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WANDA CUNHA em VICEVERSA, parte 03

12/06/2023 às 08h14
Por: Mhario Lincoln
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Perguntas de Mhario Lincoln: 

(Pergunta 03)

Fotos pessoais.

 

Wanda Cunha.

3 MHARIO LINCOLN - Você foi diretora artística e cronista do "Jornal Posição", até 1985. Antes, em 1983, você publicou o belo livro "Engraxam-se Sorrisos", de crônicas. Antes, ainda, em 1981, "Uma cédula de amor no meu salário", de poesias. Aliás, muito antes disso, você ganhou um prêmio sobre a "Vida e Obra de Coelho Neto", da Academia Maranhense de Letras, em 1978. Esses acontecimentos delinearam sua lírica?

WANDA DA CUNHA - Eu gosto de uma frase de Fernando Pessoa que reitero sempre: “O que fui e o que sou são sonhos diferentes.” Quiçá, uma réplica de Heráclito, o filósofo das transformações, nascida dos opostos quando ele dizia que o homem nunca banha duas vezes no mesmo rio, porque diferente é o rio e diferente é o homem. Na verdade, gosto da transitoriedade das borboletas. E a minha lírica perpassa por essas mutações.  "Uma Cédula de amor no meu salário" foi a reunião de toda a minha poesia adolescente. "Engraxam-se sorrisos" foram as crônicas da Wanda Cristina inaugurando no jornalismo, principalmente no "Jornal Posição". Antes de adentrar as crônicas propriamente ditas, deixo no livro esta “Nota de Falecimento”: “Acaba de ser transportado para o Instituto Médico Legal do novo Governo o corpo da Democracia brasileira. Segundo as previsões médicas, dona Democracia foi acometida de um derrame cerebral no último dia 15 de novembro, sendo atendida às pressas por uma junta de eleitores que nada pôde fazer. O corpo será velado na catedral dos inconformados, devendo sair o féretro no próximo dia 15 de março para o cemiterio dos gaviões. Para quem gosta de rimas é só anotar: do país democrátco, restou o povo decepcionático. Vamos chorar, gente! Queira-se ou não, dona Democracia foi a mulher mais bem paga desta país”.

"Rede de Arame",  por seu turno, sinonimiza o amadurecimento estético; é o exercício da professora de Literatura e Língua Portuguesa, trabalhando a poesia em seus mais diversos seguimentos estilísticos, pontuando características de escolas literárias em cada verso, a exemplo de Alexamego, de caráter simbolista, um soneto dotado de aliterações e musicalidade. Nesse livro, exsudo minha segunda fase poética, ora simbolista, ora parnasiana e ora moderna. “Fecundação”, por exemplo, traz neologismos e denúncia ao regime militar por que passava o país (“Meu óvulo marcou um encontro/com um espermatozoide, às quatro horas da tarde,/na esquina das minhas trompas.../....Nove meses de espera/dentro de um regime maternático./Agora, numa dilatação de angústia, estou morrendo de dor:/ meu filho vai conhecer o regime do País”). Em “Geofagia ruminante no sótão da preamar”, de título barroco (hoje eu não colocaria esse título na obra), eu adentro a poesia de aparência cordelística pra fazer uma declaração de amor ao Maranhão, cantando as belezas de minha terra natal, suas histórias, topografia, culinária, linguística e política social. Em “Flor de Marias no Buque de Costelas”,  eu crio a antologia das marias de Wanda Cunha, dentre de uma abordagem de gênero significativa, que passou a ser um traço de minha poética no decurso do tempo, como se pode observar em poemas como “Questionamentos” . Em “Viagem às ruas de São Luís”, projeto aprovado no Edital Universal da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, com a coedição da Editora Azulejo, crio uma conexão entre o literário, o teatral, o histórico, o sociológico, o educacional e o artístico.

 

O livro PAREDE TEM OUVIDO é um conto infantil, cheio de humor, que fora classificado no Concurso de Escribas, promovido pelo Município de Piracicaba, em 1993. Nele, conto a história da menina Maria Antônia muito levada, mas cheia de graça. Já o livro “No semblante do cotidiano: risos de marés e lágrimas de um sol-posto” traz o prefácio da pesquisadora Dilercy Adler e orelha do jornalista Gil Maranhão; é um livro de crônicas dividido em três partes: a primeira: crônicas satíricas, nas quais a escritora denuncia os problemas políticos e sociais por que passa o país; na segunda parte, “graciosas”, Wanda Cunha tematiza o cotidiano da cidade dentro de um estilo humorado e cheio de graça; na terceira parte, eu trabalho o lirismo, com um olhar poético sobre a alma humana.

 

Meu último livro “Eu sou Wanda Cunha: entre o verbo e o verso”, editado pela Baronesa do Rio de Janeiro, traz uma poesia contemporânea; por vezes, minimalista, escrita em versos brancos e livres, como “Última morte”: Não tive tempo pra ressuscitar. /A fênix chegou antes e roubou minhas cinzas. No último livro, também trago poemas que nunca foram publicados em minha obra solo, com os quais ganhei concursos literários nacionais, a exemplo de PESCA(DOR), primeiro lugar no Concurso de Novos Poetas Nacionais de 2017:

 

A alma do mar é amarga do sal do sol.

E bate no cais como quem cai em lágrimas.

Abarca o barco com um abraço de louco

E balbucia o beijo da brisa quando se recolhe.

 

A Alma do mar é marcada pela calma dos anjos,

Quando o vento vadio é quebrado pela vela.

Mar misterioso no mistério de mim

A permitir a pororoca dos apuros perdidos.

 

Um rio e um mar, um riso amargo,

Misturando ondas e correntezas,

Certezas de ida e vindas em busca do porto.

Nada de Porto. Nada a alma. Naufrágio.

 

 

Porta aberta para a morte,

Se a sorte não se manifesta.

Festa de peixes, cardumes, queixumes,

Tudo na mesma rede.

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Para ler a última parte, siga o link: https://www.facetubes.com.br/galeria/398/viceversa-com-wanda-cunha-parte-04

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