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Acadêmico AML, escritor José Neres, toma posse, com méritos, na Academia Ludovicense de Letras

"(...) E, ao chegar, já me vejo como sempre me vi nos momentos em que estive nesta Casa do Conhecimento, que recebe também o nome de Casa de Maria Firmina dos Reis. Vejo-me cercado de amigos e de amigas (...)".

11/08/2021 10h18 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: José Neres
José Neres
José Neres

DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA 38 DA ACADEMIA LUDOVICENSE DE LETRAS

José Neres

Prezado Senhor Presidente da Academia Ludovicense de Letras, doutor Daniel Blume;

Prezados confrades e prezadas confreiras desta e de todas as demais academias aqui presentes;

Caros amigos e familiares, meus e do agora duplamente confrade, doutor Jadir Lessa;

Caros convidados, caríssimas convidadas.

Hoje, nesta noite do dia 10 de agosto de 2021, mesma data do nascimento de pelo menos dois dos mais importantes e significativos nomes de nossa literatura: o poeta maranhense Gonçalves Dias, autor de alguns dos mais conhecidos poemas de nossa lírica, e Jorge Amado, autor de clássicos como Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos; aniversário também da mais que centenária Academia Maranhense de Letras e desta bela e jovem Academia Ludovicense de Letras, oficialmente chego a esta casa onde, de alguma forma, sempre estive e onde sempre fui recebido com afeto, atenção e carinho.

Chego a esta Academia depois de percorrer um longo caminho no magistério, na pesquisa e nas lides com o texto escrito. Porém, mesmo já havendo percorrido este longo, tortuoso e às vezes áspero caminho, não chego aqui com sinais de cansaço ou de enfaro. Na verdade, entro pelos portais desta Instituição com uma bagagem repleta de alegria e de vontade de contribuir para o engrandecimento das letras de nossa Cidade, de nosso Estado e de nosso País.

E, ao chegar, já me vejo como sempre me vi nos momentos em que estive nesta Casa do Conhecimento, que recebe também o nome de Casa de Maria Firmina dos Reis. Vejo-me cercado de amigos e de amigas. Aqui encontro ex-professores, ex-alunos, colegas de profissão, companheiros de diálogos sobre educação e literatura, pessoas com quem convivo há muitos anos e que têm residência fixa em meu coração. Posso então dizer que, mesmo antes desta cerimônia de posse, eu já me sentia em casa na Academia Ludovicense de Letras.

Ao ser eleito para esta Academia, no dia 22 de dezembro de 2020, recebi, entre outras missões culturais, a honra de ocupar uma cadeira que foi edificada sob o patronato da escritora, professora e advogada Dagmar Destêrro, sobre quem, a partir de agora, passo a tecer algumas considerações.

Dagmar Destêrro e Silva nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 09 de setembro de 1925. Concluiu com louvor o bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais e licenciatura em Pedagogia. Foi professora e diretora do ensino primário, técnica em educação, chefe do Serviço de Patrimônio da União, professora, procuradora e vice-reitora da Universidade Federal do Maranhão. Jomar Moraes (1999, pág. 81) comenta que Dagmar Destêrro foi “o primeiro concludente laureado da Faculdade de Direito e também obteve o primeiro lugar como licenciada em Pedagogia”

A escritora pertenceu aos quadros do Conselho Estadual de Cultura e participou ativamente de diversas instituições, como o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Centro Cultural Gonçalves Dias e Academia Maranhense de Letras, instituição na qual ocupou a Cadeira número 24, fundada por Joaquim Dourado e patroneada pelo polígrafo Coelho Neto.

Dona de uma vasta produção intelectual que inclui discursos, monografias, conferências e estudos teóricos, a escritora deixou para a eternidade, enfeixados em livros, os seguintes volumes, praticamente todos esgotados e clamando por reedições:

Recordando São Luís (Poesia, 1953)

Conflito (Teatro, 1956)

A vida de Benedito Leite para crianças (1957)

Segredos Dispersos (Poesia, 1957)

O resto é solidão... e espera (Prosa poética, 1958)

Parábolas do sonho quase vida (Poesia, 1973)

Pedra-Viva (Poesia, 1979)

Poemas para São Luís (Poesia, 1985)

Canto ao Entardecer (Poesia, 1985)

Dois tempos em compasso de espera (1991)

Seleta Poética (Poesia, 1995)

É do livro Seleta Poética, pequeno volume cuidadosamente organizado pela Academia Maranhense de Letras, pela ocasião do septuagésimo aniversário da escritora, que retiro o seguinte trecho, que mostra um pouco do estro poético de nossa homenageada:

Não basta apenas viver

é preciso sentir a vida

em sua essência;

vivê-la em profundidade.

Analisar as pedras do caminho

e neste, observar os atalhos,

aclives e declives

pensar com realidade. (Pág. 25)

José Neres (D) diplomado pelo presidente Daniel Blume.

Ao longo de seus setenta e nove anos de vida, com mais de meio século dedicado à literatura, ao magistério e ao Direito, Dagmar Destêrro recebeu inúmeros elogios com relação à sua produção literária. O poeta e acadêmico José Chagas chegou a dizer que ela “conquistou seu lugar entre os intelectuais maranhenses que não fazem literatura por mero diletantismo, mas por uma profunda imposição humana que nos obriga a viver mais para o espírito, cultivando no campo do sonho o ouro das grandes ideias” (in: DESTÊRRO, 1995, quarta capa).

Durante a cerimônia de Posse na AML, o professor e historiador Mário Martins Meireles, em seu discurso de recepção, disse que, em sua poética, Dagmar Destêrro era dona de “versos simples e por isso tanto mais belos”, acrescentando que:

Sua poesia não se preocupa com as regras de um esteticismo acadêmico e foge aos cânones escolásticos que exigiam a certeza da métrica e o rigor da rima, não chega a atingir o excesso de liberdade de que abusam os gênios na criatividade de um hermetismo que escapa à compreensão mediana e só se comunica aos iniciados de uma arte misteriosamente secreta. Não, sua poesia é encantadoramente singela e compreensível, é uma poesia que se lê e se sente porque fácil é saborear-lhe o gostoso das ideias, aspirar-lhe o oloroso da fantasia, admirar-lhe o vivaz dos matizes, é uma poesia plena de inspiração, cheia de amor e tocada de angústia (SILVA; MEIRELES, 1976, pág. 30-31).

Nessas poucas palavras, porém certeiras palavras, o autor de História do Maranhão delineia alguns traços bastante peculiares da obra poética de Dagmar Destêrro: a simplicidade dos versos e a carga de angústia que emana de seus versos. Aprofundando essas noções básicas destacadas por Mário Meireles, o professor, poeta e crítico literário Carlos Cunha, em seu livro As lâmpadas do sol acrescenta que:

Dagmar Destêrro e Silva consegue neutralizar o profundo pessimismo que a domina, uma característica para desequilíbrios emocionais, com essência religiosa de suas composições. Ela se liberta desses pesadelos transferindo a explicação dos acontecimentos para a órbita da religião, que penetra nos mistérios universais através de atitude de benevolência, onde o Bem supera o Mal, ao final das intempéries. Por isso, a esperança ainda constitui um ingrediente fetichista em suas elocubrações (CUNHA, 1980, pág. 52).

Além do conteúdo, parecem ser a linguagem poética e a imaginação artística de Dagmar Destêrro dois pontos que mais atraem a atenção dos estudiosos de sua obra. O romancista, crítico e historiador literário Assis Brasil é um dos que chama a atenção para o fato de que:

[Dagmar Destêrro] mostra que sabe lidar com a linguagem poética com conhecimento de causa. Liberta do passado, faz ligeira reverência ao soneto, pois o domina para dar asas à imaginação criadora como um autêntico poeta. (BRASIL, 1994, p. 149)

Clóvis Ramos, por sua vez, além de destacar os dotes poéticos da escritora, observa que ela não se limitou ao campo da poesia, tendo destaque também em outros gêneros textuais, conforme pode ser visto a seguir:

Tendo começado sua carreira literária com poesia – Segredos Dispersos – enveredou pelo teatro e pelo ensaio, focalizando temas pedagógicos e jurídicos, e preparando biografias para crianças. Sua poesia comprova que o poeta participa, mais do que se imagina, dos problemas de seu tempo, e não é um simples espectador da vida moderna (RAMOS, 1993, pág. 52).

É possível perceber-se na leitura dos poemas escritos por Dagmar Destêrro que ela estava consciente da simplicidade formal e vocabular de seus versos e que ela colocava no papel um pouco de suas alegrias, de suas angústias e de seu modo de ver o mundo. Em Minha Poesia, ela deixa claro para o leitor seu modus operandi e sua concepção do fazer poético.

Minha poesia é simples

como simples é

minha realidade.

O essencial é que eu diga

o que sinto.

Já é difícil se entender

a vida em sua imensa

complexidade.

Escrever poesia é meu consolo

e a certeza de que em mim

não existe deserto

e nem mesmo aridez.

Em mim, espontânea,

a poesia nasce,

floresce, cresce

e surge de uma vez

Quando já nada em mim restar

de esperança,

realidade ou fantasia,

restará de vida

para a minha vida

a certeza de que jamais

vivi em vão.

Deixei ficar a minha poesia. (DESTÊRRO, 1995, pág. 21)

Importante destacar que Dagmar Destêrro foi também uma vigorosa prosadora, como pode ser visto no livro Dois tempos em compasso de espera, que contém dezesseis contos elaborados com maestria e nos quais a escritora trabalha bastante as relações interpessoais e as “fraturas” sociais, mesclando releituras do anedotário popular, como é o caso do conto O papagaio e a infidelidade conjugal, com tintas de um bem elaborado quadro de costumes com desfechos que remetem a uma visão neo-naturalista, como ocorre em O trapezista, narrativa cuja tessitura literária e o desfecho surpreendente já seriam o suficiente para colocarem nossa escritora no Pantheon dos grandes prosadores brasileiros do século XX.

Sobre o estilo e as temáticas dessa autora, em 05 de março de 2004, portanto, pouco mais de quatro meses antes de sua viagem para a eternidade, escrevemos no jornal O Estado do Maranhão um breve artigo no qual se encontra a seguinte passagem:

Mesmo em uma rápida e descompromissada leitura, é possível perceber-se a importância das palavras “vida” e “viver” no estro de Dagmar Destêrro, não se tratando, porém de um mero uso de duas palavras que podem trazer um efeito estético. Para a poetisa maranhense, tais palavras assumem um valor muito mais profundo. Um valor que remete à sua própria concepção de poesia (...) Em versos simples, a escritora oferece ao leitor verdadeiras lições de vida (...) São Poemas que, de um modo ou de outro, combatem o sentimento negativista que toma conta das pessoas e dão uma “injeção” de ânimo em quem se sente mais sofredor do que os demais seres humanos (NERES, 2004, pág. 04).

Por uma dessas coincidências perpetradas pelo destino cerca de dois meses após a publicação do artigo no jornal, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a autora de Segredos Dispersos. Na época, a instituição de ensino na qual eu trabalhava decidiu fazer uma homenagem para a escritora. O professor e escritor Joaquim Gomes, à época coordenador do Curso de Letras, convidou-me para acompanhá-lo na visita na qual tentaríamos levar a poetisa para uma homenagem presencial no teatro da Faculdade. Ela estava voluntariamente reclusa há vários anos. Aquela visita era um verdadeiro presente para quem ama a poesia. Fomos bem recebidos e aproveitei a situação para entregar-lhe uma cópia do artigo. Ela recebeu carinhosamente, leu com calma aquelas linhas e me fez a dolorida pergunta: “Lá fora alguém ainda lembra de mim?”

Disse-lhe que ela era lida, querida e estimada. Um sorriso iluminou ainda mais aquele par de olhos bem azuis e ela decidiu aceitar a homenagem que lhe seria feita dias depois, com a única condição de não chover na data do evento. Aceitamos. Não havia previsão de chuva para aqueles dias. Mas uma tempestade se formou horas antes do encontro e ela comunicou que não poderia ir. Mesmo sem sua presença, houve a homenagem. Semanas depois, no dia 06 de agosto daquele ano de 2004, recebi a notícia do falecimento daquela escritora que tanto fez por nossas letras.

Hoje, senhoras e senhores, quase duas décadas depois, nesta data tão festiva, volto a responder à pergunta que me foi feita pela autora de Dois tempos em Compasso de espera naquele único e memorável encontro. Sim. Ela ainda é lembrada e é em sua homenagem que termino aqui minha fala e é para ela que peço agora uma salva de Palmas.

Boa noite!

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Assis. A poesia maranhense no século XX. Rio de Janeiro/São Luís: SIOGE/Imago, 1994.

CUNHA, Carlos. As lâmpadas do sol. São Luís: Fon-Fon, 1980.

DESTÊRRO, Dagmar. Parábola do sonho quase vida. São Luís: SIOGE, 1973.

_________. Dois tempos em compasso de espera. São Luís: SIOGE, 1991.

_________. Seleta poética. São Luís: Edições AML, 1995.

MORAES, Jomar (org.) Perfis acadêmicos. 4ª ed. São Luís: Edições AML, 1999.

NERES, José. Dagmar: lições de vida. In: O Estado do Maranhão, Opinião, 05 de março de 2004.

RAMOS, Clóvis. As aves que aqui gorjeiam: vozes femininas na poesia maranhense. São Luís: SIOGE, 1993.

SILVA, Dagmar Destêrro e; MEIRELES, Mário Martins. Discursos na Academia. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 1976.

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