Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
Ao me aproximar dos 73 anos, percebo quantas vidas couberam dentro da minha própria vida. Passei por fases profissionais, existenciais, afetivas, literárias. Tive altos, baixos, entusiasmos e desencantos. Em alguns momentos, talvez tenha chegado perto daquilo que os outros chamam de loucura. Eu prefiro outro nome: inconformismo.
Uma das fases mais intensas aconteceu quando escrevia no Jornal Pequeno, do Maranhão. Eu era jovem, inquieto e acreditava — continuo acreditando — que o jornalismo não foi feito apenas para observar a realidade. Em determinados momentos, é preciso enfrentá-la. Mas não mudá-la sem concepções acertadas. Eu tinha uma coluna diária, uma máquina de escrever, ideias demais na cabeça e muito pouca disposição para aceitar certos “milagres” políticos e sociais que aconteciam à minha volta.
Foi nessa época que entendi melhor uma expressão antiga: “Tudo como d'antes no quartel-general em Abrantes.” Orlando Neves registra em seu Dicionário de Expressões Correntes a origem portuguesa da frase, associada ao período da invasão francesa de 1807 e à instalação do general Junot em Abrantes. Enquanto tudo parecia mudar, muita coisa permanecia exatamente igual. Conhecendo o Maranhão daqueles tempos, eu não precisava de grande esforço para compreender a metáfora. Contudo, nunca consegui ficar quieto.
Minha mãe percebeu isso antes de mim. Certa vez, entrou na redação do Jornal Pequeno. Eu estava vivendo minha juventude “Sputnik”, cercado intelectualmente por Pink Floyd, Rush, Rick Wakeman, Emerson, Lake & Palmer, literatura, política, sonhos e todas as inquietações possíveis. Ela leu o editorial que eu havia escrito naquele dia (e pelo que ela falou a mim me parece que meu texto não era 'aceitável' pela elite da época. Foi então que ela se aproximou e falou ao meu ouvido:
— Tu és louco de jogar pedra em ti mesmo, meu filho? Assim tua carreira morre aqui!
Nunca esqueci.
Talvez ela tivesse razão. Talvez eu estivesse realmente jogando pedras contra mim mesmo. Só que eu me perguntava: como permanecer calado diante daquilo em que eu não acreditava? Eu tinha papel, palavra e um jornal diante de mim. Via projetos desaparecerem, oportunidades culturais serem perdidas, sonhos de uma geração serem desmontados. Eu lia Rimbaud, discutia literatura, política e liberdade. Aos vinte e poucos anos, eu ainda imaginava que uma frase impressa poderia deslocar uma montanha. Hoje sei que nem sempre desloca. Mas continuo convencido de que pode incomodar quem decidiu construir a montanha no lugar errado.
Minha mãe conseguiu moderar parte daquela euforia juvenil. A literatura, porém, nunca me deixou abandonar inteiramente essa espécie de desobediência. Arthur Rimbaud estava ali para me mostrar até onde a inteligência, a irreverência e o excesso poderiam conduzir um homem. Outros vieram depois. E fui descobrindo que aquilo que tantas vezes chamamos de loucura talvez seja apenas uma maneira diferente — e às vezes dolorosa — de enxergar aquilo que os demais aprenderam a considerar normal.
Anos mais tarde, encontrei essa inquietação novamente ao ler o trabalho da escritora e poeta Dione MS Rosa, minha confreira na Academia Poética Brasileira, sobre Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. A leitura me devolveu àquela velha pergunta. Afinal, o que havia de “normal” em Álvares de Azevedo? E por que deveria haver? Sua literatura mergulhou no sombrio, no fantástico, na morte, no desejo, no medo e nos subterrâneos da própria condição humana. O estudo de Dione mostra justamente como esse universo gótico dialoga com aquilo que existe de não racional, desordenado e obscuro dentro de nós. Título: "A prosa gótica de Alvares de Azevedo em 'Noite na Taverna'".
Ao ler, compreendi melhor minhas próprias antigas “loucuras”. Descobri que nunca estive sozinho. A literatura sempre esteve cheia desses homens e mulheres que enxergaram um pouco além da moldura e, por isso mesmo, pareceram estranhos aos olhos de seu tempo. Alguns foram chamados de excêntricos. Outros, de subversivos. Outros, simplesmente, de loucos. Muitas vezes eram apenas pessoas incapazes de aceitar que o mundo tivesse de continuar “como d'antes”.
Recordo até hoje minha professora Zuleide Bogéa (escola primária), no antigo colegio "São Luís Gonzaga", me dando um dolorido puxão de orelhas porque eu havia decidido cantar o Hino Nacional em ritmo de samba. Talvez ali já houvesse algum indício do que eu viria a ser. Nunca tive grande habilidade para obedecer às partituras quando percebia que poderia experimentar outro compasso.
Por isso, tantos anos depois, quando olho para aquele rapaz (eu) dentro da redação e para minha mãe tentando protegê-lo, compreendo perfeitamente o medo dela. A mãe sempre pressente precipícios, os mesmos que os filhos enxergam como paisagem. Seu alerta era amor. Meu enfrentamento também era, à minha maneira, uma forma de amor — pela palavra, pelo jornalismo, pela liberdade e por uma sociedade que eu desejava melhor.
Hoje, se eu pudesse mandar uma mensagem para ela e fazê-la atravessar esse enorme território entre a vida, a memória e o Universo, diria apenas:
— Louco, eu, Mamãe? Talvez um pouco. Mas a senhora sabe: passei a vida inteira tentando cometer minhas loucuras do jeito mais normal possível.
Talvez Samuel Beckett tivesse percebido isso muito antes de mim: há alguma loucura em todos nós. O problema nunca foi carregá-la. O verdadeiro perigo começa quando deixamos de perguntar se aquilo que o mundo chama de normal merece, realmente, continuar sendo normal.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
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