Parte 02
Sálvio Dino teve uma vida onde seu talento precoce e sua coragem cívica foram revelados, ampliados e postos à prova. Ao longo da sua existência e desde a minoridade, assumiu -- e desempenhou -- diversos cargos e encargos; não negou sua participação, envolvimento, luta em nome de coisas e causas coletivas.
Depois dos primeiros estudos na terra natal, Grajaú, Sálvio Dino foi para São Luís, fazer o curso Secundário, ou 2º Grau, hoje Ensino Médio. Depois, ingressou no curso de Ciências Jurídicas e Sociais, da Faculdade que hoje integra a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e sobre a qual Sálvio mais tarde escreveria e publicaria o livro “A Faculdade de Direito no Maranhão”, prefaciado pelo médico e professor Natalino Salgado, reitor da UFMA.
Alguns recortes da vida de Sálvio Dino:
Na vida ESTUDANTIL logo se tornou referência. Foi ativo membro da União Maranhense dos Estudantes Secundaristas (UMES). Líder estudantil, integrou o Parlamento Escola da Faculdade de Direito e foi eleito orador oficial do Centro Acadêmico Clodomir Cardoso, da mesma Faculdade.
Na EDUCAÇÃO, como vereador na capital, foi autor do projeto de lei que criava o Colégio Municipal de São Luís.
Na IMPRENSA, foi revisor e repórter dos Diários Associados, em São Luís. Colaborou por décadas como articulista e cronista do jornal “O Estado do Maranhão”, além de contribuições variadas para outras publicações, inclusive o jornal “O Progresso”, de Imperatriz.
No mundo do DIREITO, como ressaltou em nota oficial a Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão (OAB-MA), “foi um profissional atuante e que muito contribuiu para a advocacia maranhense”. Foi um grande advogado criminalista e júris de que participava tornaram-se famosos, tanto na capital do Estado quanto nos demais municípios maranhenses. Foi, por vários anos, chefe da assessoria jurídica da Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (FAMEM). É da autoria de Sálvio Dino a proposição para a criação da subseção da OAB em Imperatriz, considerada a primeira do interior da extensa Amazônia Legal. Foi conselheiro da OAB-MA e editor geral da revista científica da Ordem, tendo sido homenageado por essa Entidade com o Diploma de Honra ao Mérito pelos 100 anos do Curso de Direito da Universidade Federal do Maranhão, em 2018.
Na POLÍTICA e ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, foi eleito vereador de São Luís em 1954 e reeleito em 1958. Em seguida, foi eleito deputado estadual em 1962, cujo mandato foi cassado em 1964, por alegadas atividades subversivas. Foi reeleito para a Assembleia Legislativa em 1974, exercendo o mandato de deputado estadual de 1975 a 1979. Chegou a ser considerado o melhor deputado do ano de 1977, pelo Centro Social Estudantil Maranhense. Foi eleito prefeito do município de João Lisboa por dois mandatos: de 1988 a 1991 e de 1996 a 2000. Foi fundador e presidente da Associação dos Municípios do Sul do Maranhão (AMSUL), depois Associação dos Municípios da Região Tocantina (AMRT). Ocupou e exerceu diversos cargos de relevo no Governo estadual maranhense.
No segmento do ESPORTE, quem da região sul-maranhense não se lembra do Sálvio Dino aficionado pelo futebol e idealizador do torneio Copão Maranhão do Sul?
E o dedicado filho de GRAJAÚ? Diziam e dizem de Sálvio Dino ser ilustre filho do bicentenário município de Grajaú, mas ele, muito mais, era orgulhoso filho da antiga São Paulo do Norte ou Vila da Chapada -- era o filho que se orgulhava da terra mãe e da qual não se pejava de enaltecer. Tanto isso era fato que foi a ele, Sálvio, a quem foi confiada a coordenação dos duzentos anos de fundação de Grajaú, completados em 11 de março de 2011.
No campo das LETRAS, da HISTÓRIA e da CULTURA em geral, Sálvio Dino deu exemplo de iniciativa e participação, como membro da Academia Maranhense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Imperatrizense de Letras, da Academia João-lisboense de Letras e da Academia Grajauense de Letras e Artes, da qual era presidente. Também fundou, com a colaboração de Edmilson Sanches, e foi presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA).
Em sessenta anos de vida política e de pesquisas históricas e culturais, publicou diversos livros e deixou pelo menos um inédito e praticamente pronto para impressão. Suas obras publicadas têm início em 1959, com “Um Moço na Tribuna”; depois seguiram-se: “Trilogia da Emoção” (1964), “Raízes Históricas de Grajaú” (1974, reeditado em 2021), “Nas Barrancas do Tocantins” (1981), “Semeando Manhãs” (1985), “Quem Passar por João Lisboa” (1989), “Luzia, Quase Uma Lenda de Amor” (1990), “Onde é Pará, Onde é Maranhão?” (1990), “O Perfil Histórico do Rio Tocantins” (1992), “A Faculdade de Direito do Maranhão: 1918-1941” (1996), “Clarindo Santiago: O Poeta Maranhense Desaparecido no Rio Tocantins” (1997), “Leões: Um Palácio de Histórias, Lendas, Mitos & Chefões” (1997), “Verde, Sertões e Vidas” (1999), “Parsondas de Carvalho: Um Novo Olhar Sobre o Sertão” (2011, com reimpressão em 2021), “Do Grajaú ao Cume da Intelectualidade” (2014) e “A Coluna Prestes a Exilar-se -- Passagem pelo Sul-maranhense” (2016). Inédito, deixou “Louvação a Grajaú”, considerado por ele seu “canto do cisne” (última obra), conforme declarações ao jornalista, escritor e editor Edmilson Sanches, escolhido por Sálvio Dino para fazer o prefácio (já lido e aprovado por Sálvio) e mais a revisão e edição da obra.
Permanentemente ativo e criativo, Sálvio Dino alimentava outros projetos literários, entre os quais uma segunda edição, revista e ampliada, do livro sobre a Coluna Prestes, de 2016, e um livro novo, sobre o militar e escritor maranhense Augusto Tasso Fragoso, que em 1930 foi da Junta Governativa do Brasil. Sálvio estava em fase de leituras sobre o possível biografado, conforme conta Agostinho Noleto Soares, advogado, escritor e colega de Sálvio na Academia Imperatrizense de Letras.
O advogado e escritor Fernando Braga, residente em Brasília (DF), falecido em 11 de março de 2022, amigo e contemporâneo de Sálvio Dino, ouviu o ilustre grajauense referir-se a um terceiro projeto, um livro sobre a tradicional família Barros, de Grajaú, da qual descende Dª Maria José Barros de Castro e Costa, mãe dele, Sálvio. Aliás, Sálvio Dino tem praticamente pronto o material para esse livro “post-mortem”: a série de crônicas sobre a família Barros, que ele escreveu e que, parte delas, foi publicada em jornal e em espaço virtual da Academia Maranhense de Letras. É só reunir e dar o tratamento gráfico-editorial necessário, realizando mais esse desejo e premiando mais esse esforço genealógico e historiográfico do grande pesquisador.
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Conheci Sálvio Dino na década de 1970, mas as referências mútuas e a amizade consolidaram-se nos anos 1980 e, em especial, no início da década seguinte, quando, em 27 de abril de 1991, fundei a Academia Imperatrizense de Letras (AIL), para cuja constituição o convidei, junto com outros doze humanistas, totalizando catorze membros fundadores: Adalberto Franklin, dom Affonso Felippe Gregory, Edmilson Sanches, Eucário Rodrigues, José de Sousa Breves Filho, José Geraldo da Costa, Jucelino Pereira da Silva, Jurivê de Macedo, Lourenço Pereira de Sousa, Lourival de Jesus Serejo Sousa, Neneca Motta Mello, Sálvio Dino, Tasso Assunção e Vito Milesi. Logo após a fundação, ainda em 1991, trouxe até Imperatriz os escritores Jomar Moraes e José Chagas, da Academia Maranhense de Letras. Sabendo que Sálvio tinha em São Luís interlocução com aqueles acadêmicos, convidei-o para a mesa diretora dos trabalhos, nós quatro, no concorrido evento realizado no auditório da Associação Médica de Imperatriz.
Tempos depois, após retornar de longos anos de estudo e trabalho em Fortaleza (CE), Brasília (DF) e São Paulo, eu voltei a me encontrar com Sálvio com mais frequência, sobretudo nas reuniões das tardes e noites das quintas-feiras na AIL. Um ano desses, um dia qualquer, antes do início da reunião, Sálvio diz-me que seu filho estava na Praça da Cultura (em frente à Academia) e ele, Sálvio, convidava-me para tirar uma foto com ele e o filho, antes de a reunião começar. Lembro-me de que perguntei: “ --- Qual filho, Sálvio?”. Ele respondeu-me: “O Flávio”. Fomos à praça e Sálvio, Flávio Dino e eu posamos para as lentes de um fotógrafo que ali já estava. Flávio, brincando, disse: “ --- Essa foto é o futuro do Maranhão”. Talvez falasse por ele...
Sálvio manifestava espontânea e publicamente seu apreço pelas coisas que eu falava e escrevia e pelo ativismo cultural que eu desenvolvia, estimulando e/ou auxiliando na criação de entidades culturais, sociocomunitárias, sindicais, profissionais, desde academias de letras em São João do Sóter ou em Buriticupu, em Santa Inês ou João Lisboa, Aldeias Altas ou Açailândia, a associações de quebradeiras de coco no povoado Açaizal Grande, em Senador La Rocque, ou de produtores rurais no Olho d’Água do Tucum, no Tocantins, ou sindicato de bancários e de contabilistas, além de diversas associações de moradores em Imperatriz.
Por causa desse ativismo, certamente, Sálvio Dino me pediu para criarmos uma Federação das Academias de Letras do Maranhão. Fiz a pesquisa das entidades acadêmicas e assemelhadas existentes no Maranhão, elaborei uma minuta de estatuto, fiz um apanhado de documentos impressos sobre a existência de entidades federativas do gênero pelo País e passei tudo para o grande tribuno. Dito e feito: a Federação foi criada. Uma vez, em sua casa em João Lisboa, ele disse que seria realizado um congresso das academias de letras e que o evento se daria em Caxias, “em homenagem a Edmilson Sanches e sua contribuição para a Federação e para a criação de academias no Estado”. É claro, agradeci também bem-humorado. O congresso até que foi pensado, mas não se realizou.
Sálvio aqui e acolá telefonava e pedia para eu ir até o vizinho município -- ele cuidava de pedir ao Nonato, motorista dele, para vir me buscar. Lá, na residência dele, conversávamos, eu levava livros para ele e ele ofertava livros para mim. Há uns quatro anos, mais ou menos, ele queria saber sobre um estudo meu, já concluído, acerca da autoria do livro “O Sertão”, atribuída a Carlota Carvalho. Essa autoria já foi tema de bons debates na Academia Imperatrizense. Sálvio estava particularmente interessado por algumas informações inéditas nos trabalhos sobre Parsondas de Carvalho, as quais localizei em obras em francês e em português -- os dois volumes da raríssima obra “Le Brésil: Excursion a Travers ses 20 Provinces”, de Alfred Marc, publicada em Paris, no século 19 (1890), e o livro “Alcântara: Subsídios Para a História da Cidade”, do maranhense Antônio Lopes, publicado pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1957. Tenho todas essas obras.
Por várias vezes fui surpreendido pelo Sálvio em cena pública com manifestações espontâneas de elogio e reconhecimento -- como na noite de 6 de julho de 2019, no seu discurso na concorridíssima solenidade de inauguração da nova sede própria da Academia Grajauense de Letras e Artes, que ele presidia. Disse Sálvio, “ipis litteris”: “ --- Eu quero saudar e cumprimentar a plateia por uma das figuras mais brilhantes e eloquentes da Cultura do Maranhão, Edmilson Sanches, que aqui está para abrilhantar e engrandecer a nossa festa. Seja bem-vindo, meu confrade!”
No final de 2019 Sálvio soube de um projeto meu -- a “Enciclopédia Maranhense” -- e novamente convidou-me para conversar lá em João Lisboa. Pediu-me que lhe levasse uma cópia -- levei mais de uma... Ficou absolutamente extasiado com as centenas de nomes de maranhenses que tanto fizeram pelo Brasil em todas as áreas do Conhecimento (Agricultura, Artes, Ciências, Cinema, Cultura, Economia, Indústria, Medicina & Saúde, Música, Política & Administração Pública etc.). Nomes que o Maranhão ou não conhece ou, adequadamente, não reconhece. Ou os dois. Pessoalmente ou por telefone Sálvio antecipava que até o final do ano 2020 iria me pôr frente a frente com quem pudesse se apaixonar por aquele projeto, e financiá-lo.
Leia a parte 03: https://www.facetubes.com.br/galeria/395/efemerides-salvio-de-jesus-de-castro-e-costa-salvio-dino-por-edmilson-sanches-parte-03
Foto abaixo: Sálvio Dino, dom Affonso Felippe Gregory e Edmilson Sanches em solenidade da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) na Associação Médica de Imperatriz.

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