Prof. NATALINO SALGADO FILHO.
Membro titular das academias: Nacional de Medicina; de Letras do Maranhão; Cururupuense de Letras; Maranhense de Medicina; Ciências do Maranhão e do IHGMA.
Nasci há oitenta anos em Cururupu, no Litoral Ocidental Maranhense, onde a vida é marcada pelo ritmo das marés. Creio que foi ali, muito antes de compreender o mundo, que recebi minha primeira lição sobre a existência. O mar ensina que nada permanece imóvel: há dias de calmaria e dias de tempestade, momentos em que as águas recuam e outros em que retornam com força renovada. Talvez viver seja exatamente isso — aprender que toda perda prepara um recomeço e que a esperança sempre regressa com a próxima maré.
Hoje, ao olhar para trás, não vejo uma sucessão de conquistas. Vejo uma travessia. Uma travessia iluminada pelo trabalho, pelo estudo, pela confiança em Deus e pelo privilégio de encontrar pessoas que deram sentido à minha caminhada.
Com o tempo, compreendi que Deus nos confia talentos como quem entrega sementes: não para que permaneçam guardadas, mas para que floresçam em benefício dos outros. Se alguma graça reconheço em minha vida, foi a de nunca desistir de fazê-las frutificar.
Recebi o dom de sonhar, mas também a inquietação de realizar. Nunca me acomodei diante do que já existia. Sempre acreditei que o conhecimento deve produzir transformação, que a inteligência alcança sua maior dignidade quando colocada a serviço da vida e que nenhuma conquista possui verdadeiro valor se não melhora a existência de alguém.
Foi assim que encontrei meu caminho na medicina. Nunca consegui vê-la apenas como profissão; para mim, ela sempre foi uma vocação profundamente humana. A ciência ensinou-me a buscar respostas com rigor, disciplina e humildade. Quanto mais a conheci, mais a admirei. A fé jamais diminuiu minha confiança na ciência; ao contrário, fez-me compreender que ambas caminham na mesma direção quando procuram preservar a vida, aliviar o sofrimento e servir ao ser humano.
Na nefrologia encontrei uma missão que marcou definitivamente minha existência. Tive a felicidade de participar dos primeiros passos dessa especialidade em nosso Maranhão, colaborando para a consolidação da hemodiálise, do transplante renal e da formação de gerações de profissionais que hoje continuam essa obra muito além de mim. A medicina é sempre uma construção coletiva: cada avanço nasce do trabalho de muitos, e cada paciente recuperado carrega um pouco da inteligência, da dedicação e da generosidade de incontáveis mãos.
Entretanto, foram exatamente os pacientes que me ensinaram as maiores lições. Ao longo dos anos, descobri que, muitas vezes, falávamos menos sobre doenças e mais sobre a vida. Percebi que o verdadeiro cuidado começa quando enxergamos, antes do diagnóstico, a pessoa. Aprendi que nem sempre podemos curar, mas sempre podemos acolher; que nem sempre conseguimos prolongar a existência, mas sempre podemos preservar a dignidade e alimentar a esperança.
Também encontrei na universidade outra forma de cuidar. Ensinar é um dos gestos mais generosos que conheço. Cada aluno leva consigo um pouco daquilo que recebeu de seus mestres. O conhecimento multiplica-se quando é compartilhado — e talvez essa seja uma das formas mais belas de permanecer vivo para além de nossa própria existência.
Ao longo dessa caminhada, tive ainda a alegria de servir instituições às quais dediquei parte importante da minha vida. Entre elas, ocupa lugar muito especial a Academia Nacional de Medicina. Às vésperas de celebrar dois séculos de história, ela permanece como uma das grandes referências da medicina brasileira, guardiã da ciência, da ética, da educação médica e do compromisso permanente com a saúde da população. Pertencer a esse sodalício e conviver com confrades que ajudaram a escrever páginas memoráveis da medicina nacional constitui uma das maiores honras da minha trajetória.
Mas, se hoje alguém me perguntasse qual foi a maior realização da minha vida, eu responderia sem hesitar: foi a família. Tudo o mais encontra nela o seu verdadeiro sentido.
Meus pais ensinaram-me, sem discursos, a dignidade do trabalho, a honestidade e a fé. Meus irmãos compartilharam os sonhos da juventude. Bernardete caminhou ao meu lado, transformando desafios em esperança e vitórias em gratidão. Meus filhos deram continuidade ao amor que construímos. E meus netos devolveram ao tempo a alegria de recomeçar, lembrando-me de que a vida nunca termina em nós: ela floresce nas gerações que nos sucedem.
Talvez o maior presente destes oitenta anos seja conservar o encantamento. Continuo encontrando alegria em escrever uma nova crônica, cultivar um jardim, caminhar para cuidar do corpo e da mente, reunir a família, conversar demoradamente com os amigos diante de um bom vinho, descobrir uma ideia inédita, contemplar uma obra de arte ou testemunhar mais um avanço da ciência.
Aprendi que a felicidade não costuma fazer alarde. Ela prefere morar nas coisas simples.
Recordo-me das palavras do Salmo 90: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio.”
Contar os dias não é apenas somar anos. É atribuir significado ao tempo. É compreender que cada amanhecer oferece uma nova oportunidade de aprender, agradecer, servir e amar.
Como se costuma dizer, “o homem é do tamanho do seu sonho”. Ao longo da vida compreendi a beleza dessa afirmação, mas os anos ensinaram-me algo mais: os sonhos só encontram seu verdadeiro sentido quando se transformam em serviço. Hoje ouso acrescentar, com a humildade de quem aprendeu mais com a vida do que com os livros: o homem não é do tamanho dos seus sonhos, nem das suas conquistas; é do tamanho do bem que espalha ao longo da travessia.
Nasci junto ao mar. Hoje percebo que minha vida também se parece com ele: as águas nunca são as mesmas, mas o horizonte permanece. Houve marés de abundância e de escassez, de alegria e de dor, de silêncio e de celebração. Em todas elas encontrei razões para continuar navegando.
Chego aos oitenta anos sem a sensação de haver concluído a viagem.
Ainda desejo aprender.
Ainda desejo ensinar.
Ainda desejo escrever.
Ainda desejo cuidar.
Ainda desejo saborear bons vinhos.
Ainda desejo plantar árvores cuja sombra talvez eu nunca contemple.
Peço a Deus apenas esta graça: conservar a lucidez para aprender, a humildade para servir, a coragem para inovar, a alegria para amar e a esperança para nunca perder de vista o horizonte.
Porque, ao fim da travessia, compreendo que a vida não pertence aos que acumularam títulos ou conquistas. Pertence àqueles que transformaram o conhecimento em serviço, a profissão em missão, a família em porto seguro e o amor em sua obra mais duradoura.
Se assim tiver sido a minha caminhada, poderei dizer, com serenidade e gratidão, que valeu a pena atravessar este mar.
E quando a última maré chegar, quero apenas que ela me encontre como sempre procurei viver: com a alma voltada para o horizonte, as mãos estendidas para servir e o coração agradecido. Porque o que permanece, afinal, não é a extensão da viagem, mas o amor que fomos capazes de deixar nas margens por onde passamos.
A vocês, queridos familiares, amigos e confrades, deixo meu abraço mais afetuoso. Cada um, à sua maneira, ajudou a escrever esta travessia. Agradeço a Deus pelo dom da vida de vocês e por ter permitido que nossos caminhos se encontrassem. Se existe alguma beleza nesta história, ela pertence também a todos que caminharam ao meu lado.
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