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Brasil LITERATURA

Linda Barros: "A Lagarta com Chapéu de Dedal", de Mhario Lincoln

Linda Barros é profesora e atriz

11/01/2021 12h08 Atualizada há 2 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Linda Barros
Linda Barros
Linda Barros

Linda Barros, atriz e performer.

 

A LAGARTA COM CHAPÉU DE DEDAL, de Mhario Lincoln

LINDA BARROS, PROFESSORA E ATRIZ

Desde que o mundo é mundo, que existe o feio e o bonito, o certo e o errado, o bom e o ruim, a certeza e a dúvida, ou seja, tudo está alinhado como se tudo devesse estar em harmonia. Mas será que a vida é como um de comercial de margarina? Não, não é. Nem de longe. Na vida real, nem tudo são flores, não vivemos em um mar de rosas, em outras palavras, o mundo é cheio de contradições. E são estas contradições que nos fazem refletir ao ler o poema Papai de Noel de Papel.

Com texto de Mhario Lincoln, o poema mostra a verdade nua e crua vista sob a ótica do autor. Com uma temática que envolve a magia do Natal, Mhario vem para desmitificar as mazelas que há verdadeiramente por trás de toda magia natalina. Com um texto cheio de imagens e metáforas, o poeta lança um olhar melancólico sobre a vida e sobre o mundo. O poema é composto de VII versos, cada um deles com estrofes carregadas de melancolia, tristeza, alegria, saudade. Como é descrito já no I verso, 

Meu paraíso,

é um Circo de Ervilhas.

Meu Teatro de Puguilhas,

Todos esperam que o brilho das lantejolas, das lâmpadas com seus encantamentos e da enigmática árvore de natal, símbolo de riqueza, traga a felicidade desejada: os belos presentes de natal, o amor entre as famílias. Como foi visto acima, no primeiro verso, Mhario Lincoln já começa a desenhar o que é, para muitos, o verdadeiro esse espírito natalino. O autor de A Bula dos Sete Pecados, mostra que essa magia existe, mas a realidade das ruas é bem mais cruel que o verdadeiro brilho que ilumina as ruas e avenidas.

E sob uma perspectiva bem real, onde  o mundo imaginário de muitas pessoas, inclusive a do autor,  é desenhada como paranormal, grande maioria das crianças vivem em seu mundinho particular, o que quer dizer que na grande maioria das vezes nos contentamos com o pouco que nos foi proporcionado, como podemos observar nos versos abaixo:

Mundo, só meu, paranormal,

dentro do vendedor de mingau, 

lagartas com chapéu de dedal, 

Essa estrofe, nos leva às vitrines das lojas, com suas ricas ornamentações para chamar à atenção dos clientes. Onde o luxo e a riqueza é substituído pelos brinquedos simples e baratos. Perguntado sobre esses versos, o autor se emocionou ao lembrar de sua infância humilde. Conta ele, que lagartas com chapéu de dedal é a figura de sua mãe e sua avó “cosendo suas roupinhas para usar no Natal”.

Em uma outra passagem do texto, Mhario fez questão de explicar os versos Amnésias tremem de um pierrô. Segundo o autor, é “o pai sempre bêbado, sempre bate na mãe, delírios e o pierrô é uma demonstração carnavalesca que está sempre triste”. Realidades que não estão muito distantes de nós, infelizmente são acontecimentos banais, corriqueiros. E assim o texto mostra a realidade como ela é, nua e crua.

Saudade depressiva, rô, rô

único papai noel de papel,

As festas de fim ano é uma das datas mais esperadas do ano, é uma festividade que enchem de encantamento as crianças de todas as idades, com os desejos que podem ser realizados pelo Bom Velhinho com sua enorme barba branca e seu saco vermelho nas costas carregando sonhos, essa é a  realidade da grande maioria das crianças e dos adultos também, afinal não só os pequeninos que sonham com presentes na grande noite de 24 de dezembro. 

E o imaginário do autor continua. Com texto imagético, Mhario Lincoln não poupa palavras para descrever sentimentos, enigmas e jogos de palavras, como quando ele descreve sua árvore de natal imaginária:

estrelas de raspa de bombril 

toda a cura está no Rivotril,

ou numa imunda rua de marte 

com índios por toda a parte.

Apesar de ser histórias imaginárias, o texto transcreve as mazelas individuais, mas ainda assim não perde o encanto, o brilho, pois o mito de Santa Claus é mundial e ainda que muitos sonhos não sejam realizados, cada um se contenta com o que tem, deixando se levar e se misturando no mesmo bolo cosmonauta, com digitais ardentes de internauta, pois tudo é uma incógnita e  o que a vida representa para cada um de nós, mesmo na miséria e no sorriso palrador de dona hiena, é que ainda assim é possível que todos os questionamentos tenham uma solução plausível para seguir sonhando.

E a cavalaria não chegou; pena,

sorriso palrador de dona hiena. 

No mesmo bolo, misturo cosmonauta

com digitais ardentes de internauta: 

da imersão de Yahvéh à solidão de Jah.

É Alice? É Chanel? É Anne Frank; Iemanjá?

E por fim, o que vale mesmo é a grandeza que o Natal ainda exerce na vida de cada um de nós, sejamos crianças ou não, sejamos pobres ou ricos, sejamos negros ou brancos, o que importa verdadeiramente é a mensagem de fé, amor e esperança que Mhario Lincoln traz em seus versos cheios de vida e harmonia. 

E lá vai a lagarta com chapéu de dedal,

lagar, tá! Larga, a ninguém ela fará mal...

Não, a ninguém os sonhos, a esperança, o encantamento do Natal nos farão mal. Pelo contrário, nos enchem de esperança para seguir sonhando e derramando felicidade nos lares de cada um de nós.

Abaixo Segue o Poema completo para que se deleitem com esse belo texto de Mhario Lincoln.

 

A Lagarta de Papel de Dedal

Mhario Lincoln

I

Meu paraíso,

é um Circo de Ervilhas.

Meu Teatro de Puguilhas,

Mundo, só meu, paranormal,

dentro do vendedor de mingau,

lagartas com chapéu de dedal,

Amnésias tremens de um pierrô.

II

Saudade depressiva, rô, rô

único papai noel de papel,

estrelas com raspa de bombril

toda a cura está no Rivotril,

ou numa imunda rua de marte,

com índios por toda a parte.

III

E a cavalaria não chegou; pena,

sorriso palrador de dona hiena.

No mesmo bolo, misturo cosmonauta

com digitais ardentes de internauta:

da imersão de Yahvéh, à solidão de Jah.

É Alice? É Chanel? É Anne Frank? Iemanjá?

IV

Todas foram passear de bonde no Monte Sinai,

sem ver a lua virar pão-de-queijo. Faliu a padaria,

com o dono dos burros, quantas cangalhas faria?

O trem flutuava sob vapor agonizante,

queimou minha dudalina original e arrogante!

V

Cuspi na melhor flor que tinha, e daí,

não é tempo de gente, é tempo de murici.

Mas ele deixou o coração pendurado no varal,

o mendigo olhou, chorou; roubou, na moral.

Karma, não se desespere, karma, ande e levante,

jogaram pela janela a TV, com a ilusão de Kant.

VI

Gardênias nas ombreiras, nos galardões

Me chamem quando eu disser palavrões.

Amasse a massa, retire das nuvens, o rio

nem imagino como Einstein ficaria no cio.

Meu resumo não interfere em meu paladar,

A lamparina morre, quando for, eu, acordar.

VII

E lá vai a lagarta com chapéu de dedal,

larga, tá! Larga, a ninguém ela fará mal...

 

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