Textos escolhidos:
Original publicado no Jornal AGORA SANTA INÊS, de Clélio Silveira.
"Das lágrimas alheias, devemos tomar-lhes as lições. Mais do que números, cada vida ceifada deixou projetos inconclusos, sonhos a alcançar, dias a somar no calendário dos anos. A mitologia grega insculpida em Élpis, a esperança, foi a única que sobreviveu à insensata decisão de Pandora em abrir a caixa recebida dos deuses". (Natalino Salgado Filho)
PALAVRAS NÃO ENCOBREM FATOS
Por Natalino Salgado Filho*
A semana que passou trouxe consigo um gosto acre de despedida involuntária para todos nós da Academia Nacional de Medicina. Perdemos o acadêmico e confrade Ricardo José Lopes da Cruz, secretário geral daquele augusto sodalício, vítima de Covid-19, no último dia 8. Médico festejadíssimo, ostentava um currículo impecável e era extremamente querido por todos.
À perda irreparável do ilustre confrade somam-se as partidas de Hiram Silva Lucas, Marcos Fernando de Oliveira Moraes, Eustáquio Portela Nunes e Hildoberto Carneiro de Oliveira, também integrantes da ANM. O destino encarregou-se de lhes paralisar os passos, neste 2020.
De convivência mais recente com Ricardo, na Casa que nos irmanou, sensibilizaram-me muito as declarações de afeto dos demais confrades. A doença maligna e silenciosa, radical em sua contaminação, ignora que vitimou um dos maiores cavaleiros defensores da vida. Ricardo passa a integrar a estatística de 182 mil vítimas fatais da pandemia que colocou o mundo de joelhos, mesmo que alguns insistam em não enxergar o óbvio. Sem remédios específicos ou vacina ainda disponíveis, as medidas preventivas – como distanciamento social, uso de máscaras, desinfecção de objetos e superfícies, somadas à higienização constante das mãos – são nossas únicas aliadas, a despeito da necropolítica praticada em algumas esferas.
A morte de Ricardo é mais um aríete para nos despertar – nós, médicos; nós, cidadãos; nós, humanos – da indolência e da apatia, ao assistirmos, repetidamente, os noticiários que informam outras vítimas. Lembro da escrita de John Donne e sua obra que registra suas devoções – exatamente 23 – para os dias em que esteve internado. Donne se solidariza e se irmana com o sofrimento de outros seus iguais e cunha a constatação que tornou célebre a obra: “(…) a morte de todo homem me diminui, porque sou parte na humanidade; e então nunca pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. A certeza é uma só: todos somos iguais, a morte nos limita. Séculos mais tarde, o escritor americano Ernest Hemingway publicaria o livro com o título “Por quem os sinos dobram”, trazendo suas impressões sobre a guerra civil espanhola.
Não é porque estamos aqui, vivos, que devamos nos esquecer do perigo que nos ronda diariamente; da dor que invade, neste instante, outros lares e dos porta-retratos que serão lembranças dolorosas na sala de estar de outras famílias, enquanto muitos de nós se preocupam tão somente com o cardápio da ceia de natal ou com o lugar onde passar o Reveillon. Estamos todos presos à mesma sina. Somos todos integrantes de idêntica condição de incertezas e desafios.
O passado é professor competente. São próprias de seu magistério as lições de outras situações semelhantes, vividas em solo brasileiro. Com uma escrita arguta e peculiar, as escritoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Stariling apresentam em “A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil”, disponível no formato e-book, uma descrição acerca da doença que assolou o Brasil, no início do século XX até os idos de 1919, deixando um rastro de morte, miséria e muita briga política. No olho do furacão, a população pobre e desassistida.
Abstraídos o calendário e o nome da doença, tem-se a impressão de que as querelas retratadas foram fruto da observação, deste 2020 e que a doença se chama Covid-19. Vamos olhar em volta a realidade, verificar o que acontece no entorno. Palavras mágicas não têm o poder de fazer desaparecer o vírus.
Das lágrimas alheias, devemos tomar-lhes as lições. Mais do que números, cada vida ceifada deixou projetos inconclusos, sonhos a alcançar, dias a somar no calendário dos anos. A mitologia grega insculpida em Élpis, a esperança, foi a única que sobreviveu à insensata decisão de Pandora em abrir a caixa recebida dos deuses. Se o presente nos parece sombrio e aterrorizante, façamos as pazes com ele. Tenhamos paciência. E que a esperança não nos abandone, mesmo sabendo que as palavras não amenizam os fatos.
*Natalino Salgado Filho – Médico Nefrologista, Membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia Maranhense de Letras.
EDUCAÇÃO Maranhense Sharlene Serra integra a programação da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026
EXCLUSIVO Euclides Moreira Neto: “DESFILE DO DIA DA RAÇA E O 7 DE SETEMBRO”
MUSICA É VIDA Chiquinho França levou “Fissura” a Brasília, no Clube do Choro, território de encontro da música brasileira
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO Mín. 13° Máx. 26°
Mín. 10° Máx. 17°
ChuvaMín. 7° Máx. 11°
Chuvas esparsas
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense