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"As Cores do Swing", (parte II), livro de Augusto Pellegrini. Apresentação do autor.

Pellegrini está publicando seu livro por capítulos semanais.

08/05/2021 09h22 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
New Orleans 1910
New Orleans 1910

AS CORES DO SWING

Livro de Augusto Pellegrini

APRESENTAÇÃO DO AUTOR

O swing é um tipo de jazz que dominou o espaço musical e artístico dos Estados Unidos desde a metade dos anos 1920 até o início dos anos 1950, e alterou a concepção de música orquestral dançante na América, em toda Europa e em outras partes do mundo. Ele é um jazz colorido, e as suas cores são produzidas pelos acordes musicais.

Tecnicamente, o termo "swing" tanto pode significar o balanço ou a ginga de uma música como um estilo específico de jazz.

Como balanço de uma música, o swing está presente em todos os tipos de jazz e também de outros gêneros musicais, desde o mambo até uma valsa de Strauss, e é o componente que nos estimula a acompanhar com o nosso corpo o ritmo imposto pelos intérpretes.

Pellegrini: intérprete de Jazz e Blues.

Como estilo de jazz, de acordo com a definição do crítico e escritor Carlos Calado, o swing é "uma espécie de impulso rítmico aliado a uma pulsação fluida que pode ser encontrado no desempenho dos bons músicos de jazz". Calado continua, dizendo que "o bom músico de jazz tem a capacidade de 'suingar' e produzir o efeito swing em diferentes contextos".

Outra voz define o swing como "um tipo de música derivado do jazz caracterizado por um tempo que vai de médio a rápido e por um ritmo sincopado, atrasando ou acelerando o fraseado de modo que seja produzido um intenso dinamismo".

O dicionário, frio e objetivo, informa que "swing é a maneira de executar a música de jazz que consiste numa distribuição típica dos acentos, o que dá à execução um balanceamento rítmico animado e flexível".

Recomenda-se ao leitor ouvir uma gravação de Benny Goodman ou Glenn Miller para transformar essas definições em som, e entender finalmente o que é o swing.

Para produzir o "efeito swing", o músico tem que incorporá-lo, pois ele não pode ser grafado pela escrita na pauta, como se faz com outros acidentes musicais, isto é, o swing não se aprende na escola.

O swing se fundamentou no compasso estrutural básico de 2 por 4, variando para um 4 por 4 onde há um peso equivalente para os quatro compassos (de onde provém o nome "four-beat jazz", como o swing também é conhecido), e deu condições ao arranjador para que ele utilizasse harmonicamente diversos instrumentos dentro da mesma passagem musical através de riffs (figuras melódicas fortemente ritmadas com ideias curtas e repetidas) e contracantos (perguntas e respostas musicais superpostas), onde os naipes instrumentais funcionam como sons vocalizados.

É como um estilo de jazz que o swing será retratado neste livro.

Esta é a história de um símbolo americano, que representa a manifestação mais alegre e descontraída do jazz. É também a história que mais e melhor abriga o sentimento musical cultivado pelo povo norte-americano durante as décadas que marcaram a construção dos Estados Unidos como um dos líderes do planeta.

A importância do swing não deve ser medida apenas em termos musicais, pois o seu advento teve implicações socioeconômicas e culturais profundas, funcionando como um marco histórico e uma força motriz que integrou diversos pontos geográficos do país e movimentou diversas partes da sociedade americana.

Foto google.

O swing nasceu da necessidade da modernização dos arranjos das grandes orquestras – com a utilização racional de diversos instrumentos musicais – e da inclusão de diferentes elementos jazzísticos na música orquestral, e foi causa e consequência diretas da miscigenação racial presente na música norte-americana a partir da segunda década do século vinte.

Antes da chegada do swing, a música tocada nos Estados Unidos era fragmentada. Boa parte da América cultuava uma variante tipicamente negra, nascida no Sul e fortemente impregnada pela alma do escravo liberto. Outra parte vivenciava uma música originalmente branca e culturalmente europeia, espalhada por outros pontos do país – especialmente no norte e nordeste – e influenciada pelas orquestras de concerto. As grandes regiões do centro-oeste cultivavam uma música brejeira chamada western country, originária da Irlanda, que servia de referência aos vaqueiros e à sua cultura campestre desde o século dezoito.

Com o swing a música americana se democratizou, e todos, brancos e negros, ricos e pobres, jovens e adultos, homens e mulheres, começaram a falar – e a dançar – a mesma língua.

O swing nasceu em Nova York, tendo como inspiração a música de jazz, e tendo como raízes a música que era tocada na Chicago de então. Ele também nasceu da necessidade de se mesclar a arte da música orquestrada com a diversão popular da dança.

Este livro procura contar a história do swing de uma forma simples e didática, e para tanto utiliza três componentes centrais – a ficção, a realidade e a história. O livro também fornece ao leitor, na sua parte final, uma boa dose de informação adicional.

A ficção mostra aspectos e personagens pitorescos e situações que não necessariamente aconteceram, mas que poderiam ter perfeitamente acontecido. Aqui, o leitor encontrará diálogos que provavelmente foram travados em algum lugar, fatos que se confundem com a realidade e pessoas que participaram anonimamente da trama sem alterar o rumo da verdade, tudo fazendo parte do imaginário do autor.

A realidade mostra o que há de factual por detrás da origem, do nascimento e do crescimento do swing como a música americana de maior abrangência no mundo durante mais de trinta anos. Ela resgata os nomes daqueles que participaram desta incrível aventura, os locais onde a música mudou o curso da história e as ramificações e consequências que marcaram a existência e a importância do estilo.

A história age como um todo, e procura situar o mundo num tempo-espaço paralelo ao advento, apogeu e declínio do swing, mostrando fatos de natureza política, econômica, social, intelectual, cultural e científica que fizeram parte da primeira metade do século vinte, especialmente nos Estados Unidos.

Já as informações adicionais entram como um apêndice que busca satisfazer a curiosidade do leitor a respeito de diversos personagens e lugares mencionados ao longo da narrativa e facilitar uma eventual pesquisa.

O livro foi concluído em dezembro de 2011, mas teve sua revisão final feita em janeiro de 2019. A história de muitos dos artistas que com a sua arte ajudaram a escrever estas páginas também se encerrou nesta data, mas alguns destes personagens históricos ainda estavam vivos quando da última revisão.

Finalmente, nunca é demais lembrar que este livro também visa desmistificar o pensamento preconceituoso ainda mantido por alguns jazzófilos exageradamente puristas, que acusam o swing de ser uma música meramente comercial (e que, portanto, não deveria ser confundido com o "verdadeiro" jazz, esta sim, na visão dessas pessoas, uma música pura e intelectualizada).

As Cores do Swing pretende demonstrar, até com informações prestadas pelos próprios jazzistas, que o swing não é um estilo fechado em si mesmo, nem apenas mais uma variante do jazz, mas a ponte que une o jazz tradicional ao jazz moderno, pavimentando com brilho e cores a história e o roteiro deste rico estilo musical.

Uma das perguntas mais frequentes que me são feitas, seja em entrevistas formais, seja atendendo solicitações para releases, ou seja, ainda durante conversas descompromissadas, é uma variante de "como foi que você começou a se interessar pelo jazz?". Talvez esta seja também uma curiosidade do leitor.

Concepção artística da capa.

Antes de responder, cabe aqui mencionar a citação de alguns doutores na matéria, o que tornará mais claro o meu sentimento com relação a isso.

O trompetista Louis Armstrong disse uma vez "se você precisa perguntar o que é jazz, você jamais irá realmente saber". O pianista Thomas "Fats" Waller declarou que "o jazz não é o que você toca, mas a maneira como você toca". O bandleader Glenn Miller vai exatamente ao encontro do que eu penso quando diz que "o jazz é alguma coisa que você tem que sentir". E o pianista, escritor e pesquisador Caio Vono afirma com muita propriedade que "jazz é uma música que vem do coração".

Talvez estas citações expliquem as razões de eu ter gostado de jazz antes até de me interessar por música.

Cada vez que eu ouvia aquele som fantástico eu descobria coisas novas, sutilezas, belezas escondidas, e pressentia que por trás daquilo tudo devia existir muitas outras coisas a serem percebidas.

Porque o jazz é isso, cada dia uma nova descoberta. É uma satisfação que não se sacia, por isso vivemos eternamente insatisfeitos à procura de mais jazz, pois somos sabedores de que sempre que ouvirmos qualquer tipo de jazz novas sensações irão aflorar na nossa alma.

Adaptando a palavra destes músicos e especialistas, posso dizer que eu soube o que era jazz sem jamais ter perguntado. É o que acontece com a maioria das pessoas que apreciam o jazz, mesmo sem compreender as nuances técnicas ou conhecer os detalhes históricos que fizeram florescer o estilo.

O jazz surgiu para mim como uma agradável surpresa sonora que contrariava o som musical de todas as canções que eu havia ouvido até então. E surgiu logo no início, na forma de swing.

Lembro-me do efeito cheio de cores provocado pelos naipes de sopro vocalizado e dos riffs que as grandes orquestras produziam (sempre vi o swing bastante colorido, ao contrário do branco-e-preto do jazz tradicional e daquela cor lusco-fusco do bebop, sempre cheio de fumaça).

Eu não sabia o significado de sons harmônicos, acordes, beat e coisa e tal, mas entendia perfeitamente a diferença que tudo isso fazia quando comparado com os sons de uma música convencional.

Intuitivamente, percebi que uma harmonia ajudada por quintas e sétimas na linha melódica – esta filigrana eu vim, é claro, saber depois – soava como algo divino. Nunca precisei perguntar o que era aquilo que tanto me emocionava quando tocado naqueles discos de 78 rotações do acervo de parentes e depois na minha própria casa – o swing de Benny Goodman, Harry James, Artie Shaw, Glenn Miller e Tommy Dorsey.

Além do swing eu também ouvia o dixieland de Humphrey Littleton e Louis Armstrong – está certo que mesclado pelos boleros com Gregório Barrios, chorinhos com Jacob do Bandolim, o swing brasileiro da Orquestra Tabajara, a música caribenha de Xavier Cugat, as canções dó de peito com Francisco Alves e algumas valsas vienenses.

Mais tarde conheci Dizzy Gillespie, Charlie Parker e a turma do bebop, e me encantei com os conjuntos vocais, brasileiros e americanos – Os Cariocas, The Hi-Lo's – cujos arranjos à base de acordes me ensinavam novos caminhos musicais.

Esta afinidade com o jazz, principalmente aquele que vai do princípio de tudo até os anos 1980, foi uma parte decisiva da minha vida, levando-me a partilhar prazer e conhecimento com outros iluminados da minha tribo. Em 1982 veio a produção e apresentação de um programa radiofônico na Rádio Mirante FM – o Mirante Jazz – e em 2004 veio outro, na Rádio Universidade FM – Sexta Jazz – ambos em São Luís-MA. São quase 40 anos ininterruptos de jazz em emissoras de rádio celebrados por ocasião da finalização deste livro.

O interesse pelo jazz e a inevitável pesquisa fizeram surgir o meu primeiro livro sobre a matéria, chamado Jazz – Das Raízes ao Pós-Bop, lançado em 2004 pela Editora Códex, cuja edição deve estar presentemente esgotada, embora exemplares possam ser encontrados nas "livrarias sebo". Dada a procura, já o estou revendo e atualizando para uma eventual segunda edição.

Este segundo livro sobre jazz – e seguramente não o último – é um convite para o jazzófilo e o jazzista empreenderem uma viagem saudável ao passado, em especial para o que aconteceu musicalmente na Era do Swing, com suas orquestras, seus salões mágicos e suas estrelas.

De posse das informações compiladas na última parte deste livro – "Capítulo 22 – Resumo da Discografia" – o leitor poderá encontrar em muitos dos sites citados, no Google e no Youtube as necessárias informações sonoras, baixando músicas para um completo conhecimento do drive, do punch e do estilo de cada orquestra ou músico mencionado.

Boa viagem!

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