A Morte do meu Cão.
*Paulo Barros
O "Neguin" morreu agora, dia de finados. Estou esperando o carro do crematório, que está para chegar, nesta pior madrugada de minha vida. A dor que sinto supera o amor que um dia pensei que possuísse. Ele foi o único amor "sublime" que senti em minha vida. Eu e ele, parece, já nascemos com uma só alma. Nada a ver com almas gêmeas, digo, na verdade, uma alma só.
Somente nós dois sabemos os fundos de poço que encaramos juntos, somente nós dois sabemos as reviravoltas que esfregamos na cara das adversidades, somente nós dois sabemos o quanto choramos e rimos juntos, o quanto corremos juntos nas praças dessa Curitiba velha, em todas elas, inclusive em dias de chuva e trovoadas. Por exemplo, um dia, numa praça, uma "madame" me perguntou porque que ele não usava coleira, e, de pronto, respondi: - Porque ele é meu amigo e não seu cachorro.".
Ele estava muito debilitado, comia e bebia do que eu punha na boquinha dele, com a barriguinha raspada, após sucessivos internamentos, mas, mesmo assim, quando suas duas netinhas o descobriam, chorava feito um bebê, com o fim de que eu o viesse recobrir. Sempre fomos assim, eu e ele, unha e carne. Agora foram-se as unhas, e, no coração, só, restou a carne viva, sangrando. Registro, neste dia de finados, o dia mais baixo e triste de minha vida.
Poeta Paulo Barros,
hoje, mudo, sem qualquer verso que se pudesse compor ou recompor.

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