Esmeralda Costa
A literatura é uma arte que transforma palavras em sentimentos, ideias em versos e sonhos em possibilidades. É nesse universo de descobertas e realizações que floresce o projeto Escritores do Belo, idealizado e conduzido pela poetisa Mel, presidente da Academia Catarinense de Cordel.
O projeto apresenta uma proposta de ensino e aprendizagem dos fundamentos da literatura de cordel e clássica, incentivando novos escritores a desenvolverem suas habilidades, aprimorarem suas produções e descobrirem a própria voz literária. E não trata-se apenas de ensinar técnicas de escrita, mas representa uma oportunidade de compartilhar conhecimentos, despertar novos talentos e fortalecer a valorização da literatura. Por meio dessa proposta, a palavra torna-se instrumento de aprendizado, de expressão e de transformação cultural.
Nesta edição da Coluna Cordel Brasileiro, trazemos uma entrevista, com a poetisa Mel, criadora e mentora do projeto, para conhecer sua trajetória, compreender os objetivos dessa iniciativa e descobrir a importância de estudar técnicas de composição poética, bem como suas expectativas para o futuro da formação literária.
Afinal, cada escritor começa sua jornada de forma singular, mas o conhecimento, o incentivo e a oportunidade de aprender podem transformar o primeiro verso em uma bela história.
BIOGRAFIA DA ENTREVISTADA
Salomé Pires, conhecida artisticamente como Poetisa Mel, é uma escritora, professora de literatura e proeminente ativista cultural do estado de Santa Catarina. Ela é amplamente reconhecida como membro fundadora e presidente da Academia Catarinense de Cordel (ACC), instituição criada em agosto de 2023 para fomentar a literatura de cordel na região Sul do país. Mel é idealizadora e professora responsável pelo projeto Escritores do Belo, desenvolvido com o apoio e a dedicação dos membros da ACC, que atuam como tutores na formação dos participantes.
É membra da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), ocupando a Cadeira 29 que tem como Patrono o Poeta Sebastião do Nascimento.
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM A POETISA MEL
Salomé Pires – Presidente da Academia Catarinense de Cordel (ACC) e idealizadora do projeto Escritores do Belo
1 – Poetisa Mel, é uma alegria conversar com você sobre o projeto Escritores do Belo. Para começarmos, gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores e compartilhasse um pouco de sua trajetória na literatura. Como nasceu seu amor pela poesia e pela escrita da literatura de cordel?
Meu amor pela poesia nasceu ainda na infância, durante o antigo curso primário, hoje Ensino Fundamental I. Naquela época, memorizávamos poemas de grandes autores, como Olavo Bilac, Castro Alves e Gonçalves Dias, especialmente para as homenagens à Bandeira Nacional. Aqueles versos despertaram em mim um encantamento que atravessou os anos.
Sempre fui uma leitora assídua, apaixonada pelas palavras e pela capacidade que elas têm de transmitir sentimentos, preservar memórias e transformar pensamentos.
Com o passar do tempo, essa paixão se fortaleceu e encontrou na literatura de cordel uma forma especial de expressão. Encantei-me com sua musicalidade, suas rimas, sua riqueza cultural e, sobretudo, com a possibilidade de aproximar a poesia das pessoas.
Hoje, como professora e presidente da Academia Catarinense de Cordel (ACC), tenho a alegria de compartilhar esse conhecimento e contribuir para a formação de novos poetas.
2 – Como surgiu a ideia de criar o projeto Escritores do Belo? Houve alguma experiência pessoal ou necessidade que despertou em você o desejo de compartilhar seus conhecimentos literários com outras pessoas?
Quando a literatura de cordel foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil, senti ainda mais forte o desejo de contribuir para a preservação e a divulgação dessa manifestação literária tão rica e representativa da nossa cultura.
Resolvi, então, reunir algumas pessoas interessadas em aprender os fundamentos da poesia metrificada e comecei a compartilhar meus conhecimentos.
A experiência deu tão certo que novos interessados foram chegando, tornando necessária a criação de outras turmas. Foi assim que surgiu a necessidade de dar uma identidade ao projeto, que passou a se chamar Escritores do Belo.
O que começou como uma iniciativa de ensino transformou-se em um movimento de aprendizagem, amizade, valorização cultural e multiplicação do conhecimento poético.
3 – O que representa o nome "Escritores do Belo"? Qual significado você atribui a essa expressão e que mensagem deseja transmitir por meio dela?
O nome Escritores do Belo traduz exatamente a essência da nossa proposta: cultivar uma poesia que valorize o que existe de mais bonito na vida e na natureza humana.
Acreditamos na força da palavra como instrumento de construção, reflexão e transformação. Queremos incentivar uma escrita que transmita mensagens de paz, amor, esperança, solidariedade e respeito, sem deixar de abordar os desafios e as inquietações da existência.
Para nós, escrever o belo não significa ignorar as dificuldades da vida, mas encontrar, até mesmo nas adversidades, uma oportunidade de reflexão, sensibilidade e crescimento.
O belo está também na simplicidade, na verdade dos sentimentos e na capacidade de tocar o coração de quem lê.
4 – Como criadora e mentora do projeto, quais são os principais objetivos do Escritores do Belo? Que transformação você deseja promover na vida dos participantes?
Nosso principal objetivo é democratizar o conhecimento literário, oferecendo às pessoas a oportunidade de descobrir e desenvolver suas habilidades poéticas.
Ao longo dessa caminhada, testemunhei transformações emocionantes. Muitas pessoas chegaram aos nossos grupos sem imaginar que poderiam escrever poesia e, aos poucos, descobriram dentro de si um poeta que ainda não havia despertado.
Trabalhamos com diferentes faixas etárias, desde crianças e jovens até adultos e idosos. Cada participante, respeitando seu próprio ritmo, encontra na poesia uma possibilidade de expressão, valorização pessoal e crescimento interior.
Uma das maiores alegrias é perceber que muitos desses alunos, depois de aprenderem, passam a ensinar outras pessoas. Assim, o conhecimento não fica restrito ao grupo: ele se multiplica.
Mais do que formar escritores, desejamos formar pessoas capazes de reconhecer a beleza da palavra e utilizá-la para enriquecer a própria vida e a sociedade.
5 – O projeto propõe o ensino dos fundamentos da literatura de cordel e clássica. Como essa proposta foi estruturada e quais conhecimentos os alunos têm a oportunidade de adquirir?
Nossa proposta pedagógica começa do princípio, pois muitos participantes chegam sem qualquer conhecimento sobre métrica, rima ou estrutura poética.
Iniciamos com os fundamentos da versificação, ensinando a contagem das sílabas poéticas, a musicalidade dos versos e os esquemas de rimas.
Trabalhamos inicialmente com os versos heptassílabos, de sete sílabas poéticas, muito utilizados na literatura de cordel. A aprendizagem acontece de maneira gradual, respeitando o desenvolvimento de cada aluno.
Ao longo da formação, estudamos diferentes modalidades, como a trova, a sextilha, a septilha, a décima, o sonetilho e, posteriormente, o soneto clássico.
Cada etapa apresenta novos desafios e amplia as possibilidades de criação.
Nosso propósito é oferecer uma formação sólida, permitindo que os participantes compreendam as estruturas poéticas e adquiram segurança para escrever com técnica, sensibilidade e criatividade.
6 – Como funciona o processo de ingresso e participação no projeto? Há inscrições, seleção ou algum requisito específico para quem deseja aprender e fazer parte dessa experiência?
O projeto Escritores do Belo é uma iniciativa de ensino da Academia Catarinense de Cordel e está aberto a todas as pessoas que tenham interesse verdadeiro em aprender poesia.
Não fazemos seleção por idade, escolaridade ou experiência literária. O requisito fundamental é a vontade de aprender, acompanhada de compromisso e dedicação.
As atividades são propostas de maneira progressiva, e sua realização é indispensável para que o aluno desenvolva as habilidades necessárias e avance na formação.
Valorizamos muito a participação efetiva, pois entendemos que aprender a escrever poesia exige exercício, persistência e disposição para aperfeiçoar os próprios versos.
Por isso, os participantes que deixam de realizar as atividades e não demonstram interesse em acompanhar o curso podem ser desligados do grupo, abrindo espaço para aqueles que realmente desejam aproveitar a oportunidade.
Nosso compromisso é com um ensino sério, gratuito e de qualidade, oferecido com dedicação pelos integrantes da Academia Catarinense de Cordel.
7 – Muitas pessoas apreciam a poesia, mas sentem dificuldade para transformar sentimentos e ideias em versos. Que conteúdos e atividades são trabalhados durante a formação e como o projeto ajuda os iniciantes a desenvolver a escrita e a encontrar sua própria voz literária?
Uma das nossas principais preocupações é mostrar que a poesia pode ser acessível, compreensível e, ao mesmo tempo, rica em beleza e significado.
Incentivamos uma escrita clara, fluente e harmoniosa, especialmente na poesia popular, para que a mensagem chegue ao leitor com naturalidade, sem perder a profundidade dos sentimentos.
Durante as atividades, os alunos aprendem a organizar suas ideias, construir versos, aperfeiçoar rimas, respeitar a métrica e desenvolver a musicalidade da composição.
Entendemos que ninguém nasce sabendo todas essas técnicas. Por isso, oferecemos acompanhamento constante.
Um dos grandes diferenciais do projeto é o trabalho realizado nos bastidores pelos tutores, que são membros efetivos da Academia Catarinense de Cordel.
Esses acadêmicos dedicam seu tempo a esclarecer dúvidas, orientar correções, estimular novas tentativas e ajudar cada participante a aperfeiçoar sua produção.
Não buscamos padronizar a escrita, mas oferecer instrumentos para que cada poeta encontre sua própria voz, preservando sua sensibilidade, sua identidade e sua maneira particular de enxergar o mundo.
8 – Na sua concepção, qual é a importância de estudar as técnicas da composição poética sem perder a espontaneidade, a criatividade e a identidade de cada escritor?
Acredito que a técnica não limita a criatividade; pelo contrário, amplia as possibilidades de expressão.
A métrica não retira a espontaneidade do poeta. Ela ensina a organizar o pensamento, valorizar as palavras e transmitir ideias e sentimentos com maior precisão e musicalidade.
Quando alguém aprende a metrificar, descobre que é possível dizer muito com poucas palavras, sem comprometer a beleza e a profundidade da mensagem.
Temos alunos que chegaram ao projeto escrevendo exclusivamente poemas livres. Depois de conhecerem as técnicas da poesia metrificada, muitos fizeram uma observação muito interessante: disseram que, finalmente, se sentiam mais livres.
E isso tem uma explicação muito bonita: antes, conheciam apenas uma maneira de escrever; agora, podem escolher entre a poesia livre e a metrificada.
A verdadeira liberdade literária também nasce do conhecimento, pois quanto mais recursos o poeta domina, maiores são suas possibilidades de criação.
9 – As atividades acontecem por meio de um grupo de WhatsApp, permitindo a interação a distância. Por que você escolheu esse formato e quais são as vantagens e os desafios de ensinar literatura nesse ambiente virtual?
A escolha do ambiente virtual nasceu do desejo de ampliar o acesso ao conhecimento.
Quando oferecemos um curso exclusivamente presencial, acabamos atendendo principalmente às pessoas que vivem próximas ao local das aulas. Muitas outras, embora interessadas, ficam impossibilitadas de participar.
O WhatsApp tornou-se uma ferramenta acessível e eficiente para aproximar pessoas de diferentes cidades, estados e até países.
Por meio do projeto, a Academia Catarinense de Cordel consegue ultrapassar fronteiras e levar o ensino da poesia a lugares que dificilmente seriam alcançados presencialmente.
Temos a alegria de contar com participantes não apenas de diferentes regiões do Brasil, mas também de países como Portugal, Inglaterra, França e de localidades do continente africano.
É emocionante perceber que a poesia consegue unir pessoas tão distantes geograficamente, mas tão próximas pelo desejo de aprender.
Naturalmente, o ensino virtual exige organização, disciplina, comprometimento e acompanhamento constante. Entretanto, as vantagens são imensas.
Nosso maior propósito é mostrar que a distância não precisa ser um obstáculo para quem deseja aprender.
Mais do que ensinar a construir poemas, procuramos despertar nos participantes um novo olhar sobre a vida, porque aprender poesia também é aprender a enxergar poeticamente o mundo.
10 – Quais são suas expectativas para esta nova jornada do Escritores do Belo? Você planeja ampliar o projeto, criar novas turmas ou desenvolver iniciativas para divulgar as produções dos participantes?
O projeto Escritores do Belo desenvolve suas atividades desde 2018 e, ao longo desses anos, já formou diversas turmas, acompanhando alunos desde os primeiros conhecimentos sobre versificação até níveis mais avançados da composição poética.
Os participantes que concluem as etapas iniciais podem ingressar em um grupo que denominamos Cordel Avançado.
Nesse espaço, aprofundamos o estudo das diferentes modalidades da literatura de cordel, da cantoria e da poesia clássica, incluindo estruturas mais complexas e versos decassílabos e hendecassílabos.
Nosso objetivo é proporcionar uma formação cada vez mais ampla, para que o aluno conheça diferentes formas de composição e tenha liberdade para escolher aquelas com as quais mais se identifica.
Desejamos continuar formando novas turmas, ampliando o alcance do projeto e incentivando a divulgação das produções literárias dos participantes.
Ver um aluno que começou sem conhecer a métrica tornar-se um poeta seguro, capaz de produzir seus próprios textos e até ensinar outras pessoas, é uma recompensa extraordinária.
Acredito que a literatura precisa circular, alcançar novos leitores e despertar novos talentos.
Enquanto houver alguém disposto a aprender e alguém disposto a ensinar, o projeto Escritores do Belo continuará cumprindo sua missão de semear poesia, conhecimento e beleza.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A coluna Cordel Brasileiro agradece à poetisa Mel pela disponibilidade em compartilhar sua experiência e apresentar aos nossos leitores o projeto Escritores do Belo, uma iniciativa que une conhecimento, sensibilidade e amor pela literatura.
Que o projeto Escritores do Belo continue inspirando novos escritores, fortalecendo a literatura de cordel e contribuindo para que mais pessoas descubram a beleza e o poder transformador da escrita.
E assim encerramos mais uma edição da Coluna Cordel Brasileiro, muito obrigada a cada leitor que nos acompanha nessa caminhada de valorização da literatura de cordel, da poesia e da cultura popular. Um grande abraço!
Esmeralda Costa
Poetisa cordelista da cidade de Campos Sales-CE
Membra da Academia Poética Brasileira (APB), membra fundadora da Academia Cearense de Literatura de Cordel ACLC), membra da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB) e sócia correspondente da Academia Groairense de Letras (AGL).
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ChuvaMín. 15° Máx. 20°
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