Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes
Fonte da fotografia: Sheila Signário / Nós, Mulheres da Periferia.
"A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos". (Conceição Evaristo).
A Escadaria do Bixiga, em São Paulo, recebeu neste sábado, 18 de julho, a terceira edição da Foto Histórica de Escritoras Negras. Realizada pelo Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá, a mobilização reuniu autoras, pesquisadoras, educadoras e agentes culturais em uma ocupação pública de elevado valor simbólico. O encontro declarou, com a força dos corpos, dos livros e da memória coletiva, que as escritoras negras existem, produzem conhecimento e exigem o lugar que lhes foi historicamente negado na literatura brasileira.
Nos degraus, mulheres de diferentes idades formaram uma composição ascendente, quase como uma biblioteca humana erguida diante da cidade. Muitas seguravam suas próprias obras; outras exibiam livros de autoras que abriram caminhos. A presença de escritoras jovens, adultas e idosas revelou uma continuidade histórica: a palavra passou de geração em geração, atravessou silenciamentos e chegou ao espaço público com autoria, rosto, nome e identidade.
O pensamento de Conceição Evaristo ofereceu a medida exata da grandeza desse ato: “A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.” A frase explica por que a imagem possui tamanha potência. Cada livro erguido representou uma experiência transformada em linguagem; cada autora fotografada rompeu o antigo costume de tratar a mulher negra apenas como personagem, objeto de estudo ou presença secundária. Ali, elas foram autoras da própria narrativa e intérpretes legítimas da história brasileira.
A terceira Foto Histórica de Escritoras Negras alcançou uma grandeza política, literária e pedagógica rara. O evento ensinou que reparação também se realiza pela preservação dos nomes, pela circulação dos livros, pelo acesso à publicação e pela ocupação dos espaços culturais. A escadaria deixou de ser apenas passagem e se transformou em documento. A imagem produzida em São Paulo permanecerá como prova de uma literatura múltipla, madura e vigorosa, que não pediu autorização para existir: apresentou-se coletivamente diante do país e assumiu o seu lugar na história.
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Fonte da fotografia: Sheila Signário / Nós, Mulheres da Periferia.
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