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Cultura Convidados

Textos escolhidos: "Somos todos Saudades", do convidado *Natalino Salgado Filho

cronica.

20/05/2021 18h51 Atualizada há 5 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Natalino Salgado Filho
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Somos todos Saudades

Convidado: *Natalino Salgado Filho

Repentinamente, como se nada mais escatológico pudesse nos assustar ou mesmo nos retirar da terrível rotina de mortes e consequências que a pandemia nos trouxe, somos literalmente nocauteados por uma notícia absolutamente estranha aos nossos jornais, já tão cheios de notícias ruins que, de tanto ouvi-las, nos amortecem os sentidos.

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O nome da cidadezinha não poderia ser mais pitoresco: Saudades, no interior de Santa Catarina. Apenas ouvir a nossa riquíssima palavra, ainda mais no plural, sentimos um quase desejo de conhecer o lugar. Quem espera o mal de um lugar com esse nome?

Como será de praxe, as autoridades investigarão e farão seus relatórios e a justiça será acionada para executar seu trabalho. Mas, diante de uma tragédia inominável, as razões – que devem ser apuradas – são o que menos queremos ouvir. Nosso senso de justiça clama, mas nosso coração está com os três bebês que foram mortos e as duas professoras.

É como se não houvesse espaço e tempo para outra coisa. A dor ocupa todo o espaço mental e emocional. Queremos chorar apenas e só depois haverá tempo para fazer as perguntas que jamais terão respostas: por que alguém faria isso? O que levou o homem a realizar atos tão selvagens? E outras tantas que, ainda que o próprio perpetrador falasse, não seriam suficientes.

Ao pensar sobre essa notícia, que parece vir de um lugar longínquo, talvez porque Saudades nos evoque tanta coisa pessoal, como se nos levasse para mundos que só nos habitam na mente e jamais a ele retornaremos, a sensação de impacto não é menos real e contundente.

Lembrei da Hanna Arendt e um de seus conceitos mais conhecidos e igualmente polêmicos, pois a muitos pareceu que a filósofa atenuava o mal praticado ou lhe dava uma desculpa. Mas o ponto dela nunca foi esse. Em 1961, ela cobriu um dos julgamentos judiciais mais espetaculares que ocorreu a um nazista, o de Adolf Heichmann, em Jerusalém, como o gerente da “Solução Final” do Holocausto. Arendt percebeu naquele homem banal e nem tão inteligente assim, a simplicidade com que ele encarava seu “trabalho” que era nada mais, nada menos, que pensar estratégias industriais e logísticas de matar o maior número de pessoas possível, apenas porque recebeu ordens superiores.

O mal supremo estava no cotidiano. Alguém que sai de casa, vai até a empresa onde trabalha, bate o ponto, cumpre seu papel e volta para casa no final do dia. Em Saudades, o mal estava à espreita, formando-se num homem de 18 anos de quem se tem as primeiras informações como alguém problemático, sem rede de relacionamentos saudáveis, que sofria bullying, na escola, era recluso e viciado em jogos eletrônicos. E ultimamente maltratava animais, como num ensaio macabro sobre o que sua mente doentia abrigava.

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Mas essa descrição é tão lugar comum que parece remake de filmes baratos de terror. Alguma coisa como A Hora do Pesadelo, sem a máscara do assassino. A descrição do homem banal aqui não justifica a crueldade cometida, apenas sinaliza para nosso coração assustado que, mesmo no lugar mais insuspeito, sabe que o mal é sempre uma possibilidade.

Em Saudades, a pequena e pitoresca cidadezinha do interior de Santa Catarina, experimentamos o exemplo excepcional de uma tragédia  de mortes não anunciadas, numa pacata comunidade e, por isso mais impactantes, dolorosas e traumáticas. Sofremos agora juntos como povo. Somos tocados, porque, de algum modo, eu como avô e pai, me coloco no lugar dos pais que perderam seus filhos pequenos. Mas, igualmente, sentimos a perda da jovem promissora e da professora veterana que há dez anos cuidava dos filhos das pessoas em sua cidade. Somos humanidade. E agora, todos somos dor, em Saudades.

 

*Natalino Salgado Filho

Médico Nefrologista, Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina.

 

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Edomir de OliveiraHá 5 anos atrásSão Luís MASaudades...quem não as sente de algo ou de alguém? Tema muito bem explorado professor.
Antonio Guimarães de Oliveira Há 5 anos atrásSão Luís Maranhão Natalino Salgado, um grande escritor do Maranhão. Gosto muito de suas produções.
Prof. Benedito NunesHá 5 anos atrásTeresina-PiauiDr. natalino, sou professor aqui da Universidade do Piauí e quero lembrar que aqui também aconteceu um crime bárbaro. Deu-se na pequena Castelo do Piauí, a cerca de 190 quilômetros de Teresina. Quatro garotas foram amarradas, agredidas e estupradas e depois jogadas do alto de um penhasco. Meu Deus, porque acontecem isso em cidades que a gente nunca espera?
Nanci SiebraHá 5 anos atrásBrasília/DFTodos são loucos. E como loucos, terão atenuantes na lei. Isso é admissível ainda diante de crimes brutais como esse? Tenho minhas dúvidas professor Natalino. Aproveito para dizer que foi um dos textos mais inteligentes que li até agora.
Nicodemos UimarHá 5 anos atrásFortaleza CEO Ministério Público pediu a quebra de sigilo para saber quais páginas o brutal assassino costumava acessar na internet, e como comprou a arma usada no ataque - uma lança do tipo ninja. O Ministério Público pediu a quebra do sigilo de dados do agressor de 18 anos. Mas será mesmo que a internet influenciou? Ou o descuido dos pais? É público e notório que o Brasil foi brutalmente arrasado com a educação que os jovens receberam nesse4s últimos 18 anos de governo. Não foi a internet.
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