
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
DESDE QUE O SAMBA É SAMBA,
(antes de virar um belo Cordel).
Mhario Lincoln*
O imortal Noel Rosa retrata fielmente, em uma letra de 1933, cheia de ironias, como a sociedade da época - os aristocratas especialmente - enxergavam os sambistas, compositores e artistas populares de um modo geral. Essa música a que me refiro acima, estourou nas paradas de sucesso no mesmo ano e se chamava “Filosofia”, composta com André Filho.
Diz assim: "Não me incomodo que você me diga/Que a sociedade é minha inimiga/Pois cantando neste mundo/Vivo escravo do meu samba,/ muito embora vagabundo/ Quanto a você da aristocracia/ Que tem dinheiro, mas não compra alegria/ Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente/ Que cultiva hipocrisia".
Cito isso para mostrar como foi difícil, na época, para os grandes sambistas brasileiros ganharem o respeito de seus trabalhos, junto à classe maior que controlava o país, mesmo que o povo cantasse nas ruas e ouvisse grandes composições todos os dias em certas emissoras de rádio. Aconteceu com o próprio Noel, Herivelto Martins, Donga, Chiquinha Gonzaga, Jovelina, Cartola e tantos outros nomes tão bem citados nesse trabalho primoroso do meu amigo e confrade Pedro Sampaio, vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira, seccional do Ceará.
Ora, se em 1933 era assim, imagina na época de Donga que até se inspirou para fazer um dos mais conhecidos sambas da história brasileira: “O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar”. Isso em 1916.
Por isso, quaisquer que sejam as homenagens aos sambistas brasileiros, seja de Norte, Sul ou Nordeste, são de muita valia, pois ratificam a coragem e o orgulho desses artistas em produzir o gênero musical brasileiro considerado um dos elementos mais representativos da cultura popular do Brasil.
Mas a luta desses homens e mulheres foi ferrenha. Especialmente contra a aristocracia, que controlava quase todas as emissoras chiques do rádio nacional, em cujas programações eram tocadas em 99% do dia, músicas estrangeiras.
O preconceito contra o samba não se materializou somente nas emissoras. Mas também, na repressão policial das primeiras décadas. Eu vivi esse momento, fins dos anos 70, quando extrapolou para o lado físico e moral.
Lembro-me, assim, de ter lido um depoimento de Monarco, grande compositor portelense, que comprova essas atitudes insanas: “Nós éramos discriminados. Vi muito sambista ser preso só porque tinha na mão um pandeiro.”
Por isso e por causa disso que Pedro Sampaio teve a brilhante ideia de compor estes versos numa homenagem - antes de tudo um histórico respeito - aos inúmeros sambistas que passaram pelo Brasil e sempre vestiram uma camisa listrada e saíram por aí, com um canivete no cinto e um pandeiro na mão, como acrescenta parte da letra de "Camisa Listrada", do inesquecível Assis Valente.
Quem lê este trabalho, se emociona a cada Septilha. Como essa, a seguir: "Samba de ASSIS VALENTE/ ATAULFO, ADONIRAN/ Viagem no TREM DAS ONZE/ SAUDOSA MALOCA sou fã/ CHICO com sua RODA VIVA/ A BANDA tão expressiva/ COMO SERÁ O AMANHÃ? (...)".
Da mesma forma, muitos bons sambistas brasileiros se perguntaram inúmeras vezes: “Como será o Amanhã?”
E Simone responde: “Como será amanhã/ Responda quem puder/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser (...)”.
Hoje, o cenário se mostra mais acessível ao samba e aos sambistas. Mas, antes que esse ritmo dê lugar a outros gêneros e a memória musical de inúmeros donos de cavacos, de pandeiros e de violões se percam no tempo, esta homenagem de Pedro Sampaio assume um papel de incomensurável importância, pois consagra e sela, em definitivo, a memória indelével de muitos nomes, verdadeiros soldados - homens e mulheres - que lutaram para que O SAMBA E SAMBISTAS chegassem a um século perfeitamente rejuvenescidos, conforme cada nota seja vibrada no cavaco ou violão, ou cada batuque na retinta do coração seja ouvido, na somatória de emoções que se misturam no zunir dos reco-recos, no cintilar da luz nas contas coloridas das cabaças rítmicas, no murmurar do chocalho, no grito do tamborim e na marcação forte do surdo.
Todos, acessórios indispensáveis para movimentar o ritmo forte das rainhas das baterias e dos apreciadores do samba raiz, todos, literalmente soltos no universo dos sonhos.
Parabéns, Pedro Sampaio. Curvo-me a tão significativa homenagem.
*Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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Bônus: abaixo o link para ler as anotações originais de Pedro Sampaio
https://www.flipsnack.com/portalmhlb/1-s-culo-de-samba-por-pedro-sampaio.html
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