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Brasil ATRÁS DO BIG BROTHER

Por que o Big Brother tem muito do livro "1984", de "Matrix" ou simplesmente, "é a falta do que fazer transformada em espetáculo"?

Leia os pensamentos de Jeremy Bentham, Jean Baudrillard e Domenico de Masi

20/02/2021 17h54 Atualizada há 6 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Superinteressante/edição:14 fev 2021
Google/Divulgação
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Por que todo mundo gosta tanto de Big Brother? Por que todo mundo gosta tanto de BBB? O que três filósofos diriam?

Textos escolhidos. Bruno Vaiano/ Superinteressante/ edição:14 fev 2021, 

Leia mais em: https://super.abril.com.br/blog/oraculo/por-que-todo-mundo-gosta-tanto-de-bbb-o-que-tres-filosofos-diriam/

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O Big Brother é viciante por muitos motivos: nossa sensação de poder sobre os candidatos, a maneira como vemos nossos dilemas éticos...

O Big Brother é viciante por muitos motivos: nossa sensação de poder sobre os candidatos, a maneira como vemos nossos dilemas éticos refletidos neles, a nossa incapacidade de lidar com o ócio.

Filósofos: original da revista Superinteressante.

1 - Jeremy Bentham, um filósofo iluminista britânico, talvez dissesse que o apelo do programa tem a ver com o poder que o espectador exerce sobre a subcelebridade na tela. Essa sensação não vem só do fato de que nós podemos votar em quem sai. Ela decorre, principalmente, da vigilância: como os moradores da casa passam o dia sendo filmados, eles não fazem a menor ideia de quais trechos serão exibidos em rede nacional. Portanto, precisam se comportar o tempo todo. Não podem sair do personagem que criam para si.

Bentham concebeu algo parecido no campo da arquitetura com a sua a prisão panóptica: um arranjo de celas circular em que um vigilante só mantém todos os presos em seu campo de visão- e ninguém sabe para onde ele está olhando. Para o iluminista, coibir absolutamente a intimidade seria um método de controle muito mais eficaz do quer a força bruta de manter carcereiros em todos os corredores. Como o preso nunca sabe se está sendo observado ou não em um dado momento, cada tentativa de transgressão se torna uma aposta de risco alto.

O conceito de vigilância absoluta de Benthan respingou em muitos trabalhos posteriores, tanto na esfera acadêmica quanto nas artes. Um deles é justamente o livro 1984, de George Orwell. A obra retrata um regime totalitário em que o ditador, batizado de Grande Irmão (daí o título do reality show) mantém todos os cidadãos sob vigilância por meio das teletelas: um aparato que ao mesmo tempo filma o ocupante do apartamento e exibe propaganda estatal constantemente. A ideia é que, caso a lavagem cerebral do cidadão não tenha sido 100% eficaz, em algum momento ele vai dar um fora – e as autoridades poderão identificá-lo.

2 - Jean Baudrillard é um filósofo pós-estruturalista francês que morreu em 2007. Ele foi um importante analista da mídia e da cultura contemporânea, e seu livro Simulacros e Simulação é um dos pilares conceituais da série de filmes Matrix. No livro, Baudrillard não diz só que a cultura contemporânea é artificial porque o conceito de “artificial” ainda exige que você retenha algum senso do que é a realidade para pode compará-la às coisas artificiais. A questão é outra: nós perdemos a habilidade de distinguir o real do artificial. Por exemplo: um homem entra em um banco e ameaça os clientes com uma arma de brinquedo. Desde que ele não precise realizar um disparo, ninguém nunca saberá que o revólver é falso.

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Os clientes ainda ficarão traumatizados. A caixa ainda entregará o dinheiro. A polícia, inclusive, ainda vai matar o ladrão se tiver uma chance.

Outro experimento mental: você pode mostrar uma foto do seu namorado para seus amigos. E ela é um reflexo básico da realidade: representa o que você vê quando olha para ele. Mas você pode dar um passo além e usar o Photoshop para meter um tanquinho nele. Isso é um primeiro grau de perversão da realidade. O próximo passo – o grau dois de perversão – é pegar uma foto aleatória de um cara na internet e dizer que ele é seu namorado, mas mora em outra cidade. Por fim, dá até para usar uma inteligência artificial que produza, do zero, um rosto de alguém que nunca existiu. Esse é o terceiro grau de artificialidade, ainda mais alto.

Assim, Baudrillard diria que o reality show nos atrai porque é uma simulação caricata da realidade. Para o francês, o BBB é uma forma de voyeurismo psicológico: vemos candidatos a subcelebridades, que encarnam personagens estereotipados, agirem de forma medíocre e banal – e ansiamos por ver dilemas éticos do nosso cotidiano encenados por eles. Por exemplo: um tweet do tipo “A Lumena resume tudo que tá errado com a esquerda brasileira”. escrito por uma pessoa de esquerda demonstra que o espectador viu atitudes de seu círculo social refletidas na personagem.

A questão crucial, porém, é que o BBB é tão real quanto a foto gerada pela inteligência artificial: nós assistimos como se tudo ali na tela fosse verdade, mas as pessoas vigiadas não agem da mesma maneira que agiriam se não estivessem sob a mira de câmeras o tempo todo. Isso torna a experiência hiper-real. Baudrillard escreveu isso na década de 80, mas já previa que logo tudo se tornaria um grande BBB: como nós mesmos passamos o dia sendo observados nas redes sociais, nossas próprias vidas se tornaram tão simuladas quanto às dos personagens do BBB.

3. Domenico de Masi é um sociólogo italiano que ganhou ares de popstar do mercado editorial nos anos 2000 por sua defesa do ócio. E ele comenta o Big Brother justamente dessa perspectiva: sugere que o BBB é a falta do que fazer transformada em espetáculo. Pessoas que poderiam passar o tempo livre descansando ou fazendo algo criativo e prazeroso se oferecem para perder tempo em intrigas e fofocas ficcionalizadas – e nós, que também não sabemos curtir o ócio em paz, assistimos. Nós nunca tivemos jornadas de trabalho tão curtas – mesmo pessoas pobres de países em desenvolvimento começam a trabalhar em média mais tarde (e dedicam menos horas semanais ao trabalho) que seus avós ou bisavós dedicavam. Isso é possível não só graças a avanços sociais, mas também por causa de uma grande quantidade de tecnologias, de smartphones a aviões, que permitem uma espetacular economia de tempo na realização de qualquer tarefa.

É óbvio que o mundo ainda não está lá essas coisas: a desigualdade ainda é grande, a miséria ainda é grande. Mas a qualidade de vida média no planeta Terra nunca foi tão alta quanto é hoje, e a criatividade nunca foi tão importante para gerar renda: se antes alguém podia ganhar a vida batendo pregos, hoje essa atividade é automatizada nas fábricas – e muitos empregos, em várias faixas de renda, envolvem a realização de tarefas que demandam jogo de cintura e flexibilidade.

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Essas são capacidades que adquirimos no nosso tempo livre, com descanso de qualidade, convivência com pessoas de quem gostamos e atividades lúdicas e criativas. Mas, apesar dos tantos artifícios que a sociedade contemporânea tem à disposição para economizar tempo e obter esse ócio tão desejado, ainda vivemos uma falta de tempo crônica – porque ele se esvai com 4 ou 5 horas diárias acompanhando algo como o BBB na TV e nas redes sociais.

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Edomir Martins de OliveiraHá 6 anos atrásSão Luís MA O livro 1984, de George Orwell, trata de um regime totalitario em que as pessoas são mantidas sob vigilancia. No BB os participes são seus próprios vigilantes, comportamento que os homens precisam em toda sociedade. Infelizmente vem os excessos que empobrecem o programa e os desvirtuam. .
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