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"AUTOFICÇÃO: UM NOVO GÊNERO LITERÁRIO?", por Rogério Henrique Castro Rocha

"(...) fazer de sua vida, do seu ego e identidade matérias literárias, é o que aparenta ser a autoficção."

25/01/2021 11h28
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha
Rogério Rocha
Rogério Rocha

AUTOFICÇÃO: UM NOVO GÊNERO LITERÁRIO?

Por Rogério Henrique Castro Rocha

Neologismo cunhado pelo escritor e professor francês Serge Dubrovsky, a autoficção é um dos temas em evidência no cenário acadêmico deste início de terceira década do século. Objeto de uma demanda crescente de estudos no plano das pesquisas crítico-literárias, esta nova categoria, como é comum a qualquer pauta que surge, tem dado margem a posições ainda contraditórias. Contudo, segue na agenda das discussões atuais, ganhando corpo em relação à propositura de novos olhares em torno de si e do seu gênero matriz (a ficção).

Com base nesse debate, e na novidade do tema, penso ser necessário refletirmos sobre o seu foco e os seus entornos, na perspectiva de também trazer, ainda que em caráter introdutório, algumas luzes sobre o objeto de nossa atenção neste texto.

Nas palavras de Doubrovsky (2011, p. 25), "a autobiografia não é nem mais verdadeira, nem menos fictícia que a autoficção. E por sua vez, a autoficção é finalmente a forma contemporânea da autobiografia".

Assim sendo, fazer de sua vida, do seu ego e identidade matérias literárias, é o que aparenta ser a autoficção. Mas de que forma isso é feito? Através de uma escrita híbrida, capaz de apresentar ao público não só as virtudes e belezas, mas os segredos, as lacunas e os problemas da existência humana.

Ao fazer isso, traz-se para o campo das letras o universo nem sempre sólido da unidade identitária, do eu subscrito na pele da personagem real que deveríamos ser, mesmo que com todas as suas/nossas impermanências. Com isso, parece colar ao terreno da subjetividade outros rótulos que retiram de centro a segurança do narrador como um eu uno, denso, estruturado, para então conduzi-lo ao campo das mudanças constantes, ao seu próprio descentramento.

Tal prática acaba por assumir um nível de plasticidade extremamente sofisticado, rompendo com algumas noções já consolidadas na forma de descrição do mundo pelas técnicas de escrita. Desse modo, supera o real com a ficção para, em seguida, transpor a ficção ao plano de uma subjetividade múltipla e mista, promovendo um deslocamento que leva junto todos esses itens, na medida em que escreve-se uma história da qual o escritor faz parte e que diz muito dele (sem apegar-se a uma verdade), num movimento que vai da vida ao texto e do texto à vida.

Ilustração não original do texto: Google.

Um dos melhores exemplos dessa ficcionalização de si (traço essencial do gênero ora em desenvolvimento), e que tem sido muito lembrado por quem vem se dedicando a compreendê-lo, é a obra "O filho eterno", de Cristóvão Tezza.

Na zona limítrofe entre biografema e autoficção, o livro trabalha com a narrativa de eventos retirados da vida do autor, bem como da relação com a problemática existencial vinculada a um aspecto da condição de saúde de seu filho e todo o impacto decorrente dessa realidade. Tezza opera, portanto, com o artifício da autoficcionalização, ou seja, mescla algumas notas ou elementos biográficos (no caso, os seus próprios) com a ficção, montando com isso uma história comovente, cheia de lições de humanidade, mas que não corresponde necessariamente à totalidade do que ocorrera em sua jornada depois do nascimento do 'filho eterno'.

Vemos, assim, que há muito de memória em jogo. Do contar o conto, de um dizer o antes não dito sobre o não visto, não havido e não vivido. Aquela zona alargada da invenção e da invencionice aceitável dentro do espírito criativo. Mas há, também, não nos esqueçamos, todo um arremate, um acabamento proporcionado pelas técnicas narrativas de expressão da mais pura subjetividade.

No jogo de entrelaçamentos proposto pela autoficção, há um entrelaçar de camadas que leva à fusão das identidades de narrador, personagem e autor, criando uma outra persona (que não me atrevo dizer o gênero) dentro da escritura. Um exercício ficcional deveras interessante, para dizer o mínimo, e que mexe com a superexposição de si (intimidades que atiçam aos mais curiosos), mas que também dá ensejo a avanços perigosos no campo da transgressão de certos princípios éticos e morais, podendo chegar a ferir bens jurídicos (civil e penalmente tutelados) da esfera dos direitos da personalidade. Nomeadamente quanto à imagem, a honra, a boa fama e o nome dos terceiros eventualmente envolvidos ou referenciados nas tramas, como bem nos alerta Anna Faedrich Martins em excelente trabalho a respeito do tema e sua prática na literatura brasileira contemporânea.

Como escrita-limite que é, a ficcionalização de si (ou autoficção), é um fenômeno digno dos gabinetes psicanalíticos, sintoma de uma época de esfacelamentos, incertezas e não-lugares, e que tem se disseminado viroticamente pelas literaturas nacionais, levando consigo (e em si) questões autobiográficas (mal)resolvidas das chamadas narrativas de introspecção, que, num efeito contrário, põem para fora todos os fantasmas da pessoa humana, em busca, quem sabe, de instituir-se como uma escrita de cura, no âmbito mesmo de uma catarse, que parece ser a todo custo almejada pelos seus cultores,.

Enfim, gosto da ideia e tenho imensa curiosidade em acompanhar o deslinde da trajetória de disseminação deste projeto de gênero literário do século XXI. Aliás, mais autoficcional que a persona fluida e inacabada deste nosso período histórico, impossível.

Para os autores e autoras, penso ser um prato mais que cheio. Para os críticos, teóricos e historiadores da literatura, um novo campo de estudos, um outro objeto para o qual devam voltar suas atenções e um brinquedo a mais para ocuparem seus tempos. Quebrado, contudo, o pacto de autoengano e mútuo fingimento, isto é, do reconhecimento implícito da inverdade textual, instante em que o leitor suspende temporariamente sua descrença e o autor empresta algumas boas doses de verossimilhança às suas histórias, me pergunto como eles e elas (leitores e leitoras) ficarão no meio dessa conversa toda.

No mais, vejo que ainda temos muita estrada pela frente. Isto é só o começo de algo cujo fim não sei onde dará. Quero pagar para ver. Lendo, lendo, lendo, deleitando-me, mesmo que por vezes sem entender. Mas quem se importa com isso, não é mesmo?

 

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