Domingo, 25 de Julho de 2021 08:35
[email protected]
Cultura Convidados

Convidados Especiais: "Mia Couto por Sharlene Serra", uma rápida apreciação da obra

Entretenimento.

25/06/2021 13h40 Atualizada há 4 semanas
255
Por: Mhario Lincoln Fonte: Sharlene Serra
Sharlene com livro de Mia Couto
Sharlene com livro de Mia Couto

Convidados Especiais: "Mia Couto por Sharlene Serra", uma apreciação da obra. "Ele chega em forma geométrica, sinto seus olhos feito água cristalina".

MIA COUTO POR SHARLENE SERRA

Inicio com um poema de minha autoria, que a data se perdeu no tempo...

POEMIA

Minhas mãos passeiam

não em páginas, mas

nas histórias vivas com

pedras, chão,  sangue,

fome e mortes,

ele africanesia

versos na veia

o olhar respira

está em mim

seu nome

Mia.

Os meus olhos atentos para a presença do biólogo das palavras. Ele chega em forma geométrica, sinto seus olhos feito água cristalina que na transparência absorve o visto, sentido e o percebido no invisível, a biologia explicada, pois as palavras têm vida, forma, níveis e ele estuda, recria, observa o funcionamento vivo e sua relação com o meio, a palavra como processo de transformação. Não existe uma dicotomia entre o fazer e a poesia, tudo se entrelaça, tudo é poesia e tudo se transforma em história, somos feitos através delas e elas nos fazem existir. Segue um poema de Mia Couto.

IDENTIDADE 

Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço

 Mia Couto é assim, universo vivo. Sobre as histórias que ouvia do seu pai o que mais o fascinava não era a qualidade delas, mas o sentimento de encantamento que essas histórias produziam. 

 Antônio Emílio Leite Couto nasceu no dia 5 de Julho de 1955 biólogo moçambicano o nome Mia foi devido seu amor por gatos e pela forma curiosa que seu irmão pronunciava.

É o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. Recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da obra literária, entre eles: Prêmio Vergílio Ferreira (1999)

Foi escolarizado na Beira cidade capital da Província de Sofala em Moçambique, hoje mora em Maputo. Desde os 14 anos já teve seus poemas publicados no jornal “Notícias da Beira” iniciou na medicina queria ser psiquiatra, mas abandonou os estudos partindo para Jornalismo, sempre se viu em várias dimensões de atividades,   e posteriormente ingressou para biologia:

“A biologia ensina sobre linguagem e códigos, a visão antropocêntrica de que os seres humanos são seres racionais que se comunicam e pensam anula outras vozes no mundo, mas a natureza tem expressão e manifesta o que está acontecendo por meio de cores, formas e cheiros. A literatura assim como a biologia ensina a arte de reparar no entorno, nos descentraliza de nós mesmo. Explica.

Cada fala de Mia Couto demonstra poesia viva, um caso de amor com a escrita e uma sensibilidade oriunda também da sua cidade natal onde extrai elementos entre uma dualidade de beleza, encantamento , dificuldades e sofrimentos: eu sofri por que via os outros sofrerem , a poesia foi a senha que me permitiu entrar a frente do movimento de libertação de Moçambique.

“Se um dia me arriscar a um outro lugar, hei de

Levar comigo a estrada que não deixa sair de mim”

Em um trecho de uma entrevista ele diz: Sou um escritor africano de raça branca. Este seria o primeiro traço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho estas condições – a de africano e a de descendente de europeus – para definir logo à partida a condição de potencial conflito de culturas que transporto. Que se vai “resolvendo” por mestiçagens sucessivas, assimilações, trocas permanentes.

Lembramos de um trecho  de Tolstói:

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.“  Assim, Mia foi se revelando para o mundo.

SOTAQUE DA TERRA

Estas pedras sonham ser casa

sei

porque falo

a língua do chão

 

Nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

Mia expressa a voz de todos, no seu  eu poético, na identidade única, uma sintonia estabelecida com o coletivo, que transforma a pedra bruta da palavra, em jóia rara da sua  própria  escrita:

Como escritor, a nação que me interessa é a alma humana(...) cada pessoa é uma nação.

E assim como Mia, eu me  debruço na janela do poema  e  me abraço às palavras, sinto o respirar de todas elas, e afirmo junto a ele, que  se somos formados por células, elas certamente são constituídas de histórias e poesias:

Primeira Palavra

Aproxima o teu coração 

e inclina o teu sangue 

para que eu recolha 

os teus inacessíveis frutos 

para que prove da tua água 

e repouse na tua fronte 

Debruça o teu rosto 

sobre a terra sem vestígio 

prepara o teu ventre 

para a anunciada visita 

até que nos lábios umedeça 

a primeira palavra do teu corpo.

Mia Couto

...finalizo, da forma que iniciei:

POEMIA

Minhas mãos

continuam passeando

Folheando-te...

Continuarei encantando-me

nas histórias vivas da

Tua africanesia

versos contidos

em ti, que na página

respira.

( reverências a ti, Mia)

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Curitiba - PR
Atualizado às 08h33 - Fonte: Climatempo
12°
Alguma nebulosidade

Mín. 10° Máx. 25°

12° Sensação
6 km/h Vento
71% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (26/07)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 13° Máx. 27°

Sol com algumas nuvens
Terça (27/07)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 14° Máx. 25°

Sol, pancadas de chuva e trovoadas.
Ele1 - Criar site de notícias