Quinta, 19 de Maio de 2022

Poucas nuvens

Curitiba - PR

Brasil Fortaleza CE

VICEVERSA: Pedro Sampaio /Mhario Lincoln/Pedro Sampaio

"Na vida nunca deixe de aprender / Pois a vida jamais deixa de ensinar / Nas derrotas não se deixe abater / E nas vitórias não venha se assoberbar". (Pedro Sampaio).

14/04/2022 às 18h08 Atualizada em 15/04/2022 às 09h44
Por: Mhario Lincoln Fonte: VICEVERSA
Compartilhe:
Pedro Sampaio/Mhario Lincoln/Pedro Sampaio
Pedro Sampaio/Mhario Lincoln/Pedro Sampaio

Perguntas de Mhario Lincoln para Pedro Sampaio

Mhario Lincoln - Exatamente em qual momento sua vida deu um giro de 360 graus, fazendo-o decidir ser poeta? Haviam outras opções anteriores?

Pedro Sampaio - Querido Menino de Flor de Lys, Nobre Mhario Lincoln, na vida eu creio que tudo parte de sonhos e eu sonhei ser Radialista e que na trajetória pudesse ter a Poesia associada a minha história, esse casamento fluiu e hoje essa simbiose Rádio/Poesia, virou minha essência de coração e o sangue que nele é bombeado.

MHL - Tenho acompanhado sua paixão por Luiz Gonzaga. Fale sobre a grande festa que você promove no Ceará e que resgata essa Nação Gonzaguiana de muitos pontos do País.

PS - Mhario, desde criança e a partir de ter sido ele o primeiro artista que vi na vida nasceu essa paixão pelo Eterno Rei do Baião, fui colecionando seus discos, lendo tudo que pude e posso sobre ele fui conduzido a apresentar Programas de Rádio e TV e tocando Projetos sobre o Universo Gonzagueano, bem como versar sobre Gonzaga e sua obra, em vários trabalhos publicados, culminando no ano de seu Centenário com um Cordel em Cem Estrofes e instituindo através do Programa radiofônico o Evento TROFÉU CENTENÁRIO para agraciar promoventes e atores da cultura nordestina com forte foco na musicalidade gonzagueana.


MHL - Difícil administrar o Sucesso com humildade. Muitas vezes a Soberba é um inimigo poderoso na carreira de qualquer ser humano. Como você consegue driblar essa tendência, aparentemente companheira “inseparável” de quem chega ao patamar da carreira?

PS Sem nenhuma pretensão de achar que sou alguém que atingiu sucesso, eu te asseguro Mhario, que sigo me imunizando sempre contra o tal de: "eu isso, eu sou aqui, eu aqui e aquilo outro. Pra mim isso é plenamente expurgado do meu Ser e prevalece em mim o nós”. Soberba, Arrogância, Vaidade, Ganância Prepotência é um quarteto de adjetivos covardes e te abandonam na hora da queda e/ou descida à sepultura. Simples serei sempre, humilde serei em toda caminhada, porém humilhar ou ser humilhado. Jamais!


MHL - Você tem uma facilidade incrível de compor septilhas ou mesmo fazer 100 delas em curto espaço de tempo. Como acontece esse processo criativo?

PS Querido Mhario, como enfatizo sempre tudo é do Pai. Deus inspira e a gente escreve, o processo criativo a partir desse princípio, ele surge do compromisso assumido na meta que busco alcançar e vou me moldando a não deixar que o trabalho se torne repetitivo no enredo, cada tema busco na pesquisa tentar trocadilhos que atraem a leitura e vibração nas estrofes descritivas e assim vou trilhando essa marca de Cordéis que retratam centenários.


MHL - Uma coisa muito interessante é a atenção especial que você dá à continuidade da tradição nordestina. Na festa que você promove, há sempre crianças e adolescentes participando, seja com a Sanfona, a Zabumba ou o Triângulo sonoro. Fale-me sobre.

PS - Nenhuma Floresta é eterna se não for reflorestada ao se espalhar e se plantar sementes. Assim é nossa Árvore Cultural. Se não houver zelo com as sementinhas que fazem brotar talentos plantando, regando e oxigenando a criançada para amar e abraçar nossas tradições, estaremos fadados ao extermínio cultural. No sanfoneirinho de hoje está o seguidor de Gonzagão do amanhã, teoria aqui que eu associo, na prática com meu filho, Daniel Frota, é exemplo mais próximo que posso mostrar além de outros nomes que vi crescer e que eu participei contribuindo com o seu germinar.


MHL - Essa vontade de tornar imortal esse andor de esplendor da música nordestina, deve ter lhe levado a aplaudir os títulos de Patrimônio Imaterial da Humanidade que vários gêneros autênticos que você gosta muito receberam, certo?

PS Certíssimo amigo! Tivemos uma luta árdua para aplaudir hoje aprovado pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial e Cultural do País, na sequência, Cordel, o Repente e por último o Forró. Essas conquistas me deixam bastante feliz, orgulhoso e realizado.


MHL - Como o Ceará enxerga o valor do músico autêntico? Muitas vezes, não é só a seca que maltrata o jovem nordestino. Mas a falta de chance dos poderes responsáveis pelo incentivo artístico que impede muitos talentos crescerem e se multiplicarem. Você concorda?

PS Mhario todo aquele que busca resistir impondo condições de não se corromper de se prostituir cedendo ao rolo compressor midiático e manter sua vocação de defender sua arte, mantendo viva as tradições, estes são alijados na maioria das vezes dos projetos, essa questão é crucial tanto quanto as intempéries naturais.
E destrói sonhos e castra talentos muitas vezes matam no nascedouro.


MHL - Pelo visto, você recebe diariamente um carinho muito grande não só de cearenses, mas praticamente de vários cantos do Brasil, com diversas manifestações de apreço. Isso lhe ensina ou lhe empodera?

PS Posso iniciar essa resposta através do começo de uma canção que escrevi a letra e diz assim: "Na vida nunca deixe de aprender / Pois a vida jamais deixa de ensinar / Nas derrotas não se deixe abater / E nas vitórias não venha se assoberbar".
Receber manifestações de carinho alimenta meu coração e aumenta a responsabilidade de ser respeitador, atencioso, carinhoso e manifestar sempre gratidão ao receber das pessoas essas manifestações sempre retribuídas e na máxima Franciscana "É dando que se recebe".

MHL - Quais os versos que lhe fizeram cair lágrimas, após concluído? Tem algum trabalho preferido?

PS Mhário asseguro que foi "Dez anos sem te vê", poema que fala de meu pai. Cada palavra que ia formando versos, lágrimas iam caindo e aumentando seu curso ao se concluir cada estrofe. Poema preferido é a poesia mote e título de livro: "Minha Nordestinidade Abraçando a Poesia". É meu DNA poesia.

MHL - Ser hoje Cidadão da Capital do Ceará, depois de ter recebido outras comendas lhe deixa ainda mais feliz por ter nascido em Caucaia-CE?

PS - Mhario sempre disse que tinha três orgulhos na vida e na ordem da importância afirmava; 01, ser filho de quem sou. 02, ter nascido onde eu nasci e 03, apaixonado por rádio e poesia. Hoje, acrescento o orgulho de ser também Cidadão Groairense e Fortalezense. Assim, posso inflar o peito, soltar a voz e dizer: "Sem temer a caminhada / Vou cumprindo meu destino / Sem cometer desatino / Vou aonde Deus levar / Eu só vou me preocupar / Em andar sempre na luz / Deus não me dará uma cruz / Que eu não possa carregar". Grande abraço Mestre Nordestino Costurado na Raiz.


---------------------

De Pedro Sampaio para Mhario Lincoln

Boto o meu chapéu de couro / Vou vestir o meu gibão / Galopar num papo de ouro / Com um cabra do Maranhão / Que partiu da Ilha do Amor / Com tino de criador / Curitiba conquistou seu coração:

01-PEDRO SAMPAIO -Mhario Lincoln, me responda com diretriz: essa República é um só Brasil? Ou temos mais de dois Brasis?

MHARIO LINCOLN - Temos vários "brasis", sim. Pelo menos, na concepção de Darcy Ribeiro, há, pelo menos, 5 Brasis. Está no livro “O Povo Brasileiro”, que aborda a história da formação étnica e cultural da nossa gente. Na obra lançada em 1995, o autor sugere o Brasil sertanejo, O Brasil crioulo, O Brasil caboclo, O Brasil caipira e o Brasil sulino. Entretanto, o que mais me alegra é saber da forma inexorável como esses "brasis" sobrevivem entre si, produzindo arte, literatura e música de forma esplendorosa. De Norte a Sul, Leste ou Oeste, há uma explosão encantadora de atividades culturais diversificadas. Desde o KWORO KANGO, canto indígena da tribo KAYAPÓ, passando por ASA BRANCA, de Gonzaga ou pelas Toadas de Bumba-Meu-Boi, do Maranhão, até o Vanerão, do Rio Grande do Sul. Uma prova que nosso país é artisticamente abençoado por Deus. Talvez para esquecer tantos problemas internos que boa parte da população vive, "matando um leão por dia, para sobreviver em paz...".

02 - PS - Nascido no Nordeste num estado de características diferentes dos demais oito estados, precisamente em São Luís, vivenciou infância, adolescência, juventude e parte da vida profissional. Que ventos conduziram seu barco ao Sul e o que o fez atracar de vez em Porto Sulista?

MHL - A questão básica: crescimento e conhecimento. Precisava de outras oportunidades de trabalho. Então, para testar isso, escolhi Curitiba-PR. Foi ótimo! Desenvolvi experiências muito especiais. Fiz um portfólio, como designer gráfico, para a indústria de camisetas "Branca Pura". Depois, no jornal "Indústria e Comércio", integrei a equipe que elaborou o Caderno Especial da visita do, então, Príncipe Akihito, do Japão, ao Paraná. Em seguida, recebi convite do Raul Plasmmann (ex-goleiro do Cruzeiro e Flamengo) para fazer parte do Gabinete dele, quando escolhido para ser o Secretário de Esportes e Lazer de Curitiba. Assim, fui ficando. Isso porém, não me fez (e não fará) esquecer minha velha São Luís-MA. Mesmo porque, Curitiba tem algumas coisas que me transportam para lá. O paralelepípedo que restou no calçamento da rua Riachuelo, no centro da capital do Paraná, rasga meu mindinho, da mesma forma que a antiga Rua Grande o fazia, quando andava de chinelos de dedo. Quando o sol se revolta contra a umidade e frieza de Curitiba e se alarga no parapeito da saudade, sinto-me à beira-mar de São Luís. Outro dia, atentei para a placa de uma lojinha de esquina. Está lá: 'Boutique Flor de Lis'. Quando me acerco das paradas de ônibus, vez por outra, passa um, com destino ao Boqueirão. Tem uma linha que segue direto no rumo do São Francisco. Tem um amigo, em um dos Sebos que frequento, que se chama Gullar. Outro, Bacelar (nome da família que me oportunizou trabalhar na TV Difusora/SBT, em SLuís). O rapaz do pastel tem o nome Santos, de meu pai, José. Na feira de artesanato, tem milho cozido. canjica (em Curitiba, cural). Aqui se canta Zeca Baleiro e Cláudio Fontana. Aqui se fala em Praia dos Lençóis. Tem a rua São Luís, no bairro Cabral. Tem a capela Madre de Deus... e por aí vai.

03 - PS – Mhario, com toda sua vivência e sendo tão propagado que existe preconceito em escalas diversas nesse ps, você já foi vítima, ou acompanhou de perto alguma situação nesse aspecto que lhe marcou a memória?
MHL - Acredito ser a Inveja, um dos propulsores mais destrutivos, gerando preconceitos, racismos e discriminações de todas as formas e tamanhos, pois se trata de algo que flui das profundezas da alma. Todavia, o Preconceito pode ser originário de várias vertentes. Chega a se confundir com a maldade. Há também um grande conflito de entendimento entre preconceito, racismo e discriminação. Bom atentar que esse, é sempre uma má ideia, um prejulgamento superficial. E isso é um perigo, porque muitas vezes tende à violência física e moral. O Racismo, por sua vez, um crime hediondo, é uma consequência do preconceito exacerbado. O racista acredita que é um ser superior. Pertence a uma raça superior. Isso é um bloqueio mental sórdido. E, por fim, a Discriminação, quando o lado egoico de uma pessoa interfere diretamente na desvalorização do outro. Algo inaceitável (e eu já sofri bastante com isso). Tem seres desumanos incapazes de conviver com os outros que aparentam ter mais conhecimentos e mais qualidades específicas, do que o discriminador. No fim, mesmo com algumas diferenças conceituais, preconceito, racismo e discriminação acabam tendo alguma relação ilógica. Desta forma, vale relembrar: “O Brasil aplaude a miscigenação quando clareia. Quando escurece, ele condena. O táxi não para pra você, mas a viatura para. Esse é o problema urgente do Brasil”, disse Emicida antes de lançar um álbum no Dia da Consciência Negra.

04 - PS - Direito, Jornalismo, Música, Dramaturgia, Literatura e Poesia. Como ser frasco para todas essas essências, e qual delas tem em ti fragrância mais apurada?

MHL - Ótima pergunta! Na verdade, eu pratico atividades que realmente gosto. Em quaisquer delas, o que transborda em mim é a experiência sensorial. Isso porque, me desdobro, a fim de que essas atividades transmitam sensações de bem-estar, de paz, de felicidade para quem as vivencia. Tal fato me faz caprichar na essência. Tem dado certo.

05 - PS - Mhario! Como militante e produtor de múltiplas Artes, na sua opinião, o que seria necessário implantar em cada região do país, para transformar a realidade de quem sofre ao tentar viver de sua Arte?

MHL - Uma pergunta que leva à origem do fato. Por exemplo, sabe as profissões mais elogiadas? Advogado, Engenheiro e Médico (pesquisa SAFE/2018). E sabe quais as de menor destaque junto às autoridades e população em geral? Artes Visuais e Artes Cênicas. Um exemplo doído de discriminação, assunto que abordamos na pergunta anterior. Aí a origem do infortúnio de tantos talentos espalhados por nosso continente; não só no Nordeste. (Continuo a resposta na pergunta subsequente por serem similares).

06 - PS - Imagine um grande Pintor trabalhando de vigilante, uma Bailarina de talento vendendo doces, porta a porta, para se sustentar, um pianista clássico sobrevivendo como motorista de aplicativos. Mhario, você conhece alguma dessas situações, como você avalia esses e outros desvios de atividades?

MHL - Sim. Não só imagino, como deixo aqui um link para nossos leitores conhecerem a história de Sergio Pacheco, que mesmo sendo um excelente Tenor Clássico, é empregado na portaria de um prédio, na cidade de São Luís-Ma. Uma prova inconteste de como andam as inversões discriminativas da cultura brasileira. Não só isso, a explícita falta de atenção às manifestações populares de raiz, de apoio ao poeta da favela ou àquele indivíduo que está na esquina das metrópoles vendendo um CD autoral, é o câncer sociocultural do país. E mesmo assim, (contra tudo e todos) há, ainda, quem tente viver de arte. Muitos, pela "sobrevivência física", apenas.

07 - PS - Existe solução?

MHL - Há muita esperança de que tudo mude, claro. Muitos gritos e movimentos se espalham pela planície, como alerta melancólico, em busca de modificar a complexa forma de oportunizar talentos. Na minha opinião, em decorrência de uma ordem político-social inoperante, há muito tempo. Urge, pois, que haja uma mudança de comportamento e de protagonismo sociocultural, buscando uma maneira para a efetivação de uma plataforma socioeconômica mais democrática, mais humana, no sentido da valorização do autor de raiz e não, da elite psico-emblemática, advinda de rótulos de DNA anglo-saxônicos. Esses gritos já se fazem ouvir, especialmente no Nordeste, desde a criação da “Festa do Centenário de Gonzaga”, que resgata vitoriosamente, talentos do Ceará, promovendo a inclusão social e indiretamente o crescimento econômico, permitindo em muitas ocasiões, uma ascensão desse artista-raiz. Uma ação que começa a possibilitar o reconhecimento dos valores brasileiros.

08 - PS – Mhario, porque os editais de fomento da cultura naufragam tanto e mudam o curso das águas no decorrer do percurso e o que pode ser feito para mudar essa situação?

MHL - Quando se trata de assunto político-executivo, a discussão ganha ares de unicidade: “tudo como dantes no Quartel de Abrantes”. O Brasil político é o nosso Quartel de Abrantes. Tudo é igual de norte a sul, leste a oeste. A primeira coisa que se deve levantar quando o assunto é Lei de Fomento a Cultura, é a burocracia que os artistas enfrentam. Esse é o primeiro entrave. O menor erro, anula a solicitação. Mesmo que essas leis, como a ”Aldir Blanc", em sua essência, seja uma vitória coletiva, ainda não será a solução ideal para oportunizar determinados talentos fora do político contexto midiático. Há necessidade de ajustes das ações públicas efetivas, para que possam celerizar e aperfeiçoar os recursos públicos democraticamente, a fim de que os artistas pudessem ser beneficiados, em todas as escalas sociais. Não só os apadrinhados. Ou seja, se for desburocratizado esse meio legítimo (a Lei) de obtenção de recursos, o artista, seja o mais simples, encontrará o seu palco.

09 - PS - Qual a preocupação de Mhario Lincoln, com a situação dos extremos da vida, infância/velhice e com a juventude neste País?

MHL - Meu caro Pedro, este é um assunto por demais complexo e requer um tratado para chegar a um bom termo. No momento, mesmo que uma centena de pessoas venha fazendo o melhorcomeçando pelo ambiente familiar, a célula-semente de tudo - há desafios quase insuperáveis. Mesmo que o tal do “Estatuto da Criança e do Adolescente” exija que “crianças e adolescentes tenham direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas, que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”, o Brasil ainda tem muito mais de 20 milhões de pessoas, entre 0 e 14 anos, em situação domiciliar de pobreza, e 10 milhões em extrema pobreza, o que inviabiliza um desenvolvimento digno para essa faixa etária.

9.a - PS - Com relação a seu trabalho nesse campo.

MHL - O meu trabalho e de alguns voluntários que eu conheço, na verdade, se reduz a um pingo d’água num oceano de irresponsabilidades "oficiais". Mesmo assim, dou minha parcela de contribuição e não me furto em fazer uma boa ação sempre que posso. Não acredito em ações de estatutos oficiais de fachada. Outro, o “Estatuto do Idoso”, mesmo escrito no artigo 9º a obrigação do Estado de “garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade”, não acontece na prática. Existem raríssimas exceções. Todavia, basta conferir os números da última pesquisa do IBGE. Sabe quantas pessoas (inclusive os idosos) em situação de rua foram encontrados em pesquisa do IBGE, no geral? 222 mil brasileiros. Um crescimento de 140%, a partir de 2012. Desta forma, há também um outro grande empecilho que é, caro Pedro Sampaio, combater o imaginário social sobre essa situação de rua. Difícil, porque os avalistas acreditam ser, essas pessoas, apenas, dependentes químicos, criminosos, loucos ou merecedores dessa "pena". Ao insistirem nessa postura, a população também peca, pois torna mais difícil o fortalecimento da luta pela inclusão. Por pensarem assim, muitos voluntários desistem e acabam saindo do engajamento, porque acham que essas pessoas devem continuar afastadas, pois, dizem, “...nem a família aguenta".

10 - PS - Expressando a alegria de participar desse ViceVersa pergunto a você Mário, admirável Jovem Cidadão passado na casca do alho e forjado na fervura do azeite do Babaçu: que conselho você daria aos jovens em relação à Família, Fé, Ideologias, Sonhos, Metas e Conquistas?

MHL - É muito difícil aconselhar, meu caro Pedro Sampaio. Cada pessoa reage diferente diante de cada situação. A vida e as experiências adquiridas por um escritor mais velho, nem sempre são iguais aos dos novos. Então, falar os chavões comuns da autoajuda, na verdade, dificilmente funcionam. Podem até despertar algo. Mas logo passa. Cada um deve conscientizar-se das necessidades intrínsecas, produzir e funcionar de acordo com propostas individuais. Acredito que a vontade interna ainda funciona como ‘start’ para inúmeras atividades humanas. Por isso, mestre, não sei se estou apto a dar conselhos, porque tudo que aprendi foi com esforço hercúleo. Para mim, o maior conselho foi a superação dos meus inúmeros problemas, e estes, são pessoais e intransferíveis. Acredito que a beleza não está no conselho. Mas na arte de ensinar e oportunizar, a fim de que seja ampliada a percepção do todo específico. Posso exemplificar com um poema de José Régio que muito me tocou quando o li: ‘Cântico Negro’. (“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui!” / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali…”). O segundo é “Segue o teu destino”, de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa: (“Segue o teu destino, / Rega as tuas plantas, / Ama as tuas rosas. / O resto é a sombra / De árvores alheias”).

Muito obrigado Pedro Sampaio por este papo tão agradável, amável e esclarecedor. Repetindo o seu bordão: "um grande abraço, inté, rumbora simbora? Tô pegando o beco...".

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias