ROMANCES SÃO ROMANCES? ESTE, TEM ALGO A MAIS!
*Mhario Lincoln
Os romances são quase únicos. Mas os grandes romances englobam sutilezas de uma Agatha Christie. A linha do romance "psychological terror", muito usados por centenas de escritores americanos, russos, italianos estão atualmente entre os mais vendidos no Mundo. Porém, um imensurável latino chamado Gabriel García Marquez, deu o nó nas narrativas do gênero, engrandecendo o thriller.
Quando comecei a ler Ahtange Ferreira, senti a sensação (cronológica) parecida com o começo de "Cem anos de Solidão", (..."muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo").
Aparentemente similar ao susto que o personagem Helena sofreu ao ver Rob, às primeiras páginas do romance "Psicopatia, o inimigo pode estar ao seu lado", grande enredo de ação e suspense, com toques de textualização sensual e com excertos da indigência humana.
Não quero me referir à história. Mas às técnicas usadas no desenrolar das páginas, como aquela maneira dos personagens "pensarem com seus botões". Inclusive com grafia diferenciada. É simplesmente genial. Faz o leitor entrar na trama e sentir-se envolvido. Não são todos os bons romances que usam essa diversidade atraente.
Desta feita, leio essa técnica parecida, através dessa incrível contadora de histórias, a maranhense Ahtange Ferreira, superelogiada pela crítica. A bela trama é envolvente. Vários personagens desfilam no enredo. Também me lembrou outro maranhense: Josué Montelo, dono de incluir em seus romances, uma quantidade significativa de nomes.
Outro diferencial na história: a autora sempre escreve sob um tema contundente. Desta feita, a questão da Psicopatia como pano de fundo, encorpando a narrativa com informações importantes de certos detalhes comportamentais que passariam despercebidos em uma linguagem literária outra. E muito mais se fossemos obrigados a ler os livros psiquiátricos, técnicos, sobre o assunto.
Isso, Ahtange deve ter feito minuciosamente.
Outro fato interessante tem como foco a mudança de comportamento de Alex Fontes. A esse personagem, a autora deve ter se debruçado noites e dias, a fim de adaptá-lo às normas médicas, invés de jogar palavras na parede, isto é, escrever aleatoriamente nas páginas em branco. A partir daí, o enredo é muito forte. Preocupante até. Parei na página 167 (calma, não vou dar spoiler) e só avancei, depois de raciocinar bastante sobre todos esses fatos predispostos até aquele momento.
Torcia a cada virada de página pelas vítimas. Não é assim? A tendência é essa. Na verdade, tive que retomar o capítulo 17 inteiro. E nele, mutatis mutandi, revivi um grande clássico do cinema: "Psicose" (o livro é simplesmente espetacular), do genial Robert Bloch. Em alguns momentos, a maneira perspicaz como Ahtange escreve segue, através de sua escrita clara e explicativa, alguma coisa de Bloch.
Na verdade, a trama de Ahtange Ferreira não fica devendo em nada para alguns livros americanos de suspense psicológico ou da literatura inglêsa, como o de John Fowles, autor de "O Colecionador", de 1963. Claro, é outro enredo. Mas há explícitas linhas de psicopatia.
Meu interesse se deu, não só como um leitor comum que busca distração, mas como uma viagem, anotando cada momento em que (como no "Cem Anos de Solidão"), se volta no cronológico e se faz conexões estranhas em nossas próprias vidas, relembrando fatos não tão distantes assim. Ou mesmo, cutucando o imaginário coletivo e trazendo de lá exemplos incríveis de pessoas que se dedicam a mostrar e a ensinar dicas, em forma de história, de como superar momentos tristes e infelizes no decorrer da nossa existência.
Destarte, há uma coisa que quero confessar, seguindo a velha frase de Liev Tolstói, escritor russo de grandes obras literárias, como “Guerra e Paz” e “Ana Karenina”. Ele disse: “Se queres ser universal pinta a sua aldeia”. Parece ser esse o caminho da autora, tendo conceituado toda essa saga em torno da Ilha de São Luís. Com certeza, com essa fórmula, Ahtange Ferreira se tornará universal logo, logo!
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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Vale à pena.
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