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Brasil VICEVERSA

Jul Leardini & Mhario Lincoln:

Jul Leardini:

01/02/2021 10h29 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Jul & Mhario
Jul & Mhario

 

PROGRAMA VICEVERSA

Convidado Especial: Jul Leardini c/Mhario Lincoln

01 - MHARIO LINCOLN: No livro “O erro de Descartes, segundo Damásio”, a discussão sobre o cérebro não ter sido criado por cima do corpo, mas também a partir dele e junto com ele”. E sendo assim, o cérebro é na verdade, um monte físico-mental de emoções, também! A partir daí, o que mais o tirou do sério, enquanto humano, com reflexos físicos incontroláveis?

JUL LEARDINI - Sou formado em Filosofia, Licenciatura e Bacharelado. Para mim, Descartes foi um dos bons escritores em Filosofia. Todos os filósofos, de uma forma ou de outra, ajudaram a aprofundar temas latentes da humanidade, que só a filosofia conseguiria fazer. No caso de Descartes, sua importância foi grande ao formular as dúvidas cartesianas em suas obras e nos propor um encaminhamento ao assunto até por outros pensadores. Mas o problema da maioria dos filósofos não é a sua obra e seu pensamento, mas o “legado”, ou seja, o que derivou de sua obra e de seus pensamentos em função de críticas e avanços na reflexão dos assuntos por eles abordados. No caso de Descartes, o legado é muito negativo para ele, porque o insere no mundo do separatismo entre corpo e alma, pensamento e sentimento, razão e intuição, ciência e religião, entre outros. No caso específico da pergunta sobre o cérebro, creio que a filosofia ainda está bem distante de compreender os fenômenos ligados ao cérebro. Eu como leitor da Filosofia, mas também da Ciência, da Religião e da Espiritualidade, gosto de relacionar as coisas – apesar de não ser bem visto por grande parte dos racionalistas. Eu acredito que a explicação mais plausível que encontrei até hoje sobre a estrutura cerebral está contida na obra iluminada de Abdruschin intitulada NA LUZ DA VERDADE, obra em 3 volumes, que expõe claramente a função e a composição do cérebro humano, com todos os seus desdobramentos. Mas seria preciso muitas e muitas páginas para tratar do assunto. Portanto, proponho àquele que tenha real interesse, que leia as obras do autor. https://www.graal.org.br/products/na-luz-da-verdade-mensagem-do-graal

 

02 – MHLAcredito que você seja um dos mais brilhantes intérpretes de Constantin Stanislavski, em todo sul do país. Então, o que dizer sobre seus ‘Sistema’? Especificamente, “(...) nós estávamos protestando contra a forma de se atuar no palco, contra a teatrada e o pathos afetado, a declamação e a representação exageradas, contra o sistema de estrelato que arruinava o ensemble, contra o modo como as peças eram escritas, contra a insignificância dos repertórios. A fim de rejuvenescer a arte, declaramos guerra contra todos os convencionalismos do teatro: no desempenho, direção, cenários, trajes, entendimento das peças, etc”.

JL - Dediquei-me ao estudo de Stanislavski desde os 18 anos e até 1995 foi meu foco no Teatro, onde testei na prática, com meus alunos, grupos de teatro e montagens teatrais. Ele foi o precursor na criação de um método sério de preparação do ator e é usado até hoje em todo o mundo. Ele não tencionava criar uma “bíblia”, mas acabou sendo até hoje. Sua importância é sumária para quem quer desenvolver um teatro realista que se utiliza da construção do personagem com base na psicologia e especialmente na psicanálise, na emoção, no sentimento e na vida interior do ser humano. Ele revolucionou o teatro neste aspecto. Ainda utilizou sobremaneira seus ensinamentos, seus exercícios, sua técnica, mas não mais para alcançar um teatro psicológico, e sim, para, de certa forma, me afastar dele, porque desde 1995 estou embrenhado na investigação do Teatro Brechtiano, o qual me abriu perspectivas maiores, que têm a ver mais comigo e com minha formação humana e artística. Na pergunta abaixo falarei mais sobre isto.

 

03- MHL - Quais as causas que o levaram a filmar uma parte significativa de seu longa (junto com Mauro Zanatta) metragem O CAMELO, O LEÃO E A CRIANÇA, em terras do Maranhão?

JUL - O projeto deste filme é de autoria do diretor Paulo Blitos, o qual me convidou para dividir o estudo do roteiro e depois a direção. Eu dirigi uma parte do filme, com cenas gravadas no Maranhão e no Paraná. Posteriormente, Mauro Zanatta - que também era ator do filme - veio a dirigir algumas cenas. A causa de gravarmos no Maranhão foi devido ao fato de a nossa equipe de fotografia estar pesquisando profundamente o Maranhão em suas andanças fotográficas e fílmicas e, em reuniões, encontramos naquele estado muitas imagens que corresponderiam à fotografia do filme e unimos o útil ao agradável, mostrando dois mundos bem diferentes na mesma obra.

04- MHL – E quanto ao seu curta QUATRO AO CUBO PANDEMIC? Pode falar um pouco sobre esse filme?

JL - Este curta eu gravei movido por um impulso de mostrar a vida na pandemia, principalmente por eu ser obrigado e ir a hospitais e estar em meio ao povo, convivendo com a situação. Aproveitei para ir gravando cenas vividas e depois editei. O nome do filme faz referência às células musicais que conduzem o filme, orientando a formação do número 4 e suas derivações na montagem do mesmo.

 

05- MHL – Como todo bom pensador do século vinte, ator, roteirista, diretor, você também teve seus ‘probleminhas’ com a Revolução de 64. Está à vontade pra falar sobre isso?

JL - No final da década de 1970 e meados da década de 1980 eu era um jovem de 20 e poucos anos e vivia no meio estudantil e lia o mundo conforme o ambiente em que eu vivia. Eu comecei a me envolver primeiro com as artes visuais, depois com a poesia, na escola me encontrei com o teatro, a música e a literatura e passei a criar. Inevitavelmente, minhas referências eram Chico Buarque, Caetano, Gil, Vandré, entre outros. Passei a compor músicas de protesto e apresentar em festivais de música e cheguei até a ser premiado. Mal sabia eu que estaria sendo fichado no DOPS – Delegacia de Ordem Social e Política. Especialmente por uma música que compus chamada GAJARI, um frevo que criticava o Projeto Jari, que estava levando todas as riquezas minerais do Brasil pra fora. Eu comparei nesta música o Jari com o Gari, dizendo que “ambos acompanham seu destino e vão limpando nosso chão”. Mas eu também fiz várias músicas e peças teatrais que eram censuradas. Naquela época, o Departamento de Censura funcionava dentro da Polícia Federal, na Ubaldino do Amaral e era coordenado por um padre. Ele recebia nossas músicas e peças teatrais e riscava com uma caneta vermelha tudo que não poderia ser falado ou cantado, praticamente destruía a obra, isso quando não desaparecia com nossa obra cadastrada, dizendo que não tinha recebido. Nesta época, a gente fazia dois ensaios: um para o padre, onde cortávamos tudo que ele proibia e outro era a real apresentação que iríamos fazer. Quando o governador Roberto Requião abriu os arquivos do DOPS descobri que eu era um fichado como suspeito contra o sistema.

 

06 – MHL – Já há pouco, no governo municipal de Jaime Lerner, em Curitiba, você foi forçado a se submeter a determinadas ações policiais por estar na sessão de fotografias em plena Praça do Expedicionário, entre aviões e balísticas, monumentos em homenagem à Segunda Grande Guerra? Por que essa intervenção policial e o que vcs estavam fazendo que chamou tanto a atenção?

JL - Isto aconteceu em 1998. Jovens skynheads tinham acabado de assassinar um colega nosso do teatro, um negro, com um tiro na cabeça nas escadarias próximo à Catedral. Jaime Lerner tinha assinado uma lei contra propaganda nazista na cidade. Nesta ocasião resolvi montar a peça teatral BB – O VIRULENTO, biografia teatral de um dos mais acirrados lutadores contra o Nazismo, Bertolt Brecht. Mauro Zanatta fazia o papel dele. Alguns personagens da peça: um soldado nazista, um soldado bolchevique, um operário e um soldado da SS. Estávamos ensaiando e preparando o material de divulgação. Pedimos autorização para o diretor do Museu do Expedicionário para tirarmos fotos na praça, em frente ao tanque de guerra, avião, etc. Quando estávamos fotografando, com figurinos, etc. alguém denunciou à polícia e vários carros da PM cercaram a praça e fomos todos presos e levados à Polícia Federal, justamente na Ubaldino do Amaral, por ironia do destino, acusados de “crime lesa pátria”. A história foi longa, consegui liberar a equipe e como produtor, assumi o processo. Mas resolvemos não cancelar a peça e apresentamos toda a temporada, sofrendo retaliações e perseguições variadas, tanto por nazistas da cidade quanto por defensores de judeus. A ignorância era enorme, de todos os lados. Mas finalmente, fui liberado e o processo encerrado graças ao jurista René Dotti, a quem devoto uma enorme estima pela sua imperiosa ajuda. Até hoje não sabemos se os jovens skynheads – dizem que eram filhos de gente poderosa na cidade- foram presos ou não.

 

07 – MHL – Não é simples falar sobre o conceito que Bertolt Brecht tinha do teatro. Porém, você tem uma influência na técnica e nos conceitos muito parecida com Brecht. Há quem afirme ser você um profundo estudioso de Brecht. O que diz?

JL - Eu comecei a estudar a interpretação e o teatro brechtiano em 1995 e desde então não parei mais de pesquisar e testar. É um método não psicológico, que parte do “gestichte”, ou seja, a estrutura que define o ser na sociedade, com todas as suas circunstâncias. A construção do personagem, ao contrário do Stanislavski, não parte essencialmente do mundo interior, mas também do mundo exterior em que ele nasceu e vive. Assim, não trabalhamos com impulsos sentimentais ou emocionais, mas com o comportamento social. Isto implica, para o ator, uma postura (haltung) de crítica em relação ao próprio personagem, tendo que ocasionar, constantemente, a “desinstalação” do personagem, para causar o “verfrendungseffekt”, ou seja, o estranhamento, para ocasionar na plateia um sentimento de “não empatia”, ou “não reconhecimento”. Isto para o ator convencional é extremamente difícil de executar com presteza. É preciso muito estudo e engajamento no método e também aprofundamento sociológico no processo de ensaio e montagem da peça. Enfim, é um método mais científico que psicológico. Um desafio enorme para atores e diretores.

 

08 – MHL – Já que falamos de tantos excepcionais na arte da interpretação, como seria o limite do emocional para você, enquanto ator?

JL - Se eu monto uma peça usando o método brechtiano, o ator deve ter um controle extremo sobre a emoção, fazendo com que na hora H, quando a emoção vai tomar conta, ele ocasiona o “estranhamento”, deslocando a emoção para a dúvida racional. O ator não deve “entrar” no personagem, mas apenas “instalá-lo”, estando sempre pronto para fugir dele.

09 – MHL – Você é um homem que venceu. Eu escrevi uma resenha sobre seu livro “Pequeno Perfil Curitibano: Numa Tarde Apocalíptica e Noutra Ensolarada”. Foi uma experiência excelente para mim. Pode falar resumidamente sobre essa trajetória que o tem levado ao ápice de sua bela carreira?

JL - Não acredito em vitória. Não acredito que ninguém vence na vida ou na carreira. Acredito no “Amor Fati” de Nietszche, ou seja, aceitar a realidade e conviver com ela, aproveitando todas as circunstâncias que ela nos traz. Jamais haverá uma superação definitiva dos problemas e barreiras na vida humana. Isto significaria a estagnação e a morte. Portanto, o ápice não existe. Existem “pontos de virada”, ou seja, ventos que levam a novas direções.

 

10- MHL – Qual o futuro de Jul Leardini diante de algumas dificuldades que o mundo cultural vem apresentando nos últimos tempos? Há uma luz no final do túnel?

JL - As fronteiras do desconhecido estão abertas diante de nós. Muitos sábios, profetas e iluminados trouxeram informações sobre nosso futuro, que cada vez parecem mais próximas. O mundo digital pode ajudar a continuarmos de alguma maneira a nos exprimirmos e sobrevivermos. Mas não sei se isto possa dar proporcionar muitas seguranças quanto ao nosso futuro. A nível de crença, acredito que estamos numa encruzilhada: vemos um trem se aproximando do abismo e a chave de desvio não é enxergada na sua frente. Talvez esteja ainda lá e não a estejamos enxergando mais.

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JUL LEARDINI PERGUNTA PARA MHARIO LINCOLN

01 – JUL LEARDINI - Vivemos num mundo virtual, de redes sociais, onde o auto elogio virou moda. Todos são felizes, todos são grandes, todos tem vida invejável, todos tem a melhor mulher, a melhor casa, o melhor carro, etc. Na obra ELOGIO DA LOUCURA, do filósofo humanista Erasmo de Rotterdam, onde a personagem Moriae (Loucura) faz seu discurso, ela diz, num certo trecho: "Se não tem quem te elogia, elogia-te a ti mesmo", e ri desbocadamente. Comente este assunto.

MHARIO LINCOLN – A obra "Encomium Moriae", na verdade, é algo que – no contraponto – merece elogios. Erasmo foi imbatível. Mas, o que Erasmo fez foi provocar a sociedade da época, chamando a atenção pra si mesmo, após se decepcionar com a Igreja Católica. É uma obra com profundos enxertos religiosos, em seu todo. E, assim, chamando a atenção pra si, colocava-se na contramão do pensamento dos renascentistas, onde o homem medieval tinha atenção única em Deus, o Teocentrismo. O ato de Erasmo chamar pra si todas as atenções (através do autoelogio), tinha um objetivo: seguir a linha humanista, cuja ideia focava no Antropocentrismo. Anos depois, com o advento das redes sociais a humanidade continua a mesma, através de um fator ainda mais facilitador: as intercomunicações neurais dentro da complexa engenharia do mundo virtual. Bom frisar, que muitas vezes essas redes são usadas de forma inconsciente, ratificando o que costumo chamar de ‘síndrome de Erasmo’, não mais uma elegia à loucura propriamente dita, mas uma busca incessante de conseguir seu lugar em ferramentas (facebook, youtube, instagram, twitter) que podem dar visibilidade mundial às suas teorias, teses e produções. Na verdadeira concepção da palavra. “Antropocentrismo Moderno”, ou seja, o ser humano insiste em ser a centralidade das relações em todo o universo palpável, seja como um eixo ou núcleo em torno do qual estão situadas, espacialmente, todas as coisas. E qual é a chave de entrada para a massificação? É o autoelogio...... ainda!

 

02 - JL - Como você vê o jornalismo hoje?

MHL – Há um fato bem interessante: as redes sociais acabaram, por transformar as pessoas em autojornalistas. A velocidade das informações bem como a chance indiscutível de qualquer usuário das redes sociais publicarem conteúdo dos mais variáveis, em todas as áreas, tem influenciado bastante no fazer jornalístico deste país. Eu comecei no jornalismo diário em 1982, quando assumi a titularidade de uma coluna diária de informação. Nessa época, usa-se o sistema de distribuição da notícia – um para todos – ou seja, dezenas e até milhares de pessoas que lessem o jornal em que eu trabalhava acabavam folheando e até lendo a minha coluna. Esse era o fazer jornalístico de então. Porém, em nossos dias, a distribuição de conteúdo foi mudada completamente. As redes funcionam no esquema – todos para todos -. Qualquer um de posse dos mecanismos e instrumentos virtuais são potencialmente produtores-entregadores de conteúdo. O que deve ser entendido, doravante, e aceito, é essa nova ordem de produção e entrega de conteúdo. Não demorará muito, na minha concepção, logo os jornais eletrônicos abrirão muito espaço para pessoas comuns postarem nessas plataformas de rádio, tv ou jornais eletrônicos, individualmente, fotos e matérias, tipo (breaknews – furos), dependendo de onde estão, na hora em que estão, podendo mostrar os fatos ou enviar textos na exata hora em que esses acontecem, seja de norte a sul do país ou da Europa, África, Asia ou Américas. Desta forma, o jornalismo, enquanto profissão, terá que se adaptar aos novos tempos, ou será meramente um observador ou um assessor-produtor de conteúdo específico para clientes específicos.

 

03 - JUL LEARDINI - Qual a importância de sua mãe na sua vida? E de seu pai?

MHL – Minha mãe, colunista na época, teve importância fundamental na minha vida. Inclusive na carreira de jornalismo. Desde a primeira vez que visitei as oficinas de impressão do “Jornal Pequeno”, onde ela trabalhava, me senti atraído pela profissão. Assim como minha mãe, meu pai, por seu lado, foi um homem que me deu as definições básicas de honra, coragem, honestidade. Acabei fazendo Direito por incentivo dele. Acho que ao ingressar como membro-fundador, na Academia Maranhense de Letras Jurídicas, através de duas obras, "A Inviabilidade das Comissões Permanentes de Inquerito" e "Acumulações Remuneradas de Cargos e Funções Públicas", à luz do Direito Administrativo regional maranhense, na área do Direito Administrativo, dei ao meu pai um pequeno orgulho, já que ele era um exímio advogado civil. Mas foi no jornalismo a minha realização profissional, em mais de 40 anos de atividade. Ao final eu é que tive muita sorte em nascer no seio dessa família. 

 

04 - JL - Porque você tem esta ânsia de falar das pessoas, de mostrar a humanidade?

MHL – Bom, da forma como entendi a pergunta, não tenho ânsia, mas a vontade (bem controlável) do compartilhar boas ideias e de inserir no contexto público reconhecidos talentos, com pouco ou sem nenhum acesso à grande mídia. Assim tem sido ao longo de minha atividade jornalística na internet. Desde o “Portal Aqui Brasil”, onde você foi peça importante na construção das ideias. Hoje, na plataforma www.facetubes.com.br, não é diferente. Na Academia Poética Brasileira - APB procurei indicar (uns foram aprovados outros, não) pessoas com simplicidade humana, com obras produzidas com talento e esmero. Todas as pessoas que me cercam e que estão junto comigo nos projetos ativos, são (em maioria significativa) desprovidas do exagero egóico. Isso, de certa forma, me deixa muito feliz, o que oportuniza fazer um trabalho focado na produção do talento de cada um, ao invés de, simplesmente, no indivíduo, como ser supremo. Infelizmente algumas pessoas sem talento e sem capacidade de raciocínio, mas com acesso à grande mídia, costumam esconder essas deficiências através da capa protetora do Orgulho e da Prepotência ou simplesmente do 'conhecimento de almanaque", aquele de muito conteúdo e pouca substância. Isso é injusto diante de pessoas que têm valores incomensuráveis, estudiosas, com lealdade de princípios, humanidade e talento, contudo, sem chances de mostrar o fruto de suas criações ao grande público. Para estas, as portas de todos os meus trabalhos estarão sempre abertas.

 

05 - JL - Qual a importância da escola na sua vida?

MHL – Além de me formar por uma Universidade Federal tive o grande privilégio de estudar em escolas públicas nas décadas de 60/70.  O currículo das escolas de segundo grau era eivado de grandes matérias. Filosofia era meu forte. E como o estudo da filosofia é fundamental na vida de todo ser humano, no sentido da prática de análise, reflexão e crítica em benefício do encontro do conhecimento do mundo e do homem. Muito do que escrevo e do que venho aplicando ao longo de minha vida vem desse belo período. História Geral, Análise de Texto, Noções de Latim, Noções de Sociologia. Matérias de ‘Humanas’ tão necessárias para a minha formação. Portanto, as escolas, cujos currículos inseriram disciplinas desse quilate, foram importantes para mim. Especialmente o Colégio Estadual Liceu Maranhense, onde estudei do primeiro ano do ginásio ao terceiro ano (clássico). Na minha época se tinha a ideia de que aprendendo os ensinamentos da escola poder-se-ia ler o Mundo, em qualquer que fossem as situações futuras. 

  

06 - JL - Como foi sua infância?

MHL: Uma infância muito criativa. Morávamos numa rua chamada “Afogados”, no centro da cidade de S. Luís. E durante as chuvas torrenciais, formavam-se rolos altos de água. Costumávamos aproveitar isso para encenar uma guerra marítima com navios feitos de papel. Uma época em que construíamos nossos próprios brinquedos. Pipas (papagaios de empinar), carrinhos de rolimã, carros de lata, piões de babaçu (da fruta, com casca dura). Cheguei mesmo a montar um grupo de ‘Telecatch’ para promover lutas para nossos vizinhos. Lembra do Ted Boy Marino, nosso ídolo na época? Minha lírica nasceu muito cedo e quando a descobri, juntamente com o jornalismo, após os 14 anos. Isso, no fundo, me deu uma base incrível escrever contos, romances e poesias. Uma infância muito contributiva para minhas atividades adultas.

 

07 - JL - Como você vê a situação do mundo atual? Incluindo as Artes...

MHL – Acho que o ponto a ser discutido aqui é o futuro da produção artística. Os rumos que essa produção deverá tomar. Acredito que a arte sempre vai surpreender, seja qual for o caminho utilizado. Isso porque muitos dos que a praticam nestes nossos dias atuais, vêm passando por um período muito difícil. Por outro lado, é também sabido, que a criação se dá em quaisquer que sejam as situações físico-mentais do momento. Artista não faz arte só em situações boas, em momentos de nirvana. Mas sim, ultrapassam seus limites por querer expressar o fluxo da forma, da sensação e dos ruídos do Mundo. Destarte, como vai ser representada a arte mundial, após essa pandemia? Não tenho certeza. Mas não irá surpreender tanto. Isso porque a expertise de fazer arte vai se reinventando em novas formas de existência, bem pertinente a buliçosa maneira de tornar-se bela. Como dizia Salvador Dali. Sempre vão existir aqueles que transformam um borrão amarelo num sol de beleza áurea. 

 

08 - JL - O que significa a literatura em sua vida? Cite seus escritores preferidos e justifique.

MHL - Por incrível que possa parecer, costumo separar (e bem) a prosa da poesia. Quanto a romances, três deles são imprescindíveis em minha carreira, enquanto jornalista e amante da literatura: “Os Pilares da Terra”, de Ken Follet, “Cem anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, e “Dom Quixote de la Mancha”, do espanhol Miguel de Cervantes. Quanto aos meus poetas preferidos, começo com Edgar Allan Poe, “Não fui, na infância, como os outros / e nunca vi como os outros viam (...)’. Castro Alves, “Afoga-me os suspiros, Marieta! Ó surpresa! / Ó Palor! / Ó Pranto! / Ó Medo! (...)”. Florbela Espanca, “Tão pobres somos / que as mesmas palavras nos servem / para exprimir a mentira e a verdade”. Francisco Ricardo (do RGS), “Uma criatura instável como as horas .... / Que me adorasse em todos os poentes / e que me odiasse em todas a auroras!”. Safo, a incrível Safo: “Você talvez esqueça, mas deixe-me falar isto: / alguém no futuro pensará sobre nós”. Ainda na carona grega, Ésquilo, “Os sofrimentos humanos têm facetas múltiplas: / nunca se encontra outra dor do mesmo tom (...)”. Vladimir Maiakóvski, “Amar não é aceitar tudo. / Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor”. Tenho lido demais grandes poetas. Por isso, é impossível não incluir Maria Firmina dos Reis nas minhas líricas, “Passou. E agora sufocando a custo / Meu peito o doce palpitar do amor, / Delícias bebe desterrando o susto, / Que a noite incute a semear pavor”. E por aí vai...

 

JL - Onde se insere a Música na sua vida?

MHL - A música me acompanha desde cedo. Comecei como baterista amador. Depois toquei profissionalmente em bailes por quatro anos. Acho que dos 15 aos 19. Aprendi demais. Estudei piano clássico. E isso me ajudou muito em minhas composições instrumentais. Frank Zappa, Pink Floyd, Rush, Emerson Lake and Palmer e Rick Wakeman me influenciaram diretamente. Porém, vale dizer que entre meu início musical (aos 15 anos) e minhas atividades atuais, houve uma pausa em torno de 40 anos para, então, reatar meus estudos musicais e composições. Hoje tenho mais de 50 músicas instrumentais e umas 20 verbalizadas. Sempre com o inegável apoio e orientação do meu parceiro primeiro, Chiquinho França. Uma de nossas produções, a música ALUMIÔ, recebeu Menção Honrosa, num “Content”, realizado em Portugal, em 2019.

 

10 - JL - Você tem algum problema de falar sobre o vício do álcool?

MHL - De maneira alguma. Na época em que fui músico profissional, vi alguns amigos de muito talento se afundarem nas drogas e no álcool. Perderam tudo. Até a vida. Isso me abalou muito. Anos depois, quando cursava Direito, me deparei com Medicina Legal, dentro do currículo do curso. A partir daí surgiu a oportunidade que faltava. Comecei a estudar a fundo o tema.  Meu interesse  inicial era compreender a influência das drogas no organismo humano e suas reações, as quais poderiam atingir sanções penais. Surgiu aí, a primeira certeza de que essa dependência não era vício, mas sim, uma doença grave. E continuei estudando muitos anos, até conhecer os grupos de autoajuda específicos para o alcoolismo e drogas. Logo passei a ministrar palestras para jovens e idosos que precisavam desse tipo de ajuda. Mas foi lá, interagindo com esses grupos que aprendi a lição maior: que o alcoolismo e outras dependências químicas são reconhecidas como doenças severas. Isso, pela Organização Mundial de Saúde. Inclusive com sintomas incluídos na (CID), Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, classificando técnico-oficialmente o alcoolismo e outras drogas psicóticas como doenças. CID 10 - Y91 (Evidência de alcoolismo determinada pelo nível da intoxicação); CID 10 - Y91.0 (Intoxicação alcoólica leve); CID 10 - Y91.1 (Intoxicação alcoólica moderada); CID 10 - Y91.2 (Intoxicação alcoólica grave); CID 10 - Y91.3 (Intoxicação alcoólica muito grave); CID 10 - Y91.9 (Envolvimento com álcool não especificado de outra forma). Como se vê, a doença do alcoolismo é grave, levando à morte milhões de seres humanos no mundo, sejam por problemas orgânicos, sejam acidentes, sejam assassinatos, sejam suicídios, mesmo que alguns médicos insistam em dar outras causas a essas mortes.  E o pior: quase 3% da população brasileira acima de 15 anos de idade é considerada alcoólatra, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS/2019). A porcentagem pode parecer pequena, mas representa mais de 4 milhões de brasileiros. Para mim foi um grande aprendizado e sei que "aquela cervejinha" que todos falam ou "aquele copo de vinho no almoço", que dizem fortalecer o coração, são meramente jogos comerciais, os quais podem levar, sim, à morte, qualquer um desses 4 milhões (números de 2009) de brasileiros doentes de alcoolismo. Desta forma, vale afirmar, com todas as letras, pela experiência que tive ouvindo cada dependente e palestrando em inúmeras salas de autoajuda, ao longo desses anos, é que as drogas dão prazer, mas punem severamente. Muitas vezes, com a própria morte. 

 

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