Parte 03
Mais recentemente, desde maio de 2020, Sálvio telefonava para mim duas ou três vezes por semana. Ele acabara de receber um livro prefaciado por mim e, ao ligar, disse: “ --- Vou te enviar os originais do meu canto do cisne, meu último livro, e não posso publicar esse livro sem o seu prefácio”.
Ainda “ralhei” com ele sobre aquela história de “canto do cisne”, de “último livro”, e ele ria...
Após receber o texto do prefácio que escrevi, fez dois telefonemas onde, por quase uma hora, ele demonstrava a satisfação com o prefácio. Depois, pediu: “ --- Esse livro só pode sair se for com sua revisão e sua edição; faça o projeto editorial e me envie, para eu tratar das condições para publicá-lo”. Sálvio aceitou todas as ideias para o projeto gráfico-editorial do livro, a partir da sugestão de um nome mais curto e forte -- “Louvação a Grajaú” –, além de ilustrações em cores, índices cronológico e onomástico etc. Ele queria que estudantes e pessoas mais jovens se sentissem atraídas para manusear e, é claro, ler sua “Louvação” à cidade de que ele é orgulhoso -- e ilustre -- filho. Um exemplar do livro, que nas gráficas chamamos “boneco”, foi feito e foi levado à residência joão-lisboense do grande tribuno dos Sertões. Era apenas um molde de como o livro seria e sua parte conteudística não recebera qualquer tratamento de revisão linguística ou editorial. O exemplar do modelo de livro lhe foi entregue pela esposa e Sálvio o olhou, folheou, leu uma ou outra parte e perguntou a Dª Iolete se ela também havia gostado, tendo recebido resposta afirmativa. Ele estava bem contente com seu trabalho...
O Sálvio aqui e acolá lembrava a coincidência -- de resto trivial -- de um de seus filhos e eu termos nascidos no mesmo dia e mês. Outro ponto de contato foi a eleição de Sálvio Dino para a Academia Maranhense de Letras Jurídicas, em 2014. A Cadeira que ele passou a ocupar ficara vaga com o falecimento, naquele ano, de um grande amigo meu e por muito tempo meu colega de república em Imperatriz: o itapecuruense Leomar Barros Amorim de Sousa (1955—2014), mestre em Ciências Jurídico-políticas em Lisboa (Portugal), que nos idos das décadas de 1970 e 1980, era advogado do Banco da Amazônia e depois, por concurso, tornou-se juiz federal, chegando a desembargador federal do Tribunal Federal de Recursos da 1ª Região, professor universitário e membro do Conselho Nacional de Justiça.
Para não alongar mais ainda este escrito -- de qualquer forma pequeno para a imensidão multifacetada de Sálvio Dino --, relembro um episódio que tanto o alegrou: o reencontro com a filha de um amigo dele da distante primeira metade do século 19 -- o jornalista e poeta Rogaciano Leite, nascido em Pernambuco mas radicado em Fortaleza (CE) e viajado por todo o País e Exterior, fazendo reportagens que ganharam prêmios Esso e realizando apresentações culturais, com recitais poéticos Brasil adentro. Rogaciano Leite esteve em São Luís e em Caxias. Na capital, conheceu Sálvio Dino e tornaram-se amigos.
Coincidentemente, lá pelo ano 1995 ou 1996, quando eu morava em Brasília, recebi uma visita surpresa de Sálvio Dino ao meu local de trabalho. A satisfação ante o reencontro foi enorme. Aí, lembrei-me de que uma colega de trabalho, a engenheira civil e gestora Helena Roraima Iracema Cavalcante Leite, era uma das filhas do poeta Rogaciano Leite. Apresentei-a ao Sálvio Dino, oportunidade em que ele logo contou à Helena Roraima como conhecera o pai dela. Duas décadas e meia depois, em 2020, comemoraram-se cem anos de nascimento do grande poeta nordestino Rogaciano, já falecido. Helena Roraima, há anos morando em Madrid (Espanha), realizou, de longe, um enorme, gigantesco esforço para coletar mais e mais informações sobre seu pai e fazer, ainda que de modo virtual (em razão da pandemia do coronavírus), uma exposição sobre ele, além de reeditar alguns dos livros de seu pai. Helena Roraima pediu depoimentos em áudio e vídeo e textos, solicitou recortes de jornais que mencionavam seu pai, fotografias, enfim, o que era possível. Pediu-me ajuda, queria um plano de pesquisa nos diversos estados brasileiros, consulta a coleções de jornais em biblioteca ou nas sedes dessas publicações, gravação de entrevistas... Um mundo de coisas.
Fiz o planejamento e o enviei para a Helena Roraima -- e, “de quebra”, disse para ela que havia localizado alguns conhecidos de Rogaciano Leite ou apreciadores de sua obra. São os amigos escritores Arthur Almada Lima Filho, desembargador, e Frederico Brandão, advogado, que conheceram Rogaciano em Caxias, ambos residentes em São Luís. Também Edmilson Franco, advogado e acadêmico imperatrizense, que conhece de cor e salteado a cidade natal e diversos outros lugares por onde Rogaciano andou; Valdizar Lima, empresário, membro da Academia João-lisboense de Letras, conterrâneo de Rogaciano. E, é claro, passei os contatos do Sálvio Dino, velho conhecido do poeta sertanejo. Da Espanha, Helena Roraima ligou para todos e, pela magia das telecomunicações, teve momentos emocionantes com pessoas que falaram -- e falaram bem -- de seu pai... Sobre Sálvio Dino, a filha de Rogaciano Leite enviou-me em 24 de agosto de 2020 o seguinte depoimento:
“Foi em 1947 que ele [Sálvio Dino] conheceu o poeta Rogaciano Leite, meu pai. Cinquenta anos depois, o conheci, apresentado pelo meu amigo Edmilson Sanches, quando trabalhávamos no gabinete da presidência do BNB [Banco do Nordeste do Brasil], em Brasília.
“Vê-lo lembrar-se tão bem do papai, depois de 50 anos, me pareceu fantástico! Recentemente, tive nova oportunidade de contatá-lo (encontro também facilitado pelo Sanches) e por telefone conversarmos prazerosamente por longo tempo; e, por fim, pude convidá-lo para participar do documentário sobre papai... pós-pandemia... Ano 2020...
“Vejam só... Já são 73 anos [do encontro entre Sálvio Dino e Rogaciano Leite] e 23 do nosso encontro... e mesmo assim, depois de tantos anos, sua memória [de Sálvio Dino] e energia de menino me impressionaram e me encheram de emoção e de carinho... por ele... por suas lembranças, dele e minhas, guardadas na sua bagagem de memórias de seus 88 anos.
“Não pude deixar de me emocionar com sua internação, seguida de minhas preces... e meu desejo de voltar a conversarmos e rirmos juntos...
“Sua ausência, agora, nos separa... mas levo comigo o vínculo que criamos, antes com o pai, agora com a filha. Sálvio Dino é marcante! Se sinto essa dor ao saber dessa notícia triste (pelo meu amigo Sanches), que me enche de emoção, fico a imaginar o sentimento de quem o conheceu faz tempo...
“Solidarizo-me com o sentimento de todos os seus admiradores, amigos e familiares, desejando-lhes o conforto, sentindo a ausência física, mas crendo na vida espiritual, que sei que não morre!...
“Os dois amigos [Sálvio Dino e Rogaciano Leite], a essas horas devem estar juntos, relembrando e contando suas histórias...
“O meu adeus a Sálvio Dino! Gratidão por conhecê-lo.
“Sanches, gratidão por ser o intermediário desses nossos felizes encontros que a vida nos proporciona. “ (HELENA RORAIMA LEITE)
Em 2022, a engenheira e pesquisadora Helena Roraima retornou ao Brasil e fez um percurso nas pegadas do pai, ela indo por onde ele andou, trazendo na bagagem o sentimento e a obra-prima do de Rogaciano, “Carne e Alma”, em nova edição. No final de julho, dia 29, Helena Roraima esteve em São Luís e (re)lançou o livro do talentoso pai (deixou alguns para mim, aos cuidados da escritora Wanda Cunha, presidente da Associação Maranhense de Trovas).
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A natureza das lembranças e impressões de Sálvio Dino em muitas pessoas pode ser aferida pelos comentários a partir de dois pequenos textos que fiz e coloquei dia 24/08/2020 em página em meu nome na rede social Facebook. Lindalva Bastos Lopes escreveu: “Saudades eternas; eu admirava muito o intelectual Sálvio Dino. Um homem culto, um intelectual admirado e amado por muitos [...]”.
Francisca Carvalho Sousa, maranhense residente em São Paulo, solidariza-se na dor e relembra: “Meus sentimentos a todos familiares. O conheci demais, porque ele ia à casa de meus pais nos anos 1970. Eu votava nele e meu pai votou nele. Sinto muito; eu também o admirava muito”.
Nascida em Anápolis (GO), mas há muito radicada em Imperatriz e no vizinho estado do Tocantins, onde é professora, Eunice Mendes dos Santos reconhece: “Um homem simples, mas de uma grandiosidade infinita! Muita Paz e Luz em seu retorno ao Lar original! Aos familiares, meus sinceros sentimentos!”
Bancário aposentado, João Silva Lima lamenta: “Foi-se um dos maiores intelectuais do Maranhão, político de renome e uma das maiores expressões do Direito Penal. Imortal da Academia de Letras, autor de vários livros. Que Deus o tenha.”
Funcionário da Caixa Econômica Federal e “designer” gráfico, Marcos David P. Almeida relembra: “Grande homem!! Conheci o Dr. Sálvio Dino quando eu trabalhava na Gráfica e Editora Brasil, em Imperatriz. Meus pêsames aos familiares!!”
Leia a última parte: https://www.facetubes.com.br/galeria/394/efemerides-salvio-de-jesus-de-castro-e-costa-salvio-dino-por-edmilson-sanches-ultima-parte
Na foto abaixo: Sálvio Dino, Lourival Serejo, Aureliano Neto e Edmilson Sanches.

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