desde o seu nascimento, foi embalado pelo ritmo percussionado do “Bumba-Boi”? Se ele se lembra, disse-me certa vez que nasceu num casebre coberto de palha e tapado de cofo, no interior do município de Guimarães, e que, à hora que chegou, foi saudado pelos busca-pés, carrritilhas, - besouros e zabumbas: “24 de junho”.
“Mulato ou negro? como eu, também, não se envergonha de sê-lo, de descender de escravos. A sua música vive o sofrimento desses nossos antepassados que muita gente insiste em ignorar... Como me mostra tudo o que compõe, posso dizer aos que ainda o não conhecem que a sua obra é séria, e que está ligada às raízes de nossa terra. Já me sofejou músicas de motivações e ritmos diversos: de Mina, Divino Espírito Santo, Tambor de Crioula, São Gonçalo, Chorado, Coco, Bumba-Boi, Ladainhas, Missas, Hinos Religiosos, Sambas, Marchas, Frevos, Chorinhos, Baiões... e também músicas inspiradas em lendas e tradições maranhenses e em heróis (do Maranhão e do Brasil). Portanto, qualquer compositor de música popular que tenha bagagem musical como a sua, tem que ser respeitado, e merece o nome de Grande Compositor, que ele tem”. Antônio Vieira
VÍDEO-BÔNUS
(Conjunto Nonato canta Lopes Bogéa: "A Gente e o Mar"
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