ALMANAQUE 2000: TÁ NO RUMO, TÁ NO FOCO!
Colunas de Mhario Lincoln. Há 20 anos.
Ano 2000. Eu estava em plena efervescência profissional com colunas diárias publicadas em um jornal de grande circulação em São Luís. Acompanhei cada momento daquele que seria o ano da Nova Era. Um novo século. Um novo momento: o Ano 2000. Durante esse ano, escrevi sobre praticamente tudo. De sociedade à saúde e modernidades digitais, passando por economia, política, música e arte. Desta forma, tive que ler muito e aprender muito para me tornar um formador de opinião confiável. Uma época de muitas mudanças psicológicas e imateriais, antes de tudo. Cada segundo era importante. Cada frase que eu escrevia em minha coluna tinha que estar embasada em algo forte. A concorrência na mídia parece que, naquele ano, tinha alcançado um patamar incontrolável. Sobrevivi. E em sobrevivendo, estou eu aqui contando um pouco de minhas atividades que me deram muita satisfação pessoal.
Esse período da minha vida foi muito produtivo. Assim, o professor Ferreira Andrade & Athayde, Doutor em Sociologia (SP), escolheu 100 publicações minhas durante três anos, de 1999 até 2001 e as transformou em Tese de Pós-Doutorado, fato de imensa valia para o reconhecimento do meu trabalho. Na apresentação, escreveu: “Mhario Lincoln, suas páginas, de uma centena aqui reunidas, traduzem exatamente esse momento de transição tão cristalino, quanto a espontaneidade de seus textos”. Infelizmente o professor Athayde veio a falecer e eu não tive mais acesso a esse trabalho, a fim de transformá-lo em livro. Porém, reuni várias colunas desse período, igualmente, e publiquei “Mhario Lincoln em Preto & Branco”. Desse trabalho farei minhas colocações, a partir de hoje, mostrando como o Mundo girava nesse conturbado período de transição entre o fim de século XX e começo do XXI, logo no ano seguinte.
FEVEREIRO DE 2000
Assim escrevi (com adaptações) minhas colunas, na época:
PIETRO BARDI
** Fundador do Museu MASP, com obras adquiridas por ele mesmo, Bardi dirigiu esse local de arte por 43 anos. Sempre chegava às 7 da manhã com uma arma única em punho. Seu espanador. Ao mais leve sinal de poeira, abordava o quadro e o limpava com a carícia de quem beija a pessoa amada. Morreu 5 meses antes de completar 100 anos. Inigualável.
FILMES
++ A estreia de 2000 nos cinemas que mais abalou e sensibilizou boa parte dos cinéfilos foi “À Espera de um Milagre”, com Tom Hankes e Michael Clarck Ducan (já falecido), ator com mais de 2 metros de altura. Quem ainda se lembra?
DIGITAIS
++ Nesse ano de 2000, as revistas semanais brasileiras divulgavam com ares de pavão, seus (http’s), sites eletrônicos das publicações.
SAUDADES DA VASP
++ A VASP em ruínas, após tantas viagens pelos céus do Mundo. Como colunista convidado, finalzinho dos anos setenta, participei do voo inaugural e direto SÃO LUÍS-RIO DE JANEIRO. Uma maravilha! Saía 3 horas da manhã da ilha do Amor para a cidade Maravilhosa. Óbvio que era uma festa incontrolável. Boas recordações de minha juventude. Em 2000, o então ministro Alcides Tápias, do Desenvolvimento, acabou com a festa do empresário Wagner Canhedo (dono da companhia aérea) e encerrou a ajuda federal à empresa. Já havia uma ordem de não mais refinanciar essas dívidas, através de alguns bancos particulares. Assim, começou a derrocada. Deixou saudade. Muitas saudades.
ENSINO CATÓLICO
++ Crise também no ensino Católico no Brasil, em fevereiro de 2000. A notícia foi amplamente divulgada. Nessa ocasião, 130 escolas católicas fecharam as portas. O levantamento foi da própria Conferência dos Bispos do Brasil.
CONTAMINAÇÃO EM LARGA ESCALA
++ Olha, só: no Japão três executivos da empresa farmacêutica Green Cross foram (levemente) punidos. Isso porque, em 1985, eles permitiram a venda de sangue sabendo que estavam contaminados com o vírus HIV. Resultado: 1.800 hemofílicos pegaram AIDS. O presidente insano dessa empresa pegou pena de... apenas.... 2 anos. Os outros dois, pena ainda menores.
CAETANO/ZÉ AMÉRICO
++ Caetano Veloso foi o grande premiado do ano de 2000, no Grammy: o disco LIVRO recebeu o prêmio de melhor da World Music. Mas é bom salientar, à propósito, que 12 anos depois um maranhense abocanhou um Grammy Latino ao produzir um dos discos sensacionais do cantor, compositor e sanfoneiro Dominguinhos. O prêmio foi pelo melhor disco regional do Brasil, em 2012. O maranhense-produtor é o maestro José Américo. Conheci-o desde a época de tecladista, na juventude, do “Conjunto Nonato”. O grupo embalava sonhos da galera, nos grandes bailes, nos salões dos melhores clubes sociais, de São Luís-Ma. Na época, eu era baterista do grupo Super-5. Parabéns, Zé Américo!
SEXO TÂNTRICO
++ O ator Marcelo Antony abalou as estruturas da sociedade conservadora ao declarar publicamente a uma revista de grande circulação, preferência por fazer sexo tântrico. Perguntado sobre, disse: “Prefiro não falar do assunto. As pessoas não entenderiam (...)”. Ficou o dito pelo não dito.
PECADOS VIRTUAIS
++ Não são de hoje os pecados virtuais. O padre católico John Furdek foi preso e acusado de assediar sexualmente um adolescente de 14 anos. Isso acontece ao longo da história, porém, nesse caso, foi uma das primeiras via internet. E mais: o rapaz contactado pela telinha, na verdade, era um policial. Então, na hora do encontro, não deu outra: algemas em Furderk. De repente, tudo virou um ‘furdunço’.
A MORTE DE KENNEDY JR.
++ Em 2000 foram encerradas as pesadas investigações sobre a morte de mais um Kennedy, cuja saga é seguida de assassinatos e acidentes graves, a começar (possivelmente) com a morte de um Kennedy, diretor de companhia americana de energia elétrica em São Luís. O assassino foi demitido e ficou esperando o diretor sair para matá-lo. Porém, não há provas de que o morto, apesar do nome, era também da família. Mas, o John Kennedy Jr, sim. O acidente aéreo acabou matando não só Jr. Mas a mulher, Carolyn Bessette Kennedy. Conclusão: um erro de John – pilotava um Piper – derrubou o avião no mar. No mais, a família de Carolyn ainda recebeu da família Kennedy, uma indenização de 10 milhões de dólares.
SENADO & SADOMASOQUISMO?
++ Um figurão do Senado Federal (em 2000), foi sumariamente preso por agredir fisicamente a empregada doméstica que trabalhava no apartamento dele. Apesar da boa reputação e vida discreta, o cara acabou nas páginas policiais, após denúncia da agredida: “Ele me fez usar uma coleira e me chamava de cadela, queria dar choques em meus seios...”. Quando a polícia chegou no apê do recatado senhor, encontrou uma série de aparelhos (inclusive para choques elétricos) de uso sadomasoquistas.
EXÍLIO NO AEROPORTO
++ Lembra daquele cara que morava no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris? Era o exilado iraniano Merhan Nasseri. Fizeram até um filme depois. Pois bem. Tudo começou quando em 1988 ele saiu de Paris (estava em trânsito) para a Inglaterra. Mas como estava sem passaporte, não desembarcou na terra da rainha e foi mandado de volta. Paris também não o aceitou. Ele ficou, então, no aeroporto. Mas, em 1999, quando conseguiu provar que era um refugiado político, o governo francês o aceitou. Mas ele não quis e ficou na ala internacional, sobrevivendo de caridade de passageiros, tripulantes e funcionários. Recebia até cartas. Tinha na época, 55 anos e jamais foi procurado por algum parente. Ele morou lá por 18 anos. Mas, sua vida no aeroporto só chegou ao fim em julho de 2006, quando Nasseri foi hospitalizado. No final de janeiro de 2007, ele deixou o hospital e foi cuidado pela filial da francesa Cruz Vermelha. Foi hospedado por algumas semanas em um hotel próximo ao aeroporto. Em 6 de março de 2007, foi transferido para um centro de acolhimento de caridade em Paris e em 2008 passou a viver em um abrigo parisiense.
FLORES EXÓTICAS
++ E olha que beleza! Nesse ano de 2000, pesquisadores brasileiros descobriram novas espécies de flores ocultas na mata tropical, dentro de uma reserva na cidade de Manaus. A ‘Parkia Panurensis’ foi uma delas. A “flores-da-paixão”, também encontrada, é considerada pelos botânicos mundiais, uma das mais belas do mundo. Como se vê, as belezas da floresta amazônica não se resumem somente à ‘Vitória-Régia’, cultuada universalmente. A ‘Aristolochia Ruiziana’, descoberta também, atrai moscas com um cheiro muito parecido com carne.
UNDERGROUND
++ Surge no mercado mundial da moda o estilista Alexandre Herchcovitch. Ele, na verdade, trocou a moda ‘undergound’ por modelos mais sóbrios. Acabou ganhando fama internacional. Na época do ‘under’, travestis e ‘drags’ desfilavam sempre com roupas dele. E é dele uma frase que estremeceu seu relacionamento com modistas nacionais: “Fico estarrecido com a quantidade de imitadores na moda. Entre os estilistas brasileiros, 98% copiam americanos e europeus. Eu não imito ninguém”.
BOMBÍSSIMA:
++ Eduardo Bueno, historiólogo brasileiro, começava a carreira de sucesso. Numa de suas crônicas em revistas semanais, ele afirma que Júlio Verne também descobriu o Brasil. Publica um texto antigo assinado pelo autor de vários livros da literatura fantástica e da ficção científico sobre a aventura de Cabral ao Brasil. Bueno diz: “é estimulante rever o descobrimento do Brasil pelos olhos do autor de “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Eis o texto Completo: Eduardo Bueno: "Atenção para o texto: "A 9 de março de 1500, uma frota de 13 navios deixava o Restelo, sob as ordens de Pedro Álvares Cabral. Contava como voluntário Luís de Camões, que devia ilustrar no seu poema dos Lusíadas o valor e o espírito aventuroso de seus compatriotas. Sabe-se muito pouca coisa de Cabral, e ignora-se completamente o que fora que lhe valera o comando da expedição. Cabral pertencia a uma das mais ilustres famílias de Portugal, e seu pai, Fernão Cabral, senhor de Azurara da Beira, era alcaide-mor de Belmonte. Pedro Álvares casara com Isabel de Castro, primeira-dama da infanta dona Maria, filha de dom João III. Cabral teria conquistado um nome por alguma importante descoberta marítima? Não se pode supor, porque os historiadores teriam falado nisso.
Depois de 13 dias de navegação, a frota já passara pelas ilhas de Cabo Verde quando se percebeu que um dos navios, comandado por Vasco de Ataíde, já não os acompanhava. Estiveram algum tempo à espreita, esperando-o, mas foi em vão, e os outros 12 navios continuaram sua navegação. Cabral espera evitar as calmarias, que tinham atrasado as expedições anteriores no Golfo da Guiné. Talvez o capitão-mor, que devia estar ciente, como todos os seus compatriotas, das descobertas de Colombo, tivesse a secreta esperança de chegar, internando-se para oeste, a alguma região que escapara ao grande navegador.
Júlio Verne
O pai da ficção científica era apaixonado pelos homens obstinados. Que se deva atribuir esse fato à tempestade ou a qualquer desígnio oculto, a verdade é que a frota estava fora do caminho que deveria seguir para dobrar o Cabo da Boa Esperança, quando no dia 22 de abril descobriu uma alta montanha e logo depois um prolongamento de costas que recebeu o nome de Vera Cruz, nome mudado depois para o de Santa Cruz. Era o Brasil, e o lugar onde hoje se ergue a cidade de Porto Seguro. A 28, depois de um hábil reconhecimento do litoral, os marinheiros portugueses atracaram à terra americana, e reconheciam uma suavidade de temperatura e uma exuberância de vegetação superiores a tudo o que tinham observado nas costas da África e do Malabar. (...) Antes de partir para a Ásia, Cabral desembarcou dois malfeitores, que encarregou de se informarem dos recursos e das riquezas do país, assim como dos usos e costumes dos habitantes".
Acidentes de percurso em uma prosa fluente
Além de dois erros crassos, o que há de tão notável no texto acima? Nada, a não ser seu autor. Já consagrado como um dos maiores mestres da literatura de aventura - e um dos pais da ficção científica -, Júlio Verne escreveu, por volta de 1873, uma saborosa história das grandes viagens de exploração. Em meio a ela incluiu, evidentemente, o descobrimento oficial do Brasil. Mas Verne atropelou a cronologia: primeiro, incluiu o poeta Camões entre os tripulantes da frota. Camões, no entanto, nasceu em 1524: quase um quarto de século após a viagem. Depois, fez de Isabel de Castro a dama de companhia de dona Maria, filha do rei dom João III. Mas o próprio dom João só nasceu em 1502... Ainda assim, não é estimulante rever a viagem de Cabral pelos olhos do homem que escreveu Vinte Mil Léguas Submarinas? (...)".
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