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O discurso de posse do imortal Reynaldo Soares da Fonseca, na Academia Maranhense de Letras

Devidamente autorizado pelo autor.

19/11/2021 às 17h04 Atualizada em 19/11/2021 às 18h33
Por: Mhario Lincoln Fonte: Reynaldo Soares da Fonseca
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A família
A família

O SONHO COLETIVO: AS LETRAS

(O Discurso de Posse na Academia Maranhense de Letras).

Reynaldo Soares da Fonseca

Ao inaugurar a cadeira de semiologia literária, no Collège de France, com uma aula magna, nominada Leçon, texto publicado em 1978, que se constituiu no ponto inicial para o avanço semiológico, Roland Barthes falou de um sentimento, que somente a tessitura vaporosa da alma humana é capaz de perceber: a alegria.  

É oportuno lembrar que Roland Barthes (1915-1980) ficou impossibilitado, tanto pela doença - uma tuberculose, que o manteve, por vários anos, no sanatório Saint-Hilaire de Thouvet, nos Alpes franceses -, quanto por uma situação financeira precária, de prestar o concurso de ‘Normal superior’ e, portanto, de ter acesso à elite universitária. Entretanto, em 14 de março de 1976, a assembleia dos professores do notável Collège de France, em Paris, rival da não menos famosa Sorbonne, aceita sua candidatura como professor, proposta por seu amigo Michel Foucault (1926-1984). Assim, na aula inaugural:  Leçon, disse Barthes:

É, pois, manifestamente, um sujeito impuro que se acolhe numa casa onde reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada. Assim sendo, quer por prudência, quer por aquela disposição que me leva frequentemente a sair de um embaraço intelectual por uma interrogação dirigida a meu prazer, desviar-me-ei das razões que levaram o Colégio de França a acolher-me – pois elas são incertas a meus olhos – e direi aquelas que, para mim, fazem de minha entrada neste lugar uma alegria mais do que uma honra; pois a honra pode ser imerecida, a alegria nunca o é.1

1 Barthes, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980. Tradução e posfácio de Leyla Perrone-Moisés.

O discurso.

Com esse sentimento de alegria, estou aqui neste momento, para, em um ato de ousadia, ingressar na centenária Academia Maranhense de Letras. A Casa de Antônio Lobo é um sonho da literatura e da cultura brasileiras. Um sonho coletivo que se fez realidade, em 1908, em solenidade celebrada neste lindo prédio (Rua da Paz n. 84), que, sediava, à época, a Biblioteca Pública do Estado, tendo como nome tutelar a figura do poeta maior Gonçalves Dias (1823- 1864) e como fundadores: José Ribeiro do Amaral, Antonio Lobo, Inácio Xavier de Carvalho, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Barbosa de Godóis, Raul Astolfo Marques, Alfredo de Assis, Correia de Araújo, Clodoaldo Freitas, Godofredo Viana e Vieira da Silva, todos componentes do movimento intelectual autodenominado Novos Atenienses, posteriormente considerados a terceira fase da literatura maranhense. A AML nasce, pois, como um ambiente plural das letras, acolhendo poetas, escritores, professores, políticos, jornalistas, diplomatas, médicos, geógrafos, historiadores e juristas. Daí porque o estatuto desta casa admite intelectuais de “notória atividade literária ou relevante valor cultural.”

A alegria deste momento, portanto, é também um sonho coletivo das famílias Netto Guterres, Silva Soares, Viana e Soares da Fonseca. Sim, Senhores, trago comigo todos os sonhos dos meus antepassados que vivenciaram e saborearam as letras, a literatura, as artes, a medicina e o Direito.

Começo pelo meu bisavô Luiz Alfredo Netto Guterres, o médico dos pobres, patrono da cadeira 27 da Academia Maranhense de Medicina, que dedicou sua vida inteira à saúde dos seres humanos. Farmacêutico, médico e escritor. Ao lado de sua bela Leonor Passos Netto Guterres deixou um legado de honradez e de nobreza de caráter. Dessa união, nasceram Joaquina (minha querida avó), Vicente e Conceição.

Recordo, igualmente, do meu bisavô Tito Soares, autodidata versado nas letras e no Direito. Autor de uma clássica gramática da língua portuguesa. Deixou obras e ensinamentos fabulosos. Seus filhos foram destaque na política, na medicina, no Direito e na literatura maranhense. Teve ao seu lado também uma grande mulher Maria Thereza (Lolosa).  Os historiadores revelam que meu tio-avô Wilson Soares chegou a ter a mais expressiva biblioteca particular do Maranhão, que era compartilhada por muitos. O Fundador desta Cadeira 38 da AML, o grande escritor Franklin de Oliveira, usufruiu da aludida Biblioteca por indicação de seus amigos Clarindo Santiago (médico) e José Neves de Andrade.

Meu tio-avô - Odilon Soares - médico, político e escritor deu início ao sonho coletivo, quando, na década de 50 ocupou a Cadeira 14 desta Academia, patroneada por Nina Rodrigues, fundada por Antônio Lobo. Seu antecessor foi Aquiles Lisboa e seu sucessor foi o inesquecível Bernardo Almeida. Hoje abrilhanta a cadeira o Ministro Edson Vidigal. Dr. Odilon conhecia profundamente a cultura e a língua Alemãs. Autor de diversos livros, merecendo destaque: Goethe, Sua Vida e Sua Obra e dos Adjetivos da Língua Alemã.

 Meus tios-avós Mário, Oswaldo e Walter tiveram grande destaque na cultura, inclusive no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. A única filha do casal – Eldenora – faleceu cedo, mas deixou, também, os irmãos William e Washington Soares de Britto, por todos nós conhecidos.

E meu avô Durval da Silva Soares? Era um grande poeta. Casado com a filha primogênita de seu padrinho de batismo e sogro – Joaquina Netto Guterres Soares (artista, pianista, pintora, escultora, além de farmacêutica), moradores da Rua da Cruz, 131, construção de 1836.

Durval Soares, em seu livro de poesia, Luar entre Palmeiras, prefaciado pelo grande Josué Montello, que reconheceu a beleza dos versos alexandrinos e os motivos líricos e clássicos no Poeta, disse ter encontrado na Obra uma das mais belas redondilhas da poesia brasileira, que nos falam da saudade e das incertezas da vida: “É sentimento disperso/ Que vive da alma do povo/ Desejo de ver de perto/ Vontade de ver de novo”/ “Na incerteza desta vida/ Esta certeza se tem:/ De não se saber, querida, / O dia em que a morte vem”.

2Soares, Durval. Luar entre Palmeiras. São Luís: Gráfica Pinheiro, 1995. (3) FONSECA, Maria Thereza Soares da. Tempo de Lembrar. São Luís: Lithograf, 2007.

Do meu avô Durval, herdamos também outros grandes poetas. Seus filhos, meus tios Odila Leonor Soares Micali, que poetizou o Maranhão no Sul da França por mais de cinquenta anos; Luiz Alfredo Netto Guterres Soares, autor de diversos livros de poesia e trovas desde 1954 (“Taça Vazia”, “Vagalumes” e “Canto Telúrico para São Luís”, entre outros) e Rosa Maria Soares Bugarin. Rosinha, hoje com 82 anos, continua encantando, de Brasília, com a ternura de sua poesia, a saudade da ilha do amor e a delicadeza de sua alma. Seu livro “EPIFANIA” é simplesmente um canto de amor.

Meus tios Reynaldo e Antônio Augusto também honraram a família Guterres Soares, como profissionais do Fisco e do Banco do Brasil S.A.

Minha amada mãe – Maria Thereza Soares da Fonseca – deixou o legado da sabedoria da vida e do conhecimento científico, como farmacêutica e professora. Seu livro “Tempo de Lembrar”, que revela encontros da Ilha do Upaon-açu com o velho mundo, nos recorda a advertência de Norberto Bobbio “Somos aquilo que lembramos”.

Trago comigo, igualmente, os sonhos das famílias Viana e Soares da Fonseca. Meu avô João Viana da Fonseca, um menino humilde e órfão, com a ajuda de um tio com posses, saiu no início do Século XX, de Amarante no Piauí para Liverpool na Inglaterra e de lá retornou como Engenheiro, casando-se com minha elegante e discreta avó Carmina (Bindinha), da vizinha cidade São Francisco do Maranhão, vindo morar em São Luís para trabalhar na Rede Ferroviária Federal RFFSA e constituir sua família. Desse casal, nasceram Ulisses, Durval, João Viana Filho, Clóvis e Maria (Marisinha).  Vovô Viana era um homem rígido, culto, das letras e professor de línguas estrangeiras.

Reynaldo e Luziana Soares da Fonseca
e Alberto e Nazaré Tavares Vieira  da Silva

Mas esse sonho coletivo tem um destinatário muito especial. Meu pai Durval Soares da Fonseca – o escritor da juventude – na dicção dos acadêmicos Desembargador José Filgueiras e Senador Bello Parga, bem como do ex-governador do Amapá, Dr. Jorge Nova da Costa, amigos-irmãos dele desde a infância. Durval Fonseca era amigo pessoal de vários acadêmicos de ontem, de hoje e de sempre. Homenageio todos nas pessoas dos saudosos José Pires de Sabóia e Carlos Alberto Madeira e, especialmente, do grande Presidente José Sarney, que com ele vivenciaram tantas histórias neste Maranhão. 

4BUGARIN, Rosa Maria Soares ­. EPIFANIA. Brasília: Nil Histórias, 1999.

A vida levou papai para os caminhos do Direito e da área bancária, mas ele era um admirador apaixonado da Academia Maranhense de Letras. O inesquecível Presidente Jomar Moraes o considerava: o amigo fiel da AML. Aqui estava sempre em todos os eventos. Dias antes de falecer aqui esteve para um lançamento de um livro. Depois de sua morte, tivemos uma cerimônia marcada para a homenagem da AML a Durval Soares da Fonseca e guardamos até hoje o diploma e a Medalha Comemorativa do Bicentenário do nascimento de Manuel Odorico Mendes, concedida em 1999 in memoriam.

Do casamento de Durval e Maria Thereza, nasceram 08 filhos: Maria de Fátima, Tereza Cristina (a poetinha), Luiz Alfredo, Maria Lúcia (que virou estrela, ainda bebê), Antonio Augusto (da Academia Maranhense de Medicina), Reynaldo, Durval Júnior e João. Tenho muito orgulho de todos eles, de seus filhos e netos.

Trago, ainda, os sonhos de amigos queridos, que escolhi e que me escolheram como família. Homenageio todos eles nas memórias do meu eterno Mestre Dionísio Rodrigues Nunes, do guerreiro de Alma invencível Leomar Amorim e da minha cunhada Eliana Campos Morais Rego, poetiza e professora, que nos deixou em março deste ano, acometida dessa enfermidade que entristeceu e abalou o mundo.

E para completar esse sonho coletivo, tenho a cumplicidade de minha companheira Luziana (meu amor há 38 anos), fruto da feliz união de Eliezita e Gilberto de Jesus Campos (meus saudosos sogros), o apoio decisivo e incondicional dos meus amados filhos Leonardo, Rafael, Gabriel (minha maior riqueza) e o incentivo da linda nora Karen, que me deu a alegria de ser avô da bela e encantadora Maria Clara (nossa princesa).

Assim, o menino da rua da Cruz, que começou seus estudos aos 3 anos, no Jardim Antonio Lobo, ao lado da Igreja Santo Antonio, e que, desde criança, era apaixonado pela poesia de Gonçalves Dias e de Castro Alves, chega à Academia Maranhense de Letras, com a alegria de Barthes, o sonho coletivo anunciado por Cervantes e a advertência do Grande Padre Antonio Vieira:

“As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras levam o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que se aproveitam só essas são as que sustentam o mundo”.

Senhoras e senhores, em meados de junho de 2020 recebi uma ligação do querido amigo e mestre Alberto José Tavares Vieira da Silva que me convidou em nome próprio e de outros acadêmicos, a candidatar-me à Cadeira 38 nesta Academia, recordando as qualidades e a qualificação do meu antecessor, Professor José Maria Cabral Marques (homem da educação, da cultura e do Direito). A surpresa levou-me imediatamente ao sonho coletivo dos meus antepassados: “sonhar sozinho é apenas um sonho; sonhar coletivamente é o início da realidade”.

A realização desse sonho não seria possível sem o decisivo apoio que recebi da quase totalidade dos acadêmicos da AML, liderada com maestria por seu Presidente Carlos Gaspar, amigo de tantos anos. A todos apresento os meus mais profundos agradecimentos. Fui e estou sendo acolhido de braços abertos e com afeto no coração. Minha gratidão especial aos amigos Alberto e Nazaré, que me acompanham há tantos anos e que, sem sombra de dúvidas, têm a participação decisiva no sucesso dessa caminhada! Muita alegria!

O Patrono: Adelino Fontoura

A Cadeira n. 38 da Academia Maranhense de Letras resgata uma homenagem do Estado a um filho seu que inaugura com o número 01 a lista dos patronos da Academia Brasileira de Letras. Adelino da Fontoura Chaves – ator, jornalista e poeta, que nasceu em 30 de março de 1859 (para alguns pesquisadores, teria nascido em 1855*), no povoado Axixá, hoje município do mesmo nome. Filho de Antônio Fontoura Chaves e Francisca Dias Fontoura. 

Adelino Fontoura teve uma trajetória de vida breve, mas muito marcante.  Faleceu em Lisboa, Portugal, a 2 de maio de 1884.

De família humilde, veio criança tentar a vida na Capital. Tinha o intuito de estudar teatro e trabalhar no comércio.

Aos 10 anos, após conclusão do primário, alcançou a colocação de caixeiro na Praia Grande, local onde se tornou amigo fraterno de outro caixeiro Arthur Azevedo (1855 – 1908), que trabalhava num armazém vizinho. Com o amigo Arthur, começou seus sonhos das letras. Essa amizade perdurou para sempre.

O Ator

Anos depois muda-se para o Recife, onde alista-se no Exército (para alguns pesquisadores, ingressa na Polícia Militar), colaborando numa publicação chamada “Os Xênios”, de teor satírico. Lá, escreve no álbum do ator Xisto Bahia o soneto que possivelmente é o mais antigo que se conhece dele.

Inicia, também, a carreira de ator, voltando ao Maranhão, sua terra natal, para uma apresentação – cujo papel rendeu-lhe uma prisão. 

Eis um fato marcante na área teatral de Adelino Fontoura em São Luís: uma senhora da alta sociedade fora processada criminalmente, porque seviciara um menino, seu escravo, e dessa tortura veio a falecer. O correspondente atestado de óbito, todavia, registrou como causa mortis “ancilóstomo”, o que provocou grande chacota na boca do povo, sobretudo da estudantada do Liceu Maranhense.  Foi o famoso caso da Baronesa de Grajaú (Sra. Ana Rosa Ribeiro), que fora levada a júri pelo promotor de justiça Celso Magalhães, Patrono do Ministério Público do Maranhão e da Cadeira n. 5, da AML, ocupada hoje pelo grande Professor e imortal Agostinho Marques, meu dileto amigo, Mestre e querido paraninfo da nossa Turma de Faculdade de Direito da UFMA (1985).

No elenco da peça “Os médicos”, de uma Companhia teatral pernambucana, Adelino Fontoura, utilizando como pseudônimo “Ator Fontoura”, a certa altura do espetáculo, quando auscultava um “paciente”, para identificar-lhe a doença, levantou a voz e perguntou seriamente; “Não será um ancilóstomo?” Foi o suficiente para a plateia soltar uma demorada gargalhada. Quando o espetáculo findou, indo ele sair do teatro, foi preso por dois soldados, por ordem do chefe de polícia, sem qualquer justificativa. O ator saiu desse episódio muito abalado e triste.

O Jornalista

Após esse fato, decide mudar-se para o Rio de Janeiro para onde se mudara o amigo Artur Azevedo anos antes. Queria ser jornalista e entrar para o teatro. Nada conseguindo na carreira dramática, revelou-se um excelente jornalista e um poeta admirável.

Foi admitido, em 1880, no periódico A Folha Nova, de Manuel Carneiro, onde estreita as relações com Hugo Leal, filho do escritor e ilustre maranhense Antônio Henriques Leal (1828-1885), em cuja casa encontrara fraternal hospitalidade. Apaixonou-se platonicamente por uma sobrinha do autor do Panteon maranhense, que foi sua eterna inspiração poética.

 Posteriormente, Lopes Trovão, consagrado à propaganda republicana, deu-lhe um lugar no recém-fundado jornal O Combate, onde publicou muitos de seus poemas.  Foi o início de Adelino Fontoura na grande imprensa, tendo escrito o terceiro capítulo de um romance, o Imbróglio, em parceria com vinte autores.

Em 1882, seu amigo Artur Azevedo fundou o jornal A Gazetinha e o chamou para ser seu redator. A Gazetinha não durou muito tempo (sete meses apenas), mas lá Adelino Fontoura publicou várias poesias e trabalhos em prosa.

Ferreira de Meneses também fundara, na mesma época, o jornal Gazeta da Tarde, cuja propriedade e redação eram de José do Patrocínio. Para esse jornal Adelino foi convidado por José do Patrocínio e nele também publicou diversos trabalhos em prosa. Múcio Leão considera que a Gazeta da Tarde “foi um dos jornais mais azarentos que tenha havido no mundo”. Iniciou extraordinariamente, e tinha como seus diretores e principais redatores Ferreira de Meneses, Augusto Ribeiro, Hugo Leal, João de Almeida e Adelino Fontoura. Após três anos, nenhum desses rapazes existia mais.

Sua reputação como jornalista continuou crescendo a ponto de, em pouco tempo, ser distinguido com a missão de correspondente do jornal na Europa, com localização em Paris.

No dia 1º de maio de 1883 partiu, no navio Senegal, para Paris, em busca do sonho da literatura e de melhoria de sua saúde. 

De Paris, enviou excelentes matérias, onde havia “esplêndidas revelações da nota poética que sempre dava a todos os seus escritos”.  Segundo o imortal Cabral Marques, dessas, são citadas, como primorosas, a descrição da data nacional, o 14 de Julho, e o estudo sobre a vida e obra do poeta Victor Laprade e do historiador Henri Martin, por ocasião do falecimento desses dois grandes nomes da Literatura Francesa.

Na opinião de Jerônimo de Viveiros, Adelino Fontoura, sobre aquela data magna francesa, “descreveu ponto por ponto da cidade de Paris, procurando todas as recordações históricas […], que mais parecia[m] uma tela esplêndida, onde se refletiam os acontecimentos narrados em escrito feito currente calamo”.

O Poeta

Em razão da brevidade de sua vida (25 ou 29 anos), Adelino Fontoura não chegou a editar livros, mas deixou notáveis sonetos e foi considerado por Josué Montello o “Mestre do Triolé”. Teve um talento despreocupado. Não pensou morrer tão cedo.

Sobre a reconstrução da Obra de Adelino Fontoura registrou, com maestria, o acadêmico José Neres:

Múcio Leão e Tobias Pinheiro comentam que houve várias tentativas infrutíferas de trazer à tona a escassa obra do poeta maranhense. Segundo os pesquisadores, o primeiro a tentar ressuscitar a obra de Fontoura foi Artur Azevedo, amigo do poeta, que tentou reunir os trabalhos do recentemente falecido Fontoura. Mais tarde, em 1904, Coelho Neto, em parceria com Alberto Faria e depois sozinho, em um antológico artigo intitulado “Um apelo” também tentou resgatar os trabalhos do autor de “Celeste”, mas sem sucesso. Escragnolle Dória foi outro estudioso que tentou mostrar o valor do poeta de Axixá, mas o trabalho não foi publicado. Anos depois foi a vez de Luís Murat se encarregar de organizar os poemas de Fontoura que lhe foram entregues por Alberto de Oliveira. Com a morte de Murat, o trabalho ficou perdido. No entanto, há também outras tentativas que vieram à lume, como é o caso do volume “Dispersos”, organizado por Múcio Leão e publicado em 1955, sob os auspícios da Academia Brasileira de Letras. Em 1967, Jerônimo de Viveiros publicou o pequeno, mas consistente volume intitulado “A ficha de Adelino Fontoura na Academia”, um trabalho essencial para compreender a vida e a obra desse esquecido poeta maranhense. Dez anos depois, o pesquisador literário Clóvis Ramos deu continuidade ao trabalho de Jerônimo de Viveiros ao publicar “Alma de Fogo – Adelino Fontoura, poeta, ator e jornalista”, no qual analisa diversos poemas e tenta encaixar o autor na periodologia literária brasileira. 

 5MARQUES, José Maria Cabral. Discurso de Posse na Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, 2001.

Sua obra, esparsa, constitui-se em cerca de 40 poesias, reunidas pela primeira vez na Revista da Academia (números 93 e 117). Foi depois reunida em 1943 e em 1955, por Múcio Leão.  Mais recentemente o acadêmico José Neres, em parceria com Jheysse Lima Coelho e Viviane Ferreira publicaram a obra O Verso e o Silêncio de Adelino Fontoura (2011).

Na realidade, o poeta inédito em livro conquistou bastante popularidade durante sua breve passagem pela vida. Diversas informações dão conta de que os poemas de Adelino Fontoura eram recitados nos saraus de São Luís e em outras cidades brasileiras, sempre com excelente aceitação. Meu avô Durval Soares recitava sempre os poemas de Adelino Fontoura nos Saraus familiares.

Poeta relacionado ao Parnasianismo por conta de seu rigor formal, Fontoura, assim como tantos outros escritores de sua geração, era obcecado pela forma fixa do soneto.

Todavia, o amor não correspondido pela sobrinha de Antonio Henriques Leal exacerbou em Adelino sua veia poética apaixonada: triolé, musicalidade, sensualidade, paixão romântica e rigor formal. Há, portanto, traços que o une ao Romantismo. 

Antes de sua partida para Paris por ser próximo da família Leal, vira sua musa enamorar­-se e casar­-se com outro homem. Por coincidência, os recém­-casados, em lua de mel, viajaram no mesmo dia e no mesmo vapor em que o poeta era passageiro. Pode-­se imaginar a angústia e o desespero de Adelino ao ver a bordo “as naturais expansões de amor daquela mulher, que era seu único amor, ligada a outro homem, seu legítimo esposo”.

Tobias Pinheiro, em artigo dedicado ao poeta, considera Adelino Fontoura um grande poeta e destaca poemas como “Atração e Repulsão” e “Celeste” como textos exemplares dentro da produção literária brasileira.

 

  6NERES, José; COELHO, Jheysse Lima. FERREIRA, Viviane. O Verso e o Silêncio de Adelino. São Luís: JN Edições, 2011.

Celeste

(domínio público)

É tão divina a angélica aparência/ e a graça que ilumina o rosto dela,/ que eu concebera o tipo de inocência/ nessa criança imaculada e bela./ Peregrina do céu, pálida estrela,/ exilada na etérea transparência,/ sua origem não pode ser aquela/ da nossa triste e mísera existência./ Tem a celeste e ingênua formosura/ e a luminosa auréola sacrossanta/ de uma visão do céu, cândida e pura. / E quando os olhos para o céu levanta,/ inundados de mística doçura,/ nem parece mulher - parece santa.

Atração e Repulsão

Eu nada mais sonhava nem queria/ Que de ti não viesse, ou não falasse;/ E como a ti te amei, que alguém te amasse,/ Coisa incrível até me parecia./ Uma estrela mais lúcida eu não via/ Que nesta vida os passos me guiasse,/ E tinha fé, cuidando que encontrasse,/ Após tanta amargura, uma alegria. / Mas tão cedo extinguiste este risonho,/ Este encantado e deleitoso engano,/ Que o bem que achar supus, já não suponho. / Vejo, enfim, que és um peito desumano;/ Se fui té  junto a ti de sonho em sonho,/ Voltei de desengano em desengano.

Já Frederico Reis Coutinho proclama o soneto “Beatriz” entre os mais belos poemas da língua portuguesa:

Beatriz, Beatriz, sombra querida, Branca visão que em toda a parte vejo, És a ventura única que almejo, Que outra igual me não fora concedida. Meu amor, minha crença e minha vida, Todo o bem com que sonho e que antevejo, Tudo o que aspiro e tudo que desejo, A ti te devo, ó alma comovida! Do meu amor não saibas, todavia; Pois se igual amor te não mereço, Antes quero cuidar que o merecia. Sucumbirei à dor de que padeço; Se tal fraqueza chamam cobardia, Eu serei um cobarde por tal preço!

Adelino Fontoura é, simplesmente, o patrono da Cadeira número 1, da Academia Brasileira de Letras. A Cadeira foi inaugurada por Luís Murat, que escolheu o poeta maranhense como patrono da ABL. Atualmente, o assento é ocupado pela escritora Ana Maria Machado. Os demais ocupantes da cadeira foram, pela ordem, Afonso d’Escragnolle Taunay, Ivan Lins, Bernardo Élis e Evandro Lins e Silva.

O Ser Humano – sua personalidade

Membros da Academia Maranhense de Letras recepcionam o novo confrade.

O patrono da Cadeira 38 tinha uma personalidade muito peculiar.

Conforme Aluísio de Azevedo (1857-1913): […] Diz abruptamente o que pensa sobre qualquer assunto ou sobre qualquer sujeito […] Por isso algumas pessoas veem nele um bicho; outras pretendem ver um grande espírito de contradição. Eu vou com os últimos. Fontoura é um imenso espírito de contradição. Ele deixa transparecer o seu talento, porque supõe que com isso desagrada. No dia em que se convencesse que o desejavam inteligente, ele se fingiria estúpido. Não lhe agradava sempre ter que acatar as convenções sociais!

Em resumo, o inesquecível Autor de O Mulato considerava Adelino Fontoura uma pessoa de grande talento, porém extremamente teimosa. Chega a afirmar que Fontoura era a pessoa mais cabeça dura que ele havia conhecido em toda a sua vida.

Segundo o acadêmico José Neres, Adelino Fontoura, vítima de uma laringite crônica, lutou contra a doença durante bastante tempo, sem muito resultado. Aconselhado por José do Patrocínio, o então proprietário do jornal no qual trabalhava, Adelino Fontoura buscou tratamento na França, para onde foi transferido como correspondente da Gazeta da Tarde. No primeiro dia do mês de maio de 1883, embarcou para a Europa para trabalhar e tentar encontrar a cura para sua enfermidade. Exatamente um ano e um dia depois de sua partida do Brasil, no dia 2 de maio de 1884, faleceu em um leito do Real Hospital São José, em Lisboa, onde estava internado. Segundo Tobias Pinheiro, os poucos bens do escritor foram enviados para suas irmãs, no Maranhão.

Seus restos mortais jazem na carneira nº 5.244, no Cemitério Oriental, na capital lusitana.

Para aqueles que questionam o valor e o alcance do poeta Adelino Fontoura, eu o comparo na poesia brasileira a Roland Barthes na semiologia e Luís Murat a Michel Foucault, que souberam tornar visíveis os invisíveis, de grande mérito e valor.

Disse, com propriedade, Cabral Marques: 

Adelino Fontoura, não há dúvida, teve uma vida que me surpreende. Para mim, é um gênio. Nascido em um povoado do interior do Maranhão, com apenas instrução primária, muito pobre, sem qualquer linhagem fidalga ou elevada posição social, morrendo aos 25 anos de idade, sepultado longe da pátria, sem ter publicado um livro sequer, impôs-­se intelectualmente no Rio de Janeiro e veio a ser patrono da Cadeira n° 1 da Academia Brasileira de Letras.

É verdade que, nos últimos anos, vem crescendo o quantitativo de fontes bibliográficas sobre esse escritor maranhense, o que revela tardio, mas merecido reconhecimento do seu talento versátil.

Minhas homenagens ao patrono Adelino Fontoura, portanto, com o soneto feito para ele por Arthur Azevedo, com muita saudade:

Em dura rocha a fibra de amianto/ Nasce, viceja, estende-se, subsiste,/ Porém, femíneo coração resiste/ Da poesia ao langoroso encanto./ É que ontem vi passar, pálida e triste,/ A moça injusta que adoravas tanto…/ Não tinha os olhos túmidos de pranto/ Aquela a quem debalde amor pediste./ Desses olhos, um dia, bem no fundo, / Num flamejar de brilhos inquietos,/ Viste fantasma de um desdém profundo./ Vingado estás daqueles olhos pretos,/ Ela, a tua musa, ficará no mundo/ Órfã dos teus esplêndidos sonetos.

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O Fundador: Franklin de Oliveira

Ao fundar-se a Cadeira n. 38 da Academia Maranhense de Letras, em 1948, seu fundador - José Ribamar de Oliveira Franklin da Costa – Franklin de Oliveira - não teve dúvida em escolher Adelino Fontoura como Patrono, apesar das severas críticas de Humberto de Campos, quanto aos “ilustríssimos desconhecidíssimos” intelectuais.  Eis aí nosso Michel Foucault maranhense que rompe com a lógica formal dos intelectuais e resgata a memória do poeta nascido à margem esquerda do Rio Munim, que era “íntimo de Homero, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Platão, Hesíodo, Píndaro, Shakespeare, Dante, Vítor Hugo e Augusto Comte”, fazendo-lhe o reconhecimento público devido.

Franklin de Oliveira foi jornalista, escritor e crítico literário de renome, nasceu em São Luís (MA) no dia 12 de março de 1916 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 6 de junho de 2000. 

Em São Luís, o jovem Franklin de Oliveira aprendeu teoria musical com o maestro Pedro Gromwell e violino com Henrique Blum. Seus pais, Waldimir Franklin da Costa – primo-irmão do poeta Vespasiano Ramos - e Guiomar Oliveira da Costa, eram admiradores da boa música. Um quinteto doméstico, “todas as noites, após o jantar, executava as partituras de preferência da família”. Ao piano, a filha Ibana; com o bandolim italiano, a mãe, e com três violinos, os filhos Heitor, Danúzio e Franklin. Sua irmã – Guiomar – muito conhecida da minha família, tornou-se madre da congregação Santa Dorotéia.

Estudou no Colégio São Luís Gonzaga e no Liceu Maranhense, onde concluiu seu curso secundário. Teve como mestres. literários: Nascimento de Moraes, Ruben Almeida, Mata Roma, Alcides Costa e Antônio Lopes. 

Começou sua carreira de jornalista aos 13 anos no Jornal “A Tribuna”, de seu tio Agnelo Costa. Ainda em São Luís, militou, ao lado de grandes nomes da imprensa: em O Imparcial, com Antônio Lopes; na Folha do Povo, com Tarquínio Lopes Filho; na Pacotilha, com Nascimento Moraes; no Diário do Norte, novamente com Antônio Lopes, e no Diário da Tarde, com Reis Perdigão.

Por influência de Antônio Lopes, matriculou-se na Faculdade de Direito.

Pertenceu ao Cenáculo Graça Aranha. Nesse período, buscou conhecer os autores maranhenses. Com eles teve intimidade devido a suas leituras e pesquisas na famosa biblioteca particular de Wilson Soares; o acesso a ela foi-­lhe propiciado por José Neves de Andrade, seu amigo. 

8http://www.academiamaranhense.org.br/jose-maria-cabral-marques/ [S.D.]

Em 1938, aos 22 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, partindo a bordo do Comandante Riper, na companhia de Manoel Caetano Bandeira de Melo. Abandonou, assim, o curso jurídico em que ingressara.

Seu primeiro vínculo carioca foi no jornal A Notícia, como redator. Laborou, também, na década de 30 para a revista Pif-Paf e em 1944 transferiu-se para a redação do O Cruzeiro, onde por 12 anos escreveu a coluna de abertura da revista intitulada Sete Dias. 

Pelo seu reconhecido desempenho na imprensa carioca, recebeu convite dos partidos de esquerda para ser candidato a deputado federal. Pretendia atuar na cena política, mas não tinha interesse em disputar cargo eletivo no Rio de Janeiro.

O seu objetivo era participar da vida pública do seu estado de origem. Por isso, quando os partidos e os políticos começaram a desenvolver ações com vistas às eleições de 1950, Franklin de Oliveira veio a São Luís sondar o quadro político maranhense. Candidatou-se pelo Partido Social Trabalhista - PST, mas não obteve vitória no referido pleito eleitoral. Ficou conhecido, todavia, no Maranhão, como “Nome Nacional”.

Em 1956, tornou-se editorialista e crítico literário do jornal Correio da Manhã.

No Rio de Janeiro, suas afinidades intelectuais levaram-no a aproximar-se, entre outros, de Joel Silveira, Jorge Amado, Marques Rebelo, Victor Nunes Leal, Cândido Portinari, Josué Montello, Araújo Castro, Ignácio Mourão Rangel, Millôr Fernandes, Hélio Fernandes, Herberto Sales e Nelson Rodrigues.

 Em 1960, transferiu-se para Porto Alegre, onde teve intensa atividade política e uma carreira como gestor público.  Foi secretário-geral do Conselho de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul, no governo Leonel Brizola (1958- 1961). Em seguida, atuou como representante desse estado junto no Banco de Desenvolvimento Regional do Extremo Sul. Exerceu, ainda, significativas funções administrativas na Petrobrás quando, depois do movimento político-militar de março de 1964, teve seus direitos políticos suspensos pelo Ato Institucional nº 1. Retornou então ao jornalismo.

9https://www.blogsoestado.com/buzar/?s=franklin+de+oliveira [S.D.]

Foi redator do jornal O Globo. A partir do final de 1970 passou a trabalhar no departamento de pesquisa do jornal. Colaborou, nessa mesma época, para a Folha de São Paulo, com memoráveis artigos políticos.

Destacou­-se, em resumo, em A Notícia, O Radical, Diário da Noite, Boletim Mercantil, Correio da Manhã; e manteve seções nas revistas O Cruzeiro (Sete Dias), A Cigarra (Imagens do Instante Perdido), Letras e Artes (As Horas Antigas), e, por último, na revista Senhor/Isto É.

Publicou: Ad Imortalitatem (1935), Sete Dias (1948), A Fantasia Exata (1959), Rio Grande do Sul, um Novo Nordeste (1962), Revolução e Contra-Revolução no Brasil (1963), Viola d’Amore (1965), Morte da Memória Nacional (1967 e reeditada em 1993), A Tragédia Da Renovação Brasileira (1971), Literatura e Civilização (1978), Euclides: a Espada e a Letra (1983), A Dança das Letras (antologia crítica, 1991) e A Semana da Arte Moderna na Contramão da História e outros ensaios (1993). 

Recebeu valiosos prêmios: Golfinho de Ouro de Literatura, em 1978, atribuído pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, e Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1982, pelo conjunto da obra.

O grande João Guimarães Rosa escreveu um poema (Grande Louvação Pastoril à Linda Lygia Maria), para celebrar o nascimento da filha de Franklin de Oliveira.

Recentemente, tive a honra e a alegria de manter contato com sua filha Dra. Lygia Maria Franklin da Costa Seixas, médica e psicóloga, que reside no Rio de Janeiro, e pude perceber, de perto, o humanismo do Fundador da Cadeira n. 38 da AML.

Franklin de Oliveira - um humanista por excelência, desde criança, acompanhava o inesquecível Dr. Odorico Amaral de Matos em suas andanças nos bairros pobres de São Luís. Tornou-se um crítico jornalista de uma sociedade ainda pautada em valores semifeudais e oligárquicos em meados do século XX. Intelectual que reconheceu na arte, na música e na literatura uma possibilidade de transpor a realidade precária do homem subordinado a fatores sociais, econômicos e políticos capazes de oprimi-lo, submetendo-o a uma racionalidade cada vez mais tecnológica e ao resgate do humanismo, como instrumento de libertação.

O teor da crítica literária e política de Franklin de Oliveira está entrelaçado aos valores estéticos da obra literária, reconhecendo que a literatura e a arte têm como função fundamental, livrar o ser humano da crescente alienação a que está exposto.

Disse o Humanista por excelência:

Cultura, literatura são fatos dinâmicos, dialéticos – vivem em incessantes devenir, param apenas quando se esgotam (Fantasia Exata). 

O ensaísta é, por excelência, um experimentador. Sua virtude máxima é excitar estimular, incitar à problemática, conduzir à indagação e à dúvida (Viola d’Amore).

Eis, portanto, o valor da utopia como mola propulsora de mudanças, por apresentar um mundo irreal passível de ser experimentado. Embora o ideal de perfeição por si só seja um projeto impossível, a utopia oferece a base para a evolução e para a mudança do mundo e das pessoas. Nesse ponto, F. O. valoriza a ideia e a fantasia como fatores de mudança. A libertação do homem deriva de atitudes concretas, mas ela tem sua origem primeira no sonho. 

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O Antecessor: José Maria Cabral Marques

Nasceu em São Luís, a 17 de setembro de 1929. Filho de José Agripino Marques e de Martinha Cabral. Casado com Marinice Lima Cabral Marques.  Pai de Maria de Fátima, Maria de Lourdes, Maria do Carmo, Maria Fernanda, José Artur, José Cláudio e Maria Cristina. Deixou 22 netos e 18 bisnetos.   Faleceu em 27 de maio de 2020.

Graduou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Luís e em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da antiga Universidade do Maranhão. Doutorou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Recife – UFPE e fez mestrado em Ciência Política, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa.

  10SILVA, Elizandra Fernandes Reis. Um Estudo sobre os Ensaios Jornalísticos de Franklin de Oliveira: A Face de uma das Críticas Rosianas. Dissertação de mestrado. Belém: dissertação – UFPA, 2012

Fez ainda os cursos de Filosofia Jurídica, de Direito Político e de Teoria Geral do Estado, todos pela Universidade de Mogúncia, Alemanha; de Planejamento Educacional, patrocinado pela ONU/Unesco-Ilpes-CEPAL, Buenos Aires; Estágio em Administração de Rádio e TV Educativos, sob a supervisão do Institut Pédagogique National, Paris; em Capacitação de Recursos Humanos, no Centro Interamericano do Instituto de Relações Humanas, Universidade de Loyola, New Orleans, Estados Unidos; Foi Visiting Scholar em Estudos e Pesquisas, no Centro de Estudos Latino-Americanos, da Universidade da Flórida, Gainesville, Estados Unidos.

Cabral Marques foi, por concurso, escriturário do Instituto dos Industriários – IAPI, São Luís; oficial de administração do IAPI, Aracaju, Sergipe; promotor público e juiz de direito no Maranhão; procurador autárquico do IAPI, São Luís; professor de Introdução à Ciência do Direito, Faculdade de Direito da Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

 Exerceu os seguintes cargos e funções:

a) Setor Público:

No Maranhão: Secretário de Estado da Administração; da Fazenda (interino); da Educação e Cultura; do Trabalho e Ação Social. No Amazonas: Secretário da Educação e Cultura; Presidente da Fundação Educacional do Amazonas; Presidente da Fundação Cultural do Amazonas; Presidente da Fundação Televisão Educativa do Amazonas.

b) Setor Privado:

Diretor-geral do Departamento Regional do Sesc e do Senac, no Maranhão; diretor-geral da Associação Brasileira de Teleducação – ABT, Rio de Janeiro.

c) Instituições Universitárias públicas e privadas:

Diretor interino da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade do Maranhão (católica); Vice-reitor da Universidade do Maranhão (católica); reitor da Universidade Federal do Maranhão – UFMA; vice-diretor-geral, cumulativo com o exercício do cargo de diretor-geral das Faculdades Integradas – Ceuma; reitor do Centro de Ensino Universitário do Maranhão – Uniceuma; diretor-geral da Faculdade do Vale do Itapecuru – FAI, Caxias-MA.

Participou de várias associações universitárias e recebeu diversas medalhas e condecorações no Brasil e no Exterior, em países como Estados Unidos, França, Portugal, Alemanha e México.

Sua Obra é voltada para a Educação, para a Cultura, para a Gestão Pública e para o Direito: O Pensamento do Reitor Cabral Marques Expresso em Palavras (discursos). São Luís: UFMA, 1988; José Sarney (70 anos), Um Perfil de sua História (depoimento). São Luís: Editora Alcântara, 2000; Discurso de Posse na Academia Maranhense de Letras. São Luís: Edições AML, 2001; Memórias. In Memórias de Professores. Histórias da UFMA e outras histórias. São Luís: UFMA, 2005; História Oral do Exército: História Oral do Projeto Rondon (depoimento). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2007.

Tem, inéditos, um livro de poemas e monografias de Ciência Política.

Sua trajetória na Educação, na Cultura e no Direito são inesquecíveis. Muitos avanços do sistema educacional dos Estados do Maranhão e do Amazonas e da Universidade Federal do Maranhão têm as marcas decisivas da mente privilegiada do imortal Cabral Marques.

Foi considerado pelo acadêmico Sebastião Moreira Duarte como uma figura imperial par excellence, nascido sob o signo da magnificência. Não por haveres de família ou por brasões dinásticos, mas por ser um homem de fé e de obras; pôs-se a serviço: servir, ministrar e administrar.

Com efeito, foi um homem de ação, de decisões e de antecipações, com senso de habilidade criativa e crença fundamentalista na técnica. Homem do trabalho, em cuja força educadora advertiu a gregos e troianos que uma academia de letras pode ser mais que uma academia de literatos. O relevante valor cultural de Cabral Marques expressa a máxima de que a educação é também uma arte poética, que serve à literatura e que liberta a escravidão do analfabetismo, real e funcional, produzindo os leitores de ontem, de hoje e de amanhã. 

Nossas homenagens, pois, ao imortal Cabral Marques e à sua dileta família, aqui representada por seu filho José Cláudio, amigo meu desde o Colégio Marista. Aliás, tive a honra de ser seu colega na Faculdade de Direito da UFMA, ao lado de Nicolao Dino e Rita de Cássia Baptista, todos admiráveis Membros do Ministério Público brasileiro, aqui presentes também para minha alegria.

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A grandeza e a sobrevivência das instituições repousam no compromisso, na força e na lucidez de homens e mulheres que as integram e dirigem, capazes de infundir-lhes concretude, alma e coração. 

 E não lhes basta o sopro inicial: ele se dissipará no tempo, se não o alimentar o vigor das novas gerações. Retemperadas, podem sobreviver às crises e àqueles que as criaram e perpetuar-lhes a memória da imortalidade.

   Eis-me aqui à disposição das letras maranhenses. Na minha modesta produção, trago alguns artigos, ensaios e oito livros (quatro obras na área do Direito e quatro obras na área interdisciplinar, com as temáticas da Educação, da Literatura, da Cultura e dos Direitos de Fraternidade).

   Derrubaram-se mitos e ideologias, na sociedade contemporânea, com repentina e radical mudança de paradigmas. Surgiram a informática, o DNA, os transgênicos, o genoma, a telefonia celular, a fecundação laboratorial e a inteligência artificial, dentre tantas outras inovações e avanços da ciência. A sociedade passou a reivindicar, neste 3º milênio, novos parâmetros sociais e um novo modelo de convivência humana. Vive-se um tecido social complexo e extremamente veloz.

Byung-Chu Han, teórico sul-coreano ressalta que vivemos numa sociedade que se afasta cada vez mais do esquema imunológico do dentro/fora. “A sociedade do Século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos.” 

Zygmunt Bauman, polonês com registros fantásticos em Israel e na Inglaterra, constata que a modernidade imediata é “líquida” e “veloz”, mais dinâmica que a modernidade “sólida” que suplantou. A passagem de uma a outra acarretou profundas mudanças em todos os aspectos da vida humana. A modernidade líquida seria “um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”. Na sociedade contemporânea, emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações. Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar. 

E o Papa Francisco adverte, com clareza meridiana: Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência.

Nessa linha de raciocínio, a ideia de fraternidade tem condições de gerar uma contribuição específica à vida política institucional e ordinária, porquanto sua origem remonta a uma ligação universal entre seres igualmente dignos que tem por resultado um complexo sistema de solidariedade social e atenção aos necessitados, à luz da imperatividade de afirmação da ética pública. 

Na condição de categoria política, o ideal fraternal promete refundar a prática democrática, ao compatibilizar o relacionamento entre a igualdade (paridade) e a liberdade (diferença), em prol de uma causa única subjacente ao bem comum da humanidade. Por conseguinte, o conteúdo desse princípio expressa-se pela condição de igualdade entre cidadãos em condições irmanais que sirva de suporte ao desenvolvimento livre de cada qual na sua própria diversidade. Em síntese, a fraternidade consiste em método e diálogo da política na medida em que deve ser parte constitutiva do processo de tomada de decisões públicas e guia hermenêutico das demais normas em interação dinâmica.

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