DA TRAVESSIA-TRAVESSA
À LÍRICO-VESSA TRAVESSIA
*Mhario Lincoln
Ao receber "Travessia", o livro segundo do poeta Eloy Melonio e abri-lo imediatamente movido pela ansiedade da leitura, dei-me com "Tempo Tempo Tempo: Cansado de tanto correr/ o velho tempo/ parou/ na estação da vida (...)".
Tal versílica me chamou a atenção para o romance homônimo "Travessia - A História de Amor de Anita e Giuseppe Garibaldi", da espetacular Letícia Wierzchowski, cuja história, como nos versos de Melonio, também tinha o tempo como coadjuvante, tempo esse, trespassado por guerras e martírios.
Da mesma forma o "Travessia", de Eloy Melonio; de igual eiva de construções sobre suas lutas contidianas, fala de amor, saudade, perda, reencontros, portos, fragmentos, descompassos, passos, rumos, desvios, paixões, até mesmo; "Delírios, faísca e cinzas: Escorregando na espiral do tempo/ preciso sair dessa penumbra/ e me ajustar aos últimos ditames de minha vida".
Os dois poemas de Melonio são exemplos de que a poesia moderna é uma paleta de cores, mesmo com um desenho previamente elaborado numa folha de papel em branco: o antiparnasianismo. Nesse formato eloyniano, na contramão do antigo, bastou que o poeta espargisse por sobre esse desenho predeterminado, calculadas e combinadas gotas de cores, em apoteótica hermenêutica, para que os versos se autocolorissem por talento.
E porque antiparnasiano? Porque nem só de rimas vive um grande poema; bastam-lhe - eodem modo supra - cores da imaginação justapostas, para que o lírico se esclareça com emoção: essa é a raiz do desdobramento da ideia única, de forma que, em quaisquer que sejam as páginas abertas nesses volume, haverá sempre empatia com o escrito: "Peguei-me pecando/ outra vez./ E outra, mais outra, e outra mais./ Queria saber/ por que/ pecava sempre mais uma vez". ("Pecadomania").
Veja a construção antológica desses versos, aparentemente simples. Mas não o é.
Há profundidade complexa nessa briga do íntimo com o aculturamento do pecado, diante das pedras mandamentais. O grande Gregório de Matos induzia em seu "Soneto a nosso Senhor: Pequei Senhor,/ mas não porque hei pecado, (...)".
Isso indica uma imersão na angústia incontrolável do 'pecar' - sem rimas e sem presunções - tema advindo desde Vieira.
O padre Antonio Vieira também amadureceu literariamente ao incorrer nessa íntima relação com o pecado (e com o porque) desse pecado. Basta pinçar, do "Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda", o excerto: "(...) se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante de os não perdoar? (...)".
Há de se tocar mais nessa tecla do amadurecimento psicoliterário do Eloy-poeta. Como no livro de Kafka; mutatis mutandi.
Aqui, Melonio acorda e se vê poeta. Olha e se vê poesia: cabeça, tronco e mebros feitos de matéria aédica. Com uma abissal diferença: a maioria dos que acordam dessa mesma forma, não conseguem se livrar da carapaça, a mesma de Gregor Samsa, de repente acordado de sonhos intranquilos, e se vendo metamorfoseado num inseto monstruoso.
Com Eloy Melonio foi diferente. E eu posso falar disso - não por amizade simplesmente, sendo ele um dos meus convidados para assumir uma honrosa cadeira na Academia Poética Brasileira. Mas falo pela quantidade de segundos (um milhão?) que tenho convidido com ele, desde os bancos da Faculdade de Direito, (UFMA), onde fizemos algumas matérias juntos.
Bem que poderia ter começado minha resenha assim: um dia, numa manhã ensolarada, Eloy acorda Poeta. E agora? O que fazer?
Ao meu ver, o autor de "Travessia" acordou literarte. Tornou-se literatura, com arte. Como no velho ditado: tornou-se literalmente tudo: compositor, poeta, escritor, contista. Não só poeta.
Desta forma, merece muitos aplausos por escrever poesias de forma tão original, apesar de afirmar que não era "ninguém/ Apenas uma porrinha de nada/ querendo ser alguém".
A humildade somada a aptidão fê-lo se desclausular - literatura - de forma apologética.
Isso é clarríssimo se houver acuidade em ler o primeiro (obra de estreia, muito íntima, tornando-a merecedora de boas críticas, também) e o segundo livro.
Nesse, contudo, é como se folheassemos uma obra em crescente disciplina, compaixão, responsabilidade, trabalho, coragem, perseverança, honestidade e lealdade as suas confidências e fé.
Eloy soube - amadurecidamente - explorar essas múltiplas possibilidades líricas, sem esquecer o seu "eu" interior, às vezes retraído, outras intermitentes, outras mais, autoreflexivo.
Mesmo assim, deu-se ao direito de extrapolar a criação por estar, desta feita, fortificado, após acordar literarte: "A poesia não me basta (...)". São quase 150 poemas fortes, intensivos, pessoais, plurais e numericamente cardinais.
Então, diante dessa metaformose abundante, desprendeu-se para outras atividades, criando pra si, uma "Travessia" imortal - como Héracles, Orfeu, Enéas e Dioniso — que atravessaram com Caronte, o barqueiro de Hades, o rio Estige - na divisão entre dois mundos: o real e o imaginário. Eloy foi e voltou herói.
Eloy Melonio se torna, agora, em sua segunda incursão lírica, um poeta fortificado, sem reflexos outros, mesmo já os tendo procurado: "Então vi/ que precisava de dois espelhos./ Um/ para ver o que/ eu já sabia que ia ver./ Outro para ver o que,/ de fato, eu queria ver.(...)".
Se torna um poeta com personalidade qualificada: "Não sou assim tão hábil para explicar/ com meras palavras/ por que inventei de repisar velhos conceitos.(...)".
Um escrivinhador de liberdades: "Quero que meu grito voe alto/ tão alto/ que toque o teto do infinito./ E que o seu eco ressoe forte./ Tão forte; que estremeça as portas da indiferença.(...)".
Das buscas sociais justas: "Quantas manhã nos esperam/ antes que brilhe/ o sol da igualdade/ sobre a espada da injustiça social?".
Um poeta que exibe uma "Questão de ser: Um poema/ recusa-se a nascer poema,/ e exige/ outra nomeação.(...)".
Enfim, "Travessia" é uma obra madura, alinhada às ondas da construção modernista. Há explícita e contínua relação do poeta Eloy Melonio com a base poética desse período por demais produtivo, (leia-se: Adélia Prado, Hilda Hilst, Raul Bopp, Jorge de Lima, entre outros), onde a lógica da construção de poemas livres sempre foi fortalecer uma linguagem livre de arcaísmos. Isso faz a voz de Eloy Melonio soar autêntica.
Desta forma, acabo de ler e me emocionar com um dos livros mais especiais deste 2021 pandêmico, ratificando a imortalidade dessa obra, como bem disse a inesquecível Cora Coralina: "Não morre aquele/ que deixou na terra/ a melodia de seu cântico/ na música de seus versos".
Parabéns caro confrade.
Curitiba, 04.10.2021.
Mhario Lincoln,
Presidente da Academia Poética Brasileira
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VÍDEO BÔNUS: entrevista sobre o primeiro livro: publicado em 01.02.2016
EXCLUSIVO: Eloy Melonio, poeta maranhense, fala de seus últimos trabalhos para Vídeos/ACERVUM:
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