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Cultura VICEVERSA

VICEVERSA do Facetubes. Entrevista Exclusiva: José Neres/Mhario Lincoln/José Neres

José Neres, é membro da Academia Maranhense de Letras

27/02/2021 13h17 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
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VICEVERSA: Mhario Lincoln para José Neres, da Academia Maranhense de Letras:

 

MARIO LINCOLN (1) – Você sucedeu a Ubiratan Teixeira, na Academia Maranhense de Letras. Quais os legados deixados por ele, enquanto intelectual, cronista e homem de teatro?

JOSÉ NERES: Ubiratan foi uma pessoa incrível e um intelectual de primeira linha. Além de ficcionista, foi também cronista, crítico e teatrólogo. Era dono de uma linguagem que mesclava o erudito e o popular e estava sempre atento às mudanças comportamentais e artísticas. Qualquer pessoa que se disponha a ler seus inúmeros textos (crônicas, novelas, romances, etc.) se deparará com um esboço bastante interessante e até realístico das diversas épocas pelas quais ele passou. 

Além disso, Ubiratan Teixeira deixou para as novas gerações diversas lições de escrita e de estilo. Foi um escritor seguro bastante crítico, que sabia onde colocar cada palavra e traçar perfis tanto de suas personagens fictícias quanto das pessoas com as quais convivia e acabava homenageando em seus textos.

Depois da partida de Ubiratan, a crítica teatral no Maranhão perdeu bastante de seu vigor, pois ele, sempre que podia, estava presente aos espetáculos e não se furtava a deixar suas opiniões em sua coluna semanal no jornal. Suas palavras fazem falta.

 

MHL (2) – O seu discurso de posse na AML é aberto com uma citação belíssima do teatrólogo e pensador espanhol Pedro Calderón de la Barca. Ele diz: "A vida é um sonho e os sonhos são sonhos, os sonhos são", em tradução livre.  Já Fernando Pessoa, ratifica: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Porém, em outro momento poético, diz ainda Pessoa: “(...) porque sonhar é esquecer (...)”. No caso específico de Pessoa, quais dessas duas opções se encaixaria, realmente, no momento único da posse na AML?

JN - Os sonhos fazem parte da vida de todos nós. É praticamente impossível seguir vivendo sem ter alguns objetivos a serem realizados. Mas também há casos em que as realizações acabam sendo aceleradas pelos acontecimentos que fogem ao nosso controle. Jamais, nos meus tempos de adolescente e começo da vida adulta, eu imaginaria um dia fazer parte da Academia Maranhense de Letras, uma instituição secular que reúne alguns dos mais notáveis nomes da intelectualidade da minha terra natal. Porém a maturidade vai aproximando-se e alguns sonhos, às vezes nem sonhados, começam a transformar-se em realidade. Foi o caso da AML, para onde fui eleito em 2014, da Sobrames, onde ingressei em 2015, e da Academia Ludovicense de Letras, para onde fui eleito no final de 2020. São três casas da mais alta esfera cultural e que ajudam nossos sonhos a se tornarem uma realidade.

No momento da posse, mais que nunca, vida e sonhos se misturam. O evento tem data e hora marcadas para iniciar e terminar, mas recordações acompanham nossos passos por toda a vida. E depois, quando não estivermos mais nestas searas terrenas, aquilo que para nós pode ser visto como concretização de sonhos, pode transforma-se em recordações ou fonte de pesquisa para os que ainda virão. O importante, em muitos casos, é, na hora da partida, saber que deixamos algo de bom, mesmo que sejam apenas alguns rastros de sonhos.

 

MHL (3) – Uma catarse? “Estar aqui hoje, senhores e senhoras, ingressando na Casa de Antônio Lobo, na mais alta esfera da intelectualidade de meu Estado, parece também ser um ato de transgressão daquele garoto que pouco aproveitou dos carinhos dos pais biológicos”. (Discurso de Posse na AML).

JN - Sempre acreditei que o maior ato de rebeldia e de transgressão social, pelo menos para mim veio de família sem tradição pecuniária, era estudar, estudar e estudar. Em uma sociedade que parece querer que todos fiquem alienados e consumam ideias empacotada a vácuo e em série. Não fui criado pelos pais biológicos, mas isso fez com que eu tivesse a honra de ter dois pais e duas mães. E, nesse mundo onde tantas pessoas reclamam da ausência da família, eu me considero um privilegiado por ser agraciado em ter esse núcleo duplicado. Todos os dias leio, escrevo, questiono e transgrido algumas ideias solidificadas. Tudo isso graças aos esforções de meus pais e de minhas mães, que me deram oportunidade de estudar e de tentar ver o mundo por outros ângulos.

 

José Neres.

MHL (3) –Dentre vários textos icônicos, você escreveu um que me chamou bastante a atenção: “O INCÔMODO SILÊNCIO”.  Em que momento, sob que situação, o silêncio realmente incomoda?

JN - Algumas coisas me incomodam. Uma delas é o silêncio em torno dos esforços de quem produz arte (em todas as vertentes) e que quase sempre caem no esquecimento. Nossos poetas, contistas, compositores, escultores, atores, pesquisadores e tantos outros abnegados profissionais investem tempo, dinheiro e até sonhos na tentativa de fazer com que uma imensa máquina cultural não pare. E o resultado? Quase sempre o silêncio... Esse tipo de silêncio incomoda e ao mesmo tempo desestimula. Já vi muitas pessoas talentosas desistirem de produzir ou divulgar seus trabalhos artísticos pela falta de um apoio, que pode vir de diversas formas. Muitos acreditam que os elogios ou comentários são apenas um modo de inflar o ego de alguém. Mas não é bem assim. Essas palavras, comentários, aplausos e afagos podem servir de incentivo para que o artista se sinta motivado a continuar no caminho escolhido. Esse é o tipo de silêncio que incomoda e do qual falo no artigo.

 

MHL (4) – Na poesia “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes, há aquela frase que incomodou durante muito tempo, sobre a beleza da mulher. Diz ele: “As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental”. Você escreveu algo sobre isso. Qual seria a sua opinião hoje?

JN - Vinícius é um dos poetas que fazem parte de minha formação. Um dia, próximo às comemorações do Dia Internacional das Mulheres, essa frase viniciana me veio à cabeça e escrevi o artigo intitulado “Mulher moderna deseja”, no qual descontruo um pouco esse olhar apenas para os aspectos físicos, deixando claro que as mulheres do mundo contemporâneo têm outras necessidades que vão além da estética. Querem também compreensão, companheirismo, justiça social, igualdade de condições, sucesso profissional e muitos outros detalhes que antigamente passavam despercebidos. Depois escrevi um outro artigo cujo título é “Uma nova receita de mulher”, no qual retomo a ideia de que a admiração pelas mulheres deve ir além dos aspectos físicos. Nesse segundo artigo, a referência aos versos de Vinícius é bem mais clara que no primeiro, mas ambos podem servir para uma reflexão sobre essa temática tão importante.

 

MHL (5) – Quando os poetas recebem o primeiro insight para a elaboração de um novo trabalho intelectual sobre o amor, será que as frustações amorosas interferirão no conteúdo ou não chegam a ultrapassar a ‘linha tênue’, entre o bem e o mal? Friedrich Nietzsche, por sua vez, afirmava: “(...) Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”. Será mesmo?

JN - Friedrich Nietzsche foi um pensador impressionante. Suas obras suscitam muitas discussões e jogam dúvidas e mais dúvidas nos curiosos e até mesmo nos estudiosos de sua obra. Um dos pontos bons de seu pensamento é que ele não utiliza ideias fechadas e incontestes. O mundo é constituído em pares contrastivos: certo, errado; bem, mal; alegria, tristeza. Porém, nesses nossos tempos hipermodernos, as complexidades nos mostram que entre o certo e o errado, o branco e o preto, o bem e o mal... existe uma infinidade de matizes... Os escritores de hoje estão mais atentos a isso e sabem que entre o bem o mal há também muito mais mistérios do que julga nossa vã filosofia. E, como não é sempre só o poeta que é um fingidor. É sempre bom estar atento às armadilhas dos textos. Assim como frustração nem sempre é frustração, o amor também pode ser interpretado de modos diversos.

MHL (6) - CARL JUNG: “Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade”. Na sua opinião isso ‘é uma verdade’?

Quando fui aluno do professor Audemaro Taranto Goulart, estudei Freud, Lacan, Jung e Melanie Klein, entre outros teóricos da Psicanálise. Quando se tem contato com esses pensadores, começa-se a ver o mundo com outros olhares e a questionar inclusive se a chamada verdade é uma ou se multiplica e se bifurca de acordo com momentos e situações. O que é verdade hoje pode não ser amanhã e o erro do agora pode depois ser revisto e classificado como um passo rumo a uma nova verdade. O interessante é notar que as verdades quase sempre se escondem nas frestas de nossas distrações e vacilos. Todavia, mais complicado que tudo isso é perceber que há quem espere os erros alheios para construir suas próprias verdades.

MHL (7) - “A imortalidade não é patrimônio dos acadêmicos, mas da Academia”, diz Otto Lara Rezende. Da mesma forma como indaguei seu confrade Alex Brasil, qual sua opinião sobre a frase acima?

JN - Ironicamente, no mundo acadêmico, a chamada imortalidade de um começa exatamente com a notícia da morte de outro. As academias têm um papel importante na preservação e na divulgação da memória de nossas artes. Porém há inúmeros casos em que o nome do artista é tão forte que ele pode viver seguramente sem o status de acadêmico, pois o que o faz ou o fez imortal foram suas obras, seu talento e suas atitudes. Há casos também de membros de academias que assim que falecem entram no terreno do esquecimento até entre seus pares. Acredito que essa tal de imortalidade nem sempre se torna equivalente a ser lembrado ou a alcançar a popularidade. As instituições, então, tornam-se essenciais para a preservação dessa memória que muitas vezes não é compartilhada com todos.

 

MHL (8) – “Negra Rosa” um canto poético indiscutível, composto de oito estrofes, narra a lenda envolvendo a profecia da negra virgem, predestinada a matar o touro negro com uma estrela na testa, o Rei D. Sebastião encantado. Uma vez morto o touro, o povo será libertado. Nesse belo conteúdo, dois versos me chamaram a atenção: “Libertar escravo/ É matar patrão (...)”. Muito forte. Então, essa é a realidade ainda hoje ou apenas um soslaio de ficção?

JN - Negra Rosa é um dos textos de que mais gosto. Nela faço uma mistura de experiências poéticas e tomo a liberdade de misturar o mito do Sebastianismo com um dos mais importantes momentos da história do Brasil – a libertação dos escravos. O livro como um todo é carregado de críticas sociais. Essa passagem citada - “Libertar escravo/ É matar patrão (...)”, embora esteja em um contexto aparentemente lírico, remete também à exploração do homem pelo homem. Esses contrastes sociais são cruéis e, infelizmente, atemporais. O pobre, mais que força de trabalho e massa de manipulação ideológica, é utilizado também como forma de omitir o fato de que o verdadeiro poder emana dos trabalhadores, como pode ser visto no poema Operário em construção, de Vinícius de Moraes. Dessa forma, se um dia esse fosso social acabar, haverá o desaparecimento dessas pessoas que se julgam donas não apenas dos modos de produção, mas também do poder de narrar os fatos de acordo com seus interesses e desejos.

 

MHL (9) – Você é natural de São José de Ribamar (17 de fevereiro de 1970), uma das cidades mais religiosas da Ilha de São Luís. Você incorporou, em algum momento, essa influência de Ribamar ao seu trabalho intelectual? Ou literatura e religiosidade são divergentes sob o ponto de vista de tornar público as crenças pessoais e intransferíveis do autor?

JN - Infelizmente não tive a honra de passar a infância em São José de Ribamar, cidade cujo santo levo no nome e no coração. Mas como estudei em escolas que traziam tanto a matriz ideológica do catolicismo quanto a disciplina militar e depois tive que ler a Bíblia diversas vezes (tanto por gosto, quanto por obrigações acadêmicas), algumas características religiosas aparecem em meus trabalhos, como é bem visível em “A Mulher de Potifar” e “Deus e o Diabo na Terra sem Lei”, em alguns contos e vários poemas. Minhas influências, contudo, são mais pautadas pelas variadas leituras do campo literário.

MHL (10) – Você e sua esposa Linda Barros são professores. Isso o faz ter opiniões pessoais sobre a educação, acredito. Então, cabe aqui perguntar: há muitos anos, o arcabouço teórico do ensino da educação individual tem se formado na sistemática do Estado, como único conhecedor das necessidades empíricas do aluno, enquanto cidadão. Todavia, eu acredito que as condições necessárias à globalização do ensino deveriam incorporar temas socioculturais, políticos, econômicos e noções pertinentes ao ecossistema, no sentido de ampliar o aspecto orgânico do ensino didático fundamental. O que você tem a dizer? Concorda?

JN - No campo da Educação, há sempre dois atores (o aluno e o professor) que raramente são consultados quando alguns “educadores de gabinete”, que pouco conhecem da realidade da sala de aula, decidem tomar suas decisões. Porém os resultados, muitas vezes terríveis, dessas experimentações são divididos por todos. Há muito a ser questionado em nossa estrutura de ensino. Do jeito que está, parece que todas as engrenagens estão soltas e não se relacionam entre si. É preciso repensar nossa escola e pensar em uma educação que vá além de uma certificação comprobatória de um desconhecimento adquirido após anos e mais anos de sala de aula.

 

Mhario Lincoln.

VICEVERSA: de José Neres para o jornalista Mhario Lincoln

 

JOSÉ NERES (1) - Mhario, você é um jornalista bastante respeitado e que passou por diversas fases da evolução da comunicação de massa nas últimas décadas. Você acabou vivenciando o auge da transformação da informação física impressa em jornais e revistas para o mundo digital. Como foi esse processo de adaptação? Houve alguma dificuldade nessa transição?

MHARIO LINCOLN – Há um fator primordial nessa minha evolução. Antes do ‘boom’ digital, fui escolhido (enquanto acadêmico de Comunicação na UFMA), para um curso na Câmara Federal. Nessa época, começavam os primeiros ensaios de digitalizar a imprensa brasileira. Durante um mês acompanhei de perto toda a movimentação legal para a implantação definitiva da mudança. Eu tinha uma ótima experiência de oficina de jornal desde a linotipia até o offset. Montava minhas colunas e meus suplementos nos fotolitos, para gravar nas chapas e imprimir depois. Ao migrar da máquina de escrever para o teclado de computador não foi difícil, pois a maioria das redações onde trabalhei, evoluíram direto para o sistema “Plug and Play”, sem as complicações do MS-DOS (Disk Operating System). Desta forma acabei sendo um grande sortudo, desde o curso que fiz em Brasília, somando-se à tecnologia moderna do “P/and/P”. Aliás, vale aqui relembrar. Lá pela década de 70, ainda na linotipia ludovicense, eu e César Teixeira, esse artista maranhense aplaudido, publicamos a primeira revista moderna de São Luís. Chamava-se “Perspectiva”. E a matéria de capa era uma entrevista quentíssima com um criador de cobras, que montou barraca na praça João Lisboa e vendia ingressos para a gurizada medrosa ver os répteis. Como se vê, a imprensa e eu, eu e a imprensa nos tornamos um caso de vida e morte mesmo. Inafiançável, indivorciável, inexorável! (Risos).

 

JN (2) - Todos nós que gostamos da leitura e da literatura fomos de certa forma influenciados por escritores que marcaram nossa juventude e também a fase adulta. Quais foram as influências literárias que levaram você a seguir o caminho das letras e de alguma forma moldaram seu estilo?

MHL – Uma das influências mais fantásticas, para mim, vieram de três mestres do romance: Machado de Assis, Gabriel García Márquez e Miguel Cervantes. Fiquei encantado com a parte técnica da construção do romance. Passei a estudar as características conceituais através de críticas especializadas. E em sendo assim, meus dois romances, ainda no prelo, “O MARIA CELESTE” e “AMOR INCONFUNDÍVEL AMOR” (títulos provisórios), tem muito (em aspecto técnico de construção e roteiro) dessas obras. Acho que apesar do talento individual e quaisquer que sejam as histórias a serem contadas, se o escritor não tiver estudado questões básicas de roteiro, cenário, percepção de visualização física, individualidades redacionais e avaliação artística, dificilmente fará uma obra plena. Também estudei as características técnicas e únicas de “Os Pilares da Terra”, de Ken Follet e três obras maranhenses que são ícones de técnica e aprimoramento do sequenciamento lógico: “Os Tambores de São Luís”, à altura de Follet, por exemplo, de Josué Montello e “Saraminda”, de José Sarney; e outra, a de João Mendonça Ewerton, distribuída pela Amazon.com, “O Cortejo da Serpente Fantasma” (Portuguese/Edition). Uma obra de significância incomensurável quando se trata de enredo estratégico-histórico na área do Realismo Fantástico, chegando a esbarrar na construção esplendorosa de “Cem Anos de Solidão”. No caso específico de Sarney, se alguns leitores não souberam distinguir o romancista do político, fica bem difícil entender a obra.

 

JN (3) - Lendo seus poemas, é possível perceber que alguns temas como infância e morte se sobressaem em suas páginas. Como você, fora do âmbito da ficção e da poesia, se relaciona com a ideia de que a morte é nossa única certeza neste mundo de incertezas.

MHL – No meu caso específico, perdão meu amigo querido, não considero a morte o único caminho. Na minha percepção e pelo que tenho vivenciado ao longo de minha vida, sentindo, percebendo – até as vezes recebendo insights – a morte é um recomeço para muitos outros caminhos. E não o fim. Isso porque sou espiritualista. Apesar de ter tido uma formação rígida familiar, do lado de minha mãe, onde a maioria é evangélica (frequentei a igreja Presbiteriana por muitos anos), tal fato fortaleceu muito a minha fé em Deus, a minha obediência aos conceitos de Jesus, na Bíblia Sagrada. Tanto que ganhei forças para conhecer um pouco mais de outras concepções religiosas. Desta forma, nos últimos 10 anos venho estudando a Doutrina Espírita, além dos conceitos básicos do Budismo, essa doutrina espiritual e filosófica fantástica, com cerca de 500 milhões de adeptos, criada pelo indiano Siddhartha Gautama, também vem me ensinando bastante. Percebo claramente que em ambos os casos, os princípios são os mesmos. Fé. Respeito. Caridade e Leis que devem nortear o Bem. Na religião budista há uma crença mais forte de que possuímos uma alma eterna, que sempre irá renascer em outro corpo físico, até a iluminação completa. 

Quase a mesma essência é inserida no “Livro dos Espíritos”, codificado por Alan Kardec, onde encontramos a afirmação de que o espírito é imortal.  Muita gente se abstém de discutir a imortalidade da alma. E eu respeito cada um. Isso porque, conheço muitos irmãos não-reencarnacionistas, que guardam enorme respeito aos que acreditam nas sucessivas vidas do espírito, após a morte. Outras congregações cristãs, como o catolicismo ou protestantismo, em algumas variações, até admitem a imortalidade da alma, mas não concordam com a possibilidade do espírito vir a renascer em um novo corpo. Há conceitos mais concordantes: o Seicho-No-I, as religiões afro-brasileiras - Umbanda e o Candomblé. Mas qual será o fundamento dessa reencarnação? O livro “Evangelho Segundo o Espiritismo”, ensina ser uma forma natural do amadurecimento e do aprimoramento de nós, humanos, em busca de uma iluminação suprema, a fim de que, realmente, se possa atingir a ‘imagem e semelhança” tão pregada, fato que ajudará o espírito a atingir um patamar bem próximo à iluminação divina, sem dúvida. Sendo Deus, para os espiritas, uma Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas. A inteligência que criou tudo e todos. Deus é Sábio. Deus é Justo. Deus não erra. Deus é lógico. Deus não é vingativo. Com base nessas afirmações, então, quando morre alguém que amamos (desencarna, na linguagem espírita), não é o fim de tudo. Não! Como Deus não erra, a desencarnação dessa pessoa amada (no aspecto físico de carne e ossos), teve um propósito. Não foi injusto, nem antes da hora. Há quem afirme que libertar-se do corpo físico, “é a forma mais justa de reeditar a evolução da alma”. Mas fico com Brecht, esse incrível dramaturgo alemão: “Temam menos a morte e mais a vida insuficiente”.  Quanto à morte, tema recorrente em minhas poesias, acho que é influência poética adquirida ao longo de mais de 30 anos lendo todas as obras de Edgar Alan Poe e de vários outros brasileiros trágicos, como Claudio Manoel da Costa: “Na lembrança dos erros soluçando / a morte se me finge tão funesta (...)”. Francisca Julia, autora do livro Mármores, “Diante de um Jó, conservo o mesmo orgulho, e diante / de um morto, o melhor olhar e sobrecenho austero (...)”. E entre os muitos que tenho lido, ainda cito Junqueira Freire. Ele, para livrar-se de seus conflitos íntimos, ingressou na Ordem Beneditina, mas, dois anos depois, aumentaram suas angústias e martírios. Voltou para casa. A ordem perdeu um sacerdote, mas o Brasil ganhou um super poeta: “Arda de raiva contra mim a intriga, / morra de dor a inveja insaciável (...)”. Como se vê, a morte em minhas poesias são respingos do que li. Nada pessoal. Obrigado, Neres, por esta grande pergunta.

 

JN (4) - Você é considerado um dos grandes jornalistas do Maranhão. É dono de uma farta produção como colunista, vem se tornando uma referência na divulgação dos trabalhos de seus conterrâneos na internet e também vem investindo na produção poética. Quem veio primeiro, o Mhario Lincoln jornalista ou o Mhario Lincoln poeta?

MHL- Quem me levou ao jornalismo foi a poesia. No Liceu Maranhense, no primeiro ano do ginásio, numa reunião de alunos no auditório, alguém perguntou se tinha quem soubesse recitar alguma coisa. Levantei o dedo e falei a poesia de minha mãe, hoje, musicada pelo grande jazzista Aquiles Faneco: “(...) E pelo bem que me fez / eu adoro você. / E pelo mal que me fez / eu odeio você (...)”. Essa mesma letra ela levou para Maísa gravar, quando esteve no Rio. A partir daquela experiência passei a escrever poesias autorais. A primeira “Ah! São Luís”, um poema-protesto pelo descaso da cidade naquela época. Desta forma, quando fiz minha primeira crônica para o “Jornal Pequeno”, aos 14 anos, a convite do inesquecível Ribamar Bogéa, falava do “Sítio do Físico”. Bogéa então me chamou e disse que o que estava escrito era um texto poético e não jornalístico e me deu um prazo de 15 minutos para mudá-lo ou não seria impresso. Foi ótimo! Dessa forma, vi meu texto poético virar crônica, um outro estágio simplesmente maravilhoso em minha vida.

 

JN (5) - Por ser mais conhecido como jornalista e poeta, algumas pessoas desconhecem seus estudos também na área do Direito. Você pode apresentar para seus fãs e admiradores um pouco desse homem que também mergulha nas águas das leis?

MHL – Na verdade, minha passagem pela área do Direito foi apenas um ‘susto’. Para seguir uma tradição familiar, por parte de pai. E durante meus 10 anos em atividade, dei o melhor. Sempre procuro me dedicar ferozmente a tudo que faço. Nesses 10 anos fui aprovado em concurso público de Auditor Fiscal, depois passei um tempo na Assessoria Jurídica da Fazenda e nesse período produzi minhas duas obras impressas de Direito: “Acumulações Remuneradas de Cargos e Funções Públicas”, prefaciada pelo honroso desembargador Aluízio Ribeiro da Silva  e “Teoria e Prática do Inquérito Administrativo”, prefaciada pelo grande mestre, amigo e advogado Edomir Martins de Oliveira.  Durante esse período, escrevi inúmeros artigos técnicos, não só em jornais locais, como em outros jornais especializados espalhados pelo país. Antes, na década de 80, tive a honra de pertencer ao grupo fundador da Academia Maranhense de Letras Jurídicas. Pertenço à Cadeira 12, patroneada pelo meu tio Mario Santos.

 

JN (6) – Você está fora do Maranhão há 17 anos. Mesmo assim mantém contato com grande parte dos intelectuais e produtores culturais de sua terra. Como surgiu essa ideia de ser um divulgador/observador de trabalhos alheios, mesmo que, algumas vezes, isso exija o sacrifício de sua própria produção poética?

MHL: Divaldo Franco e Chico Xavier, representantes da Doutrina Espírita no Brasil, se conheceram. Divaldo, mais novinho, quis logo se oferecer para trabalhar com Chico. Então, esse, disse: “Melhor ficarmos separados. Se cada um em um local distinto fizer a sua parte, divulgaremos melhor a doutrina”. Assim fiz, numa analogia à arte, música e literatura do Maranhão. E você José Neres e sua família, também o fazem. Outros continuam a luta fora do Estado. Conheço maranhenses em Brasília, Paraná, São Paulo, Rio, Teresina, Vitória, os quais integram esta cadeia de informação poético-musical. Aqui em Curitiba pude ampliar meu trabalho profissional. Recebi apoio, consideração e respeito pelo que faço. Essa luta me proporcionou integrar uma das Academias de Letras mais antigas e cultuadas do Brasil, o Centro de Letras do Paraná. Tudo isso fortaleceu a produção e divulgação de grandes artistas de minha velha e tradicional São Luís. Acho que, através do meu trabalho e do grupo a ele ligado, ganhamos força e independência. Isso tem-me feito abraçar contundentemente o ‘nós’, ao invés do ‘eu’. Sinto-me deveras recompensado com isso.

 

JN (7) - Como você vê a produção literária brasileira hoje, em uma época em que os jovens preferem ler obras estrangeiras a mergulhar nas letras nacionais?

MHL: Não culpo os jovens. Nem ninguém por isso. O que há explicitamente é uma desvalorização da cultura oficial nos últimos anos. Vê-se um Brasil perdendo identidades, cujas bases ainda se sustentam em Machado de Assis, Drummond e cia. limitada. Será que ninguém mais produziu neste país? Sim! Aos milhares. Outro dia li em uma revista de economia que para cada metro quadrado do solo brasileiro, há 2 escritores/poetas buscando espaço. Entretanto, na mesma revista, “investir nesse nicho (novo escritor/poeta) é mais caro que importar escritores de outros países, já prontos e afamados”. Que absurdo! O brasileiro não tem espaço em razão das políticas públicas decadentes, desinteressadas e desregulamentadas. As leis de incentivo estão nas mãos de poucos. Então, sem ter acesso a essas produções regionais, os sobreviventes da literatura, para não ficarem no vácuo, usam o ópio estrangeiro altamente viciante, enquanto a ganância de alguns livreiros se diverte vendendo e muito, um conjunto de páginas que contam e recontam estórias estrangeiras que nada tem a ver com nossos anseios ou inquietudes. Mas que entorpecem nossos sentimentos carentes. Além do mais, as funções básicas da escola nacional também perderam o interesse, ocasionando dados estarrecedores: 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. A pesquisa é da “Retratos da Leitura”, com a população Média/Alta. Imagina! Na mesma pesquisa, uma bomba: o valor intelectual de cada país está sendo medido agora pela qualidade da educação literária nas escolas. Ou seja, sem a base escolar, não há como desdizer nossa realidade.

 

JN (8) - Aparentemente você é um leitor de obras filosóficas, como pode ser notado em seus textos. Quais são os três filósofos que mais influenciam seus textos poéticos?

MHL: Acho que Platão, Aristóteles, Sócrates, René Descartes, Friedrich Nietzsche e Immanuel Kant, não só influenciaram a mim, como um amante da filosofia/sociologia, como quase toda a Humanidade. Porém, em tempos hodiernos, procurei estudar, por exemplo, Jean Baudrillard, filósofo pós-estruturalista francês. Faleceu em 2007. Com ele, através de suas obras, aprendi um pouco de como analisar a mídia e tirar conclusões lógicas sobre a cultura contemporânea. Um desses livros (li apenas uma resenha e me apaixonei), é “Simulacros e Simulação”, do qual, as irmãs roteiristas Lilly e Lana Wachowski tiraram as principais ideias do filme “The Matrix”. Dedico-me também a estudar a doutrina espírita e, a meu ver, Alan Kardec é um filósofo excepcional, pois a doutrina compilada por ele é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica e como filosofia, compreende todas as consequências morais que nascem das relações com o mundo corporal. E por fim, estou procurando ler Márcia Tiburi, uma das mais importantes filósofas brasileiras da atualidade. Ideias novas, reflexões novas. Logo estarei aprendendo com sua obra As Mulheres e a Filosofia, lançado em 2002. Quando estudava Direito, li muito Marilena Chauí.

 

JN (9) - Atualmente, o que você está lendo? Pode recomendar dois autores essenciais para quem gosta de poesia moderna?

MHL: Na verdade, detesto lista de mais vendidos de ‘Veja’, ‘Folha’, etc. Geralmente são importados, cópias baratas das repetições americanas. Desde o começo do ano me dedico exclusivamente a estudar a poesia negra da África. Então, cito dois grandes exemplos: Chinua Achebe, nigeriano, cuja obra não é necessariamente poética, mas de imenso alcance mundial quando se refere ao olhar deprecioso da cultura ocidental com pertinência à civilização africana. Na poesia, ele escreveu “O Mundo se Despedaça”. É de 1958, contudo, está atualíssimo. Também leio Yrsa Daley-Ward, filha de mãe jamaicana e pai nigeriano. O best-seller dela é “Bone”, de 2014. No contexto de suas obras, ela sempre fala de sexualidade, ser mulher, depressão, autoconfiança e independência. Resgato aqui, algo bem interessante, à olhos vistos, do “Bone”, mas dificilmente comentado: (“O pastor faz vinte e quatro / referências ao inferno / no sermão na igreja e se esquece / de falar / sobre o amor. —Yrsa Daley-Ward”). Na mosca!

 

JN (10) - Se por acaso, um jovem que acha que tenha pendor para a poesia e para o jornalismo procurasse você para pedir conselhos sobre como ingressar, hoje, nesses dois universos que se completam, mas que às vezes também se repelem, o que você diria para esse jovem? Que conselhos daria para ele seguir essas duas carreiras?

MHL: Obrigado pela pergunta meu amigo. Porém, não sei se estou apto a dar conselhos. Tudo que aprendi foi com esforço pessoal. Para mim, o maior conselho foi a superação dos inúmeros problemas que tive de enfrentar e vencer em minha vida. A mim me parece que a experiência de terceiros para com outrem é dúbia por ser pessoal e intransferível. Acredito que a beleza não está no conselho. Mas na arte de ensinar e ampliar a percepção do todo específico. No meu caso, os ensinamentos foram válidos. Inclusive nesses dois belos poemas abaixo: 

‘Cântico Negro’, 

Do fantástico José Régio:

(“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui!” / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali…”).

O segundo é “Segue o teu destino”, de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa:

(“Segue o teu destino, / Rega as tuas plantas, / Ama as tuas rosas. / O resto é a sombra / De árvores alheias”).

Muito obrigado, Neres!

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