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Edmilson Sanches: 23 de abril, o Dia Mundial do Livro, Cervantes e autores maranhenses (Parte 03).

23/04/2023 às 14h52
Por: Mhario Lincoln
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Relembrando o nome de Cervantes, autores maranhenses tinham-no em sua predileção, a ele dedicando estudos e até livros. É o caso, por exemplo, de Josué Montello (1917-2006). O notável romancista, ensaísta, jornalista, professor e teatrólogo são-luisense é autor de pelo menos duas obras sobre Cervantes: “Cervantes e o Moinho de Vento”, lançado em 1950 (Gráfica Tupy, Rio de Janeiro – RJ), e, três anos depois, “Viagem ao Mundo de Dom Quixote” (Universidade Federal do Ceará, Fortaleza – CE, 1953). Sobre o ensaio montelliano de 1950, o ótimo escritor, historiador e crítico literário paulista Brito Broca (1903-1961), em setembro de 1952, anotou, já ao final de sua alentada e excepcional introdução a uma edição de “Dom Quixote de La Mancha”:  “[...] muito erudito e penetrante, no qual o autor procura ver no romance em questão uma sátira ao leitor crédulo”. E ainda: “Não será demais que patrícios nossos, como Josué Montello, venham a descobrir sentidos novos em tal livro”.

 

Brito Broca também registra, antecedentemente às anotações sobre o ensaio de Montello, que o maranhense, de Caxias, Coelho Netto, respondendo a João do Rio sobre “quais os autores que lhe haviam contribuído para a formação literária”, teria colocado “Dom Quixote”, precedido de, primeiro, “As Mil e Uma Noites” e “toda a obra de Shakespeare”.  Eis a íntegra do trecho: 

 

“No inquérito realizado via ‘Gazeta de Notícias’, por volta de 1907, e reunido em volume, sob o título ‘O Momento Literário’, uma das perguntas dirigidas por João do Rio aos escritores era: quais os autores que lhe haviam contribuído para a formação literária. Coelho Neto coloca em primeiro lugar ‘As Mil e Uma Noites’; em segundo, toda a obra de Shakespeare; em terceiro o ‘Dom Quixote’. Mas a influência deste último decerto se filtrou de tal maneira na numerosa obra do romancista maranhense, a ponto de não nos permitir identificar qualquer manifestação concreta ou precisa.”

 

O parágrafo acima é o texto com a leitura de Brito Broca do que escreveu ou transcreveu João do Rio após a entrevista deste com Coelho Neto, texto publicado no livro “O Momento Literário”, onde Broca reúne 36 autores  --  outros oito não responderam ao “inquérito” (a lista de perguntas), entre eles os maranhenses Graça Aranha, que alegou que se deve “escrever pouco”; Aluísio Azevedo, que estava abarrotado de trabalho (“diante de mim uma torre de papeis”, teria escrito) no consulado em Cardiff, no País de Gales (Reino Unido); e Artur Azevedo, que, segundo Broca, “não disse nada”. 

 

Afora Coelho Netto, de maranhense entre os 36 escritores entrevistados em "O Momento Literário" só vejo Raimundo Correia, o último do livro, onde ocupou só três páginas. Também vejo Rodrigo Otávio, que casou com uma das filhas de Ricardo Leão Sabino, são-luisense e, residente em Caxias, professor de Gonçalves Dias, lá na Rua do Cisco, onde morei, região central da cidade "Princesa do Sertão Maranhense", minha terra natal.

 

Vejo também, entre os 36 autores do livro “O Momento Literário”, Medeiros e Albuquerque, pernambucano, que deu a ideia desse livro para João do Rio, que por sua vez lhe dedicou a obra. Medeiros de Albuquerque (1867-1934) foi da Academia Brasileira de Letras e era filho do maranhense, de Caxias, Joaquim José de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque, de quem herdou talento e o nome (com a inversão dos prenomes iniciais  -- José Joaquim).

 

A leitura direta do texto de João do Rio sobre Coelho Netto diz mais, e diferentemente, do que resumiu Brito Broca em sua magistral introdução a uma das edições brasileiras de “Dom Quixote”. Na transcrição de Brito Broca, Coelho Netto diz logo, com sua “rude franqueza meridional” (como anotou o autor paulista) que, para a formação literária dele, “não contribuíram autores, contribuíram pessoas”. Continua o caxiense: “Até hoje sofro a influência do primeiro período da minha vida no sertão. Foram as histórias, as lendas, os contos ouvidos em criança, histórias de negros cheias de pavores, lendas de caboclos palpitando encantamentos, contos de homens brancos, a fantasia do sol, o perfume das florestas, o sonho dos civilizados... Nunca mais essa mistura de ideais e de raças deixou de predominar, e até hoje se faz sentir no meu ecletismo. A minha fantasia é resultado da alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. É do choque permanente entre esse fundo completo e a cultura literária que decorre toda a minha obra [...]”. 

 

Só quando João do Rio insiste (“ – Há, entretanto, uma parte da sua obra...”) é que Coelho Neto, nem deixando o jornalista carioca completar a frase, diz:

 

“ – Sim, a parte fescenina. É aí, no ‘Fruto Proibido’, que começo a ter a responsabilidade do meu trabalho. O amor pelas lendas, pelo fantástico ficou porém. O livro que mais me impressionou foi ‘As Mil e Uma Noites’. Depois toda a obra de Shakespeare, o ‘Dom Quixote’, os poetas gregos, Plutarco, que releio constantemente...”

 

João do Rio procura saber dos autores modernos de predileção de Coelho Netto, que lista:

 

“ – Flaubert, o admirável Maupassant, Taine, que é a base da minha visão crítica, e os ingleses contemporâneos, com especialidade os dramaturgos.”

 

Coelho Netto menciona autores portugueses e outros mais. A parte que lhe coube em “O Momento Literário” de João do Rio tem sete páginas. Faço questão de antecipar, no parênteses abaixo, um pouco das informações que estarão em texto que preparo sobre o caxiense Aderson Ferro, escritor e odontólogo pioneiro no Brasil. 

 

(Parênteses: Quando Coelho Netto, acima, menciona, até qualificando de "admirável", o escritor francês Guy de Maupassant (1850-1893), lembrei-me de que tive acesso a uma ata de uma sociedade de geografia comercial da França onde se registrava que, em um dia dos anos 1870, o caxiense Aderson Ferro e o grande escritor francês Guy de Maupassant, amigo de Gustave Flaubert, estavam os dois, Aderson e Maupassant, tomando posse na dita sociedade. 

 

Parte04/Última parte: https://www.facetubes.com.br/galeria/377/edmilson-sanches-23-de-abril-o-dia-mundial-do-livro-cervantes-e-autores-maranhenses

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JAIME Há 3 anos BSB/DFTrês crônicas preciosas!!! O cronista nos brinda, com um trabalho de alto nível. Aplausos de pé!!!
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