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Texto inédito de nossa colaboradora Alessandra Leles Rocha: "A maternidade além do calendário"

"Não é porque o mundo, de uma hora para outra, resolveu se embrutecer, se radicalizar, se desumanizar, que a figura materna deixou de ser o que é".

07/05/2022 às 18h32
Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra Leles Rocha
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Original do texto.
Original do texto.

Por Alessandra Leles Rocha

A que ponto chegamos! Quando o ser humano precisa de uma data no calendário para se dar conta da importância do afeto, do carinho, do amor, da gratidão, ... que sente por alguém importante e especial, é sinal de que algo não vai tão bem quanto parece.

Estamos próximos de mais uma dessas comemorações. Amanhã é celebrado, no Brasil, o Dia das Mães. Mas, ao contrário de alegria, esse momento me traz uma profunda reflexão. Afinal, a Pandemia da COVID-19 lançou luz sobre a vida, de um modo geral; mas, particularmente, sobre as relações humanas, o que incluiu o nosso modo de ver e compreender a maternidade.

Infelizmente, o tempo levou uma reverência, quase poética, que existia em relação às Mães. Era como se o mundo orbitasse ao redor delas. Mães eram o esteio, a força, a coragem, a determinação de inúmeras famílias. Cada mínima coisa acontecia sob o seu crivo, a sua observação, a sua determinação. Existia um respeito profundo por aquela figura, tantas vezes, um misto de seriedade e de serenidade.  

Mas, de repente, o fascínio do mundo nos inebriou, a tal ponto, que essa relação, dentro desses moldes, foi se esgarçando, foi se perdendo. Na medida em que os seres humanos foram descobrindo e conquistando novos papéis na sociedade, o que lhes exigiu uma transformação no modo de ser, de existir e de conviver. O que de certa forma fez perder muito da sensibilidade, para adquirir o pragmatismo da razão.  

Embora, não tenha sido tão de repente assim, esse movimento trouxe um rearranjo para a organização familiar, possibilitando para as mulheres a conquista de novos espaços e atribuições em razão, sobretudo, da imposição das necessidades econômicas.

Pois é, chegou-se a um tempo em que foi imposto para as mães a árdua tarefa de sacrificar a convivência intensa do lar, para contribuir no orçamento familiar, desdobrando-se em muitas jornadas e compromissos.

Num piscar de olhos, toda aquela aura que envolvia as mães desapareceu, como se tivessem despencado de um pedestal, onde eram incontestavelmente reverenciadas e respeitadas, para desfrutarem de uma posição menos simbólica e muito mais humana.

Ora, e como qualquer ser humano podiam ser questionadas, contestadas, confrontadas ..., ou seja, sentindo na própria pele o ônus das aventuras e das desventuras desse novo modelo de vida.

O problema é que essa transformação não ficou restrita da porta para fora de suas casas, ela acabou invadindo o último recanto de segurança daquele ideal de maternidade. Uma pena, mas não dava para ser diferente! Não dava para dissociar os papéis sociais e colocá-los em arquivos separados. Tudo se misturava. Tudo se interconectava.

Até que, o peso descomunal de um sexismo histórico emergiu como a gota d’água para a intensificação de todo um conjunto de violências – física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Desse modo, o desrespeito à figura feminina legitimou o desrespeito à figura materna.

As mães passaram, então, a não dispor mais de um refúgio de paz e segurança. Afinal, antes de serem mães elas eram mulheres, elas estavam presas a uma hierarquia social de controle do poder pelos homens, a qual eles nunca cogitaram perder ou sequer compartilhar efetivamente.

E ainda que as leis não as coloquem mais na condição de propriedade da família ou de seus maridos ou companheiros, no inconsciente coletivo essa compreensão ganhou novos vieses, especialmente, pela desigualdade econômica.

A explosão do número de casos de feminicídio comprova isso. Muitas das vezes, ele decorre de aspectos econômicos. A independência ou a dependência financeira da mulher são apontados como motivos de violência e morte, na maioria dos casos.

Então, o que dizer do Dia das Mães? Será que a data consegue encobrir tantas feridas abertas existentes na sociedade? Fico pensando nas milhares de mães assassinadas de maneira brutal e covarde por seus maridos, namorados ou companheiros, muitas vezes, diante dos próprios filhos. Na orfandade de legiões de crianças e adolescentes e no iminente risco que elas têm de reproduzir essas situações no futuro.

Fico pensando nas milhares de mães submetidas a todo tipo de indignidade cidadã que lhes impede de desfrutar da maternidade com toda a paz e a segurança que merecem.

Fico pensando nas milhares de mães que assistem impossibilitadas de quaisquer reações a morte dos seus filhos, pela maldade e pela perversidade social existente.

Fico pensando nas mães que abdicam de si mesmas para devotar suas horas e minutos a uma atenção incessante aos filhos doentes e/ou hospitalizados.

Fico pensando nas milhares de mães da guerra, diante dos filhos em perigo, mortos ou feridos. ... Fico pensando nas milhares de mães ...

Por tudo isso é que eu não creio que uma data no calendário, ou que almoços ou jantares festivos, ou que presentes e cartões, sejam exatamente o que as mães do mundo gostariam de receber.

Vinte e quatro horas me parecem insuficientes para anestesiar ou invisibilizar os outros 364 dias de luta, de sacrifício, de dificuldades, de violências materializadas ou subjetivas, a que elas são expostas à sua revelia.

De modo que seria bem mais digno e proveitoso se começássemos pelo respeito a elas. Algo básico. Fundamental. Se as olhássemos com o desejo verdadeiro de enxergá-las na beleza da humanidade que reside no fundo de suas retinas.

Se as abraçássemos muito além dos corpos; mas, com a alma, exalando o calor que brota das batidas do coração. Se sentássemos ao seu lado com a mais plena disposição de ouvir, de conversar, de trocar ideias, de gargalhar, de aspergir gotas de felicidade. Se nos colocássemos na posição de cuidá-las, aconchegá-las, fosse nas mais simples ou complexas situações da vida. ...

Não é porque o mundo, de uma hora para outra, resolveu se embrutecer, se radicalizar, se desumanizar, que a figura materna deixou de ser o que é. Certas coisas, nessa vida, o tempo nem ninguém consegue mudar. Elas são o que são. E a maternidade é uma delas.

Por isso, é, no mínimo, contraditório defender a vida, desrespeitando de maneira tão aviltantemente absurda as mães. Não se chega a esse mundo sem elas, nem tampouco, se sobrevive a ele sem elas. Se você defende a vida, defenda as mães, defenda as mulheres. Todas. Sem exceção. Tenho certeza de que esse é o verdadeiro presente que elas anseiam receber, todos os dias.

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