Quinta, 19 de Maio de 2022

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Do poeta, contista e compositor Eloy Melonio: "Um porquinho, um Herói"

"Lucas estava diante de um dilema: deixar o porquinho ali mesmo ou levá-lo para casa. Sabia que seus pais não aceitariam aquele bicho imundo".

23/04/2022 às 11h07 Atualizada em 25/04/2022 às 10h39
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melônio
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Eloy Melônio, na 14ª Felis
Eloy Melônio, na 14ª Felis

UM PORQUINHO, UM HERÓI 

*Eloy Melônio

Era uma tarde como outra qualquer. O sol das três e meia queimava até a alma, quando Lucas, um menino de onze anos, voltava da padaria, onde fora comprar pão para o lanche e para o jantar.

Entre os irmãos, era ele quem tinha essa incumbência. Às vezes se perguntava por que essas tarefas sempre ficavam com os mais novos. Pelo menos, na sua família era assim. Andrei, de treze anos, e Fábio, de catorze, sempre tinham uma desculpa para não ir à padaria ou à quitanda. Ou era trabalho da escola ou treino de futebol de salão. Lucas já estava acostumado com isso, e sabia o que tinha de fazer todas as tardes nesse horário. Concluído o dever de casa, ele já se prepara para cumprir sua obrigação.

Nesse dia, parecia tranquilo, e jamais imaginara que algo surpreendente fosse acontecer em sua vida. Geralmente não era só pão que ele comprava. Por isso levava uma sacola grande para pôr outros itens: café, açúcar, leite.

Lucas era um bom menino. Alegre, disposto. E serelepe! Tanto que, às vezes, atrasava-se porque se distraía pelo caminho. Uma paradinha aqui, papo com os amiguinhos ali. Era muito popular, e conhecia muita gente.

E era assim, brincando, — falando com um e outro — que Lucas fazia o percurso de ida e volta à padaria do Seu Germano. Nesse mesmo dia, voltando pra casa, encontrou Dona Jandira:

— Oi, meu filho! Parece que hoje o pão tá bem quentinho, hêin?

— Tá sim, Tia Jandira. Sinhora num quer um?

— Sabe que não é uma má ideia! Tô com uma fome danada. E ainda vou demorar pra voltar pra casa. Tô indo visitar a cumade Almerinda, que anda um pouco acabrunhada.

Com quase setenta anos, Dona Jandira era uma das pessoas mais conhecidas no bairro. Morava lá desde que se casou, há quarenta e sete anos. Dava conta de tudo na vizinhança. Reclamava quando via alguma coisa errada. Chamava a atenção dos mais jovens. Se faziam algo errado, falava com seus pais. Ou seja, tinha autoridade — um misto de prefeita e delegada.

A Vila Bom Jesus era uma comunidade encravada no Nova Esperança, um bairro grande de classe média baixa. Um lugar tranquilo onde quase todos se conheciam e se falavam.

Já perto de sua casa, Lucas viu um porquinho preto num trecho baldio, com lixo e água suja da rua. Aproximou-se devagarinho como quem não queria nada. E ficou ali, observando o bichinho. Estava comendo coisas do lixo. À princípio, sentiu nojo: Eca! Depois percebeu que o animal estava com muita fome.

Lucas estava encantado com bichinho. Mil e uma ideias invadiram sua cabeça. Seu coração batia mais forte do que o normal. Apesar de sujo e largado, o porquinho era a coisa mais fofa deste mundo, com carinha de sapeca e olhinhos sonolentos. Danado que era, Lucas pôs a sacola no chão e se preparou para pegar o animal.

O porquinho não esboçou a menor resistência. Ao contrário, parecia ter gostado do novo amigo, e roçou o focinho no seu rosto: óinc, óinc. Lucas não gostou muito disso e quase o largou ali mesmo. Mas uma voz interior lhe conteve: Não faça isso! Esse porquinho é um herói. Assustado, perguntou-se baixinho: Como assim, herói?! Como pode ser um herói se está morrendo de fome?

Lucas estava diante de um dilema: deixar o porquinho ali mesmo ou levá-lo para casa. Sabia que seus pais não aceitariam aquele bicho imundo. Porque sempre reclamavam de Capitão, dizendo que ele não servia para nada. Era só comer e dormir. Chegaram até a dizer que iam entregá-lo à Associação Protetora dos Animais. Só não o fizeram porque Lucas passou uns dois dias chorando pelos cantos.

Em casa, sua mãe quis saber como havia encontrado o animal. Contou-lhe a história, e pediu para ficar com ele.

— Só o seu pai pode decidir isso. Já temos um cachorro. E esse porquinho dever ter um dono?

— Eu sei, mãe! E se o dono não aparecer, posso ficar com ele?

— Já lhe disse que só o seu pai pode decidir.

— Tá bom. Mas esse porquinho é um herói. Eu queria ficar com ele.

— Herói? Esse bicho nojento? De onde você tirou essa ideia, menino? Trate logo é de dar um banho nele antes de seu pai chegar

Enquanto banhava o porquinho, Lucas teve uma ideia genial. Mesmo não sendo seu dono, resolveu dar-lhe um nome. Sim, por que não? — pensou. Porque assim ninguém mais o veria como um bicho de rua. E lembrou uma frase de seu livro de história: nosso nome é a nossa maior identidade. Afinal, já sabia que o porquinho era “um herói”, e não existe herói sem nome.

Lucas se concentrou por uns minutos. E se lembrou da Tia Adelina falando sobre a história dos negros no Brasil. E gritou feliz: Já sei, já sei! Ele vai se chamar Zumbi.

Depois do banho, chamou sua mãe:

— Mãe, vem ver como o Zumbi tá limpinho que é uma beleza.

— Quem é Zumbi, menino?

— Zumbi foi o maior líder negro do Brasil. Era quase um rei no Quilombo dos Palmares. Por isso o nome do meu porquinho agora é Zumbi

— Seu porquinho?! Ai meu Deus do céu!

A mãe gostou do nome, e sentiu orgulho do filho — não apenas por causa de sua explicação histórica, mas por sua atitude generosa. E, pelo jeito, já estava gostando do porquinho também.

Dona Marta era uma senhora negra, querida e respeitada na rua onde moravam. E uma dona de casa exemplar. Já Seu André, o pai, também negro, era magrinho de dar pena. Sujeito fechado, de poucas palavras. Os irmãos do Lucas puxaram mais ao pai. O Lucas, à mãe, mais sociável e mais compreensiva.

À noite, depois de tomar um banho demorado, Seu André — que era motorista de ônibus urbano — ouviu, à mesa, a história do porquinho. Atrapalhado, Lucas falou sobre o animal que recolheu da rua. Disse que era mansinho... O pai não foi na conversa do filho. Um cachorro já era mais do que suficiente numa casa pequena como a deles. E um porco não passava por sua cabeça. Era bicho para viver num sítio. E mais: Lucas tinha de se livrar dele o quanto antes.

Depois do jantar, Lucas foi para o quarto com lágrimas nos olhos. Até resolver essa situação, não ia largar Zumbi no meio da rua. Ah, Isso não! Apesar de sujo e abandonado, o porquinho não parecia um bicho de rua. Devia ter fugido de alguma casa.

Antes de ir deitar-se, foi ao quintal verificar se Zumbi estava confortável no cantinho ao lado do tanque, onde o acomodou sobre panos de chão. Lucas já tinha um plano para resolver a situação de Zumbi. Mas, a depender dele, ficaria com o bichinho. Seria um irmãozinho para Capitão.

No dia seguinte, acordou cedo. E antes de sair para a escola, pegou cinco folhas do seu caderno de desenho e quatro lápis de cor. Em cada uma desenhou um cartaz meio estrambótico. Esses cartazes são geralmente para animais que se perderam ou fugiram de casa. O do Lucas era diferente: ENCONTRADO. Ficou bonito, cada sílaba de uma cor. Pôs o telefone da padaria porque era bem localizada, e Seu Germano já sabia da história. Colou os cartazes na quitanda do Zeca Abreu, na barbearia do Canhoto, no açougue do Raimundão.

Enquanto isso, Zumbi conquistava quem se aproximava dele. Parecia ter um poder mágico. Os amigos de Lucas, os vizinhos — todo mundo queria tocá-lo para ver se era mesmo de verdade. Mas Seu André não fazia a menor questão de ver o bicho, que era levado para o quintal antes de ele chegar em casa.

Dois dias se passaram, e nada. Seu André reclamou. Lucas   explicou que tinha posto cartazes em vários lugares. E que o dono do porquinho não ia demorar a aparecer. Talvez nunca apareça — resmungou o pai. Quem vai querer criar um porco em sua casa, ou em seu apartamento?

No terceiro dia, à noitinha, um carro novinho parou na frente da casa de Lucas. Um senhor bem vestido desceu e deu boa noite aos que estavam à porta. Meu Deus, só pode ser o dono do Zumbi! — gritou Dona Marta, lá da cozinha.

Lucas veio correndo do quintal, carregando Zumbi nos braços. E foi logo gritando: O Senhor veio buscar o Zumbi, não foi? Ele tá muito bem, tem comido direitinho. Tá até mais gordinho!

Depois das apresentações, Lucas se antecipou a dar explicações ao dono do porquinho. Especialmente por que lhe dera esse nome, e como cuidou dele nesses três dias.

O senhor então disse que comprou o porquinho na feira do bairro porque seu neto, de oito anos, engraçou-se dele. Seis dias depois, o bicho fugiu de casa. E, surpreso, não sabia como o porquinho tinha andado tanto, pois sua casa não ficava tão perto dali.

Nesse exato momento, Seu André chegou e ficou ouvindo a conversa. Foi a primeira vez que viu Zumbi. Alguns vizinhos também se aproximaram para saber o que estava acontecendo.

Zumbi parecia não querer soltar-se de Lucas. E nem Lucas dele, porque o apertava ao peito como quem não quer se desfazer de alguma coisa valiosa.

Percebendo o carinho recíproco entre os dois, o homem deu a notícia inesperada:

— Olha, Lucas, eu vim aqui para saber se vocês querem ficar com o porquinho. Meu neto não se deu muito bem com ele. Nem lamentou a sua fuga. Seu chamego foi só no primeiro dia, depois se cansou. Prefere ficar jogando videogame. 

Lucas olhou para o pai em busca de uma resposta, e percebeu que ele tentava esconder as lágrimas. Sem precisar explicar nada, Dona Marta se adiantou e disse que, sim, eles iam ficar com o porquinho. Nesse momento já havia um pequeno grupo de vizinhos acompanhando a negociação e torcendo para Zumbi ficar.

Feliz da vida, Lucas deu um beijo na cabeça de Zumbi e — chorando — disse baixinho: Você venceu mais uma batalha.

Antes de ir embora, o senhor abraçou Lucas e revelou:

— Vou deixar quinhentos reais com a sua mãe para vocês comprarem ração para esses primeiros dias. Se precisarem de mais alguma coisa, é só ligar pra mim.

Seu André fez um sinal para Lucas, chamando-o para perto de si. E o abraçou carinhosamente. As crianças da vizinhança começaram a bater palmas e cantar: Viva Zumbi, seu lugar é aqui/ Viva Zumbi, seu lugar é aqui.

Feliz da vida, Lucas olhou para seu porquinho e confessou: Você é um herói de verdade!

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Eloy Melonio é professor, cronista, contista, poeta e compositor.

 

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