Carlos Furtado
Todos os anos, quando chegam as festas juninas, o Maranhão parece renascer ao som das matracas, dos pandeirões, dos tambores-onça e das vozes que contam uma das mais belas histórias da cultura popular brasileira. Aprofundando-se na história, pode-se observar que, desde o século XVIII, quando o bumba meu boi surgiu, lamentavelmente, havia o entendimento social de que a festa era marginalizada, associada às camadas populares e, portanto, impedida de circular em eventos sociais e áreas urbanas de prestígio. Destarte é perceptível que não era considerada como uma manifestação artística, no entanto, ao longo dos tempos, tornou-se memória, fé, resistência, identidade e pertencimento. É a alma de um povo que se reconhece em seus sotaques, em suas cores e em seus rituais.
Essa transformação ocorreu graças a um movimento de valorização da cultura local por intelectuais e pelo poder público, a partir da década de 1970, com a inserção da tradição nos grandes arraiais organizados em São Luís.
Em 2011, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão como Patrimônio Cultural do Brasil. Oito anos depois, em 11 de dezembro de 2019, veio um reconhecimento ainda maior: a UNESCO declarou o bumba meu boi Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Não foi um gesto simbólico nem um ato de mera formalidade. Para alcançar esse título, foi necessário cumprir rigorosos critérios internacionais, demonstrando que a manifestação é revestida de continuidade histórica, é transmitida de geração a geração, fortalece a identidade coletiva, conta com um plano permanente de salvaguarda e, sobretudo, tem o consentimento das próprias comunidades que a mantêm viva.
Esse reconhecimento deveria representar, naturalmente, um compromisso permanente dos poderes públicos com a preservação e o fortalecimento dessa riqueza cultural. Entretanto a realidade vivida por muitos grupos revela um cenário bastante diferente.
A recente Carta Aberta divulgada pelas entidades representativas do bumba meu boi da Grande São Luís trouxe à tona uma preocupação antiga dos fazedores da cultura popular. As reivindicações não pedem privilégios; pedem condições mínimas para que uma tradição secular continue existindo. Entre elas, estão a redução da burocracia para a contratação dos grupos, o pagamento antecipado de parte dos cachês, apoio à manutenção dos barracões, assistência técnica às entidades culturais, valorização dos mestres da cultura popular, fortalecimento dos sotaques mais vulneráveis e maior participação dos brincantes na formulação das políticas públicas.
É impossível ignorar outra questão que desperta frequentes debates: a diferença entre os recursos destinados aos grupos tradicionais e aqueles empregados na contratação de grandes atrações nacionais durante os festejos juninos. Evidentemente, artistas consagrados recebem cachês compatíveis com o mercado cultural brasileiro. Contudo também é legítimo refletir se aqueles que preservam uma tradição reconhecida como patrimônio da humanidade recebem investimentos proporcionais ao valor histórico, social e cultural que representam.
Os grupos de bumba meu boi não trabalham apenas durante o mês de junho. Durante todo o ano, mantêm barracões, confeccionam indumentárias, preservam instrumentos, ensinam crianças e jovens, acolhem comunidades, fortalecem vínculos sociais e mantêm vivos conhecimentos que dificilmente sobreviveriam sem o empenho de seus mestres e brincantes. Cada apresentação é apenas a face mais visível de um trabalho contínuo que movimenta a economia criativa e protege uma herança construída por diversas gerações.
Patrimônio cultural não se preserva apenas com títulos ou homenagens. Preserva-se com planejamento, financiamento contínuo e políticas públicas permanentes. O reconhecimento internacional alcançado pelo Maranhão impõe também uma responsabilidade compartilhada entre Estado e sociedade: garantir que essa tradição permaneça viva sem depender exclusivamente do esforço quase heroico de seus grupos.
O bumba meu boi nunca foi apenas um espetáculo para turistas. Ele representa a história de homens e mulheres que transformaram sofrimento em arte, religiosidade em celebração e diversidade cultural em patrimônio da humanidade.
Que a Carta Aberta sirva como ponto de partida para um diálogo maduro entre os gestores públicos e aqueles que, verdadeiramente, sustentam essa manifestação cultural. Valorizar o bumba meu boi significa preservar a memória do Maranhão, fortalecer sua identidade e honrar um patrimônio que hoje pertence não apenas aos maranhenses, mas a toda a humanidade.
Nesse cenário de fragilidade, instituições como a Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM) assumem um protagonismo necessário. A preservação do patrimônio imaterial não pode ser tarefa isolada de grupos populares; ela demanda a guarda documental, o rigor da pesquisa acadêmica e a defesa institucional da integridade das manifestações. O saber acadêmico e a disciplina institucional das academias funcionam como um braço técnico que confere lastro e legitimidade às reivindicações dos mestres de cultura junto ao poder público. Ao atuar como mediadora, a AMCLAM garante que a voz da tradição seja ouvida com a devida autoridade científica, transformando pleitos locais em debates estruturados de política pública, protegendo assim a memória do Maranhão contra o esquecimento ou a distorção.
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Historiador. Presidente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM) e da Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal (ALMEBRAS).
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