AS LIVRARIAS ESTÃO MORRENDO?
(*) Mhario Lincoln
Será bem difícil o negócio de ser livreira funcionar em pleno comércio, diante de crise avassaladora que acabou por destruir o negócio de vários grandes complexos livreiros do Brasil, fora a estrangeira Fnac, cujo patrimônio, abocanhava 12 grandes lojas em 7 Estados?
Essa onda tsunamica atingiu igualmente a Livraria Cultura. Fechou as duas lojas que tinha no Rio, outra no Recife. Mas outras continuam abertas e sua administração tentando rolar as dívidas e se sustentar no mercado. A Saraiva, todavia, fechou 19 livrarias em outubro de 2019, cinco dias depois de a Cultura entrar com pedido de recuperação judicial.
Será que essa crise protagonizada por alguns dos principais ícones livreiros expõe um mercado acostumado com as velhas fórmulas, que tenta se manter firme desconsiderando as novas formas de consumo?
"O negócio do livro não vai voltar a ser como era há 10, 20, 50 anos independentemente do quão forte o livro impresso seja, a maioria dos títulos disponíveis nas grandes lojas não são vendidos com lucro; eles estão lá para gerar tráfego. Mas, na era digital, isso não funciona mais", diz o consultor americano Mike Shatzkin.
E o pior de tudo isso é que nem só as grandes enfrentam problemas de caixa. As pequenas e micro-empresas, bem como os velhos sebos, hoje praticamente abandonados às moscas - as lojas físicas - conseguindo ainda suspirar através de suas páginas virtuais de venda.
"A atual crise não é só das grandes. Trata-se de um processo iniciado nos anos 1980 que conjuga a tendência econômica à hiperconcentração com o advento das novas tecnologias e as modalidades de consumo delas decorrentes", diz Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias. Então, como sair dessa? "Temos que voltar à origem – fazer o simples, o feijão com arroz na administração do negócio -, e repensar a comunicação com o cliente. Uma livraria pequena precisa se diferenciar mais do que nunca. Ela nunca poderá concorrer em preço com o comércio online. E ninguém vai comprar na livraria do bairro porque é amigo do dono. Vai comprar onde mais o convier", complementa Gurbanov.
A crise livreira repercute diretamente nas editoras. Veja: com o freio de mão puxado das duas principais livrarias do País, as editoras repensaram seus lançamentos, diminuíram as tiragens e forçosamente acabaram por demitir funcionários. A Companhia das Letras, por exemplo, segundo jornais com tiragem nacional, começou o ano com menos R$ 26 milhões na conta. A Record, com menos R$ 22 milhões e a Sextante, com menos R$ 18 milhões.
Na verdade, há quatro anos o mercado já sinalizava para essa recessão. Porém, segundo diz Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros e sócio da Sextante, "(...) não fizemos nada. Tratamos esse assunto como estatística. Vimos o mercado cair 20%, o preço do livro se deteriorar, a inflação, a sociedade mudando o perfil de consumo, as livrarias pequenas desaparecendo, distribuidores indo à falência, os balanços negativos da Cultura e Saraiva, a Fnac saindo do Brasil. Os sinais estavam todos aí e preferimos não acreditar...".
Bom, para finalizar tudo isso (para não chorar), basta lembrar que o mercado editorial americano e internacional acompanhava esse tsunami sobre as empresas brasileiras.
E acompanhavam com muita preocupação, pois têm um exemplo fortíssimo dentro da comunidade literária da américa do norte. Lembram do colapso da 'Borders', que tinha cerca de 450 megastores quando quebrou, em 2011?
A SITUAÇÃO EM 2020 PERMANECE INSÓLITA
Mesmo diante das duras medidas que adotaram para sobreviver à essa avalanche destrutiva da crise no mercado editorial brasileiro, 2020 começou e recomeçaram os problemas. As duas empresas (Cultura e Saraiva) que estão em processo de recuperação judicial já fecharam 54 lojas, desde 2017 e demitiram quase 3 mil funcionários.
Só a Saraiva teve um prejuízo líquido de quase 156 milhões de reais, de janeiro a novembro de 2019. Ainda: responde por 30 ações de despejo. Detalhe: os fornecedores da Saraiva exigiram na justiça o afastamento do CEO Jorge Saraiva Neto, bisneto do fundador que começou com um pequeno sebo, no centro de São Paulo.
A dívida da Cultura, por sua vez, em recuperação judicial desde 2018, ultrapassa 285 milhões de reais. Em 2019 acumulou um prejuízo de 37,7 milhões. Continua sobrevivendo graças a uma série de medias tomadas desde janeiro deste ano, como o leilão do site ‘Estante Virtual’ com cerca de 4 milhões de clientes.
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