Quinta, 19 de Maio de 2022

Poucas nuvens

Curitiba - PR

Internacional VICEVERSA

Mhario Lincoln entrevista a multiartista e professora Renata Barcellos

PARTE 01

14/05/2022 às 10h20
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcellos (Parte 01)
Compartilhe:
Renata Barcellos & Mhario Lincoln
Renata Barcellos & Mhario Lincoln

01-MHARIO LINCOLN. Vendo alguns vídeos interessantes postados por você, a primeira coisa que admirei foi a sua ação comportamental, dentro de uma sala de aula. Como professora (de indubitável valor), acredito ser de muita valia as discussões de teses que envolvem a qualidade da formação do alunato e dos alfabetizadores. Então, como andam os resultados, de forma prática, dessas qualificações?

RENATA BARCELLOS - Primeiramente, muito obrigada pelo elogio. Sim. Sempre reflito sobre a relação professor – aluno e a construção de conhecimento. Procuro levar as entrevistas, as minhas vivências quotidianas (lançamentos de livro, peças de teatro....) para a sala de aula e vice-versa. Minha função é informar, esclarecer, difundir a cultura. Quanto aos resultados, ainda há muito a se fazer em termos de uma revolução (dentre outras áreas) na EDUCAÇÃO (em todas as instâncias). Em sala de aula, da Educação básica à Superior, o que se constata é a predominância do despreparo quanto à competência leitora, escrita... Muitos alunos chegam à graduação sem dominar a estrutura textual, de parágrafo, de frase. O elementar para se compreender as outras questões linguísticas, de recursos expressivos. Segundo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, a taxa de analfabetismo teve uma pequeníssima melhora: de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2021. De acordo com o IBGE, analfabetos são cidadãos que têm 15 anos de idade ou mais e eles não conseguem formular nem pequenos textos. Para Adriana Beringuy, analista deste estudo, o analfabetismo atinge “as pessoas mais idosas, pois os jovens, atualmente, estão mais escolarizados e, com isso, têm um indicador menor. Embora o índice de analfabetos tenha melhorado, o analfabetismo ainda se faz presente, revelando uma triste herança brasileira de exclusão social”. Outra constatação da pesquisa: ainda há desigualdades raciais e regionais na alfabetização em nosso país. A taxa de analfabetismo dos brancos é de 3,6% (com 15 anos de idade ou mais), enquanto o índice da população parda e preta chega a 8,9%, segundo os dados do IBGE. Infelizmente, a taxa aumenta entre as pessoas com 60 anos ou mais: 9,5% dos brancos e 27,1% dos pretos e pardos não sabem ler e nem escrever. Com relação às regiões do país, o cenário é o seguinte: o Nordeste tem o maior percentual de analfabetos, 13,9%; o Norte, 7,6%; o Centro-Oeste, 4,9%; e as regiões Sul e Sudeste têm as menores taxas, 3,3%. Já entre os com 60 anos ou mais, as taxas são de 37,2%, no Nordeste; 25,5%, no Norte; 16,6%, no Centro-Oeste; 9,7%, no Sudeste; e 9,5%, na região Sul do Brasil. Urge rever a alfabetização, a base de tudo. O país ainda tem 11 milhões de analfabetos. Estamos no século XXI, com acesso a recursos tecnológicos. Somos imersos a poluição visual. Lemos o tempo todo pelo celular. Resolvemos muitas questões pelos sites.... Como ainda há pessoas sem acesso à leitura? Isso é inadmissível!!! 

02 - MHL - Você é Graduada em Letras, Mestra em Estudos de Literatura pela UFF, Pós-Doutorada em Letras, além de profissional bilíngue (Português/Francês). Considera que o mesmo incentivo concedido pelos poderes públicos à educação formal é igualitário com pertinência às qualificações afro-artístico-literárias e indígenas? 

RB - Nenhum pouco. Há cotas raciais, indígenas. Mas como se manter sem auxílio moradia, alimentação e transporte. Já entrevistei um indígena, estudante na UERJ, conseguiu a vaga, mas não há nenhum incentivo. Nada. Fora a questão do preconceito sofrido até por parte de professores, segundo relato do entrevistado.  A educação precisa ser revista, reformulada totalmente em todas as áreas e aspectos. Principalmente, na parte de ensino das culturas indígenas e das literaturas africanas, da escravidão, das desigualdades salariais... Onde está a representatividade deles na ABL, nas vagas disponíveis na atualidade? Conforme o IBGE, existem mais de 300 etnias. O Brasil é um dos países com a maior diversidade de povos locais no mundo. O número de línguas faladas em um país é um dos critérios para se avaliar o grau de diversidade cultural nele existente. No Brasil, são faladas mais de 170 línguas indígenas. Trata-se de um dos dez países de maior diversidade cultural do mundo. “É preciso lembrar que algumas dessas línguas têm hoje menos de dez falantes, estão morrendo”, conta Eduardo Navarro, professor do Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Atualmente, São Paulo tem a quarta maior população indígena do País. Há mais de 10 mil índios vivendo em bairros periféricos. Hoje, mais de 30% dos índios brasileiros com fenótipo indígena ainda visível vivem nas cidades, representando cerca de 300 mil.  Para Eduardo Navarro e Eliana Potiguara, o crescimento da literatura indígena é um marco na representação do indígena enquanto protagonista de sua própria história. Para Daniel Munduruku,  “uma maneira nova de atualizar nossa ancestralidade”. Vale destacar a atuação do professor pesquisador Francisco Edwiges em prol das culturas indígenas. Quanto às literaturas africanas, houve alteração da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Esta estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena". O que deve ser no PLURAL por se tratar de processos de formação diferenciados. Portanto, histórias e culturas próprias de cada região de culturas e literaturas africanas. Cabe ressaltar a urgência da reestruturação da grade curricular dos cursos de bacharelado e licenciatura em Letras. Para uma formação adequada dos futuros profissionais quanto às culturas e literaturas indígenas e africanas. Isso porque cada região teve processos de formação diferenciadas. Cada povo suas especificidades.

03 – MHL - Admiro toda essa movimentação que você imprime, em diversas áreas, ao comandar atividades audiovisuais, através de importantes interações “online”. Quais os resultados lógicos dessa caminhada hercúlea em busca de bem informar seus leitores, ouvintes e visualizadores?

RB - Os resultados reais do Programa Pauta Nossa (Mundial News) e da minha marca BarcellArtes são a divulgação do trabalho dos profissionais das diversas áreas da artes, da saúde, do direito; a discussão propiciada para levar informação de qualidade aos ouvintes, leitores e visualizadores; a interação entre os participante; a contribuição deles para o enriquecimento do conhecimento de mundo dos alunos, ouvintes e visualizadores. O meu papel é compartilhar informações, apresentar novas pesquisas... É um trabalho não só hercúleo (de domingo a domingo) como também gratuito (não tenho patrocinador). Há umas semanas, fizeram-me rir. Afirmaram. Veja bem. Não perguntara. “Você está bem. Ganhando bastante dinheiro como Influencer”. As pessoas não acreditam que alguém faça o que faço sem ter remuneração financeira. Ganho muito mais aprofundando meus conhecimentos, conhecendo excelentes profissionais e os divulgando! Lamento quem só visa dinheiro. Isso para mim não é, e nunca foi prioridade. Não sou de luxo. Minha origem é a roça. Tenho vaidade de ser presidente, pertencer a inúmeras academias...

4- MHL - Em área específica da linguagem impressa, quais os pensadores, enquanto linguagem educativa e filopoética, que lhe trouxeram aquela vontade indelével de mergulhar mais no conteúdo estudado?

RB - Inicialmente, não foram escritores, pensadores. Foi a minha precária formação da educação básica ao Pós-doutorado em instituições públicas. Em 1988, houve uma greve de quase 1 ano, na rede estadual. Estava na 8° série, hoje, nono ano. Depois, fiz formação de professores, no Colégio Estadual Heitor Lira. Muita falta de professores. Sobretudo da língua materna. Na época de escolher qual área seguir, foi a dona Angela quem  me encantou com sua didática. Seu jeito motivador de nos fazer redigir, de ler para a turma; e a de História nos incentivava a prosseguir na vida acadêmica. Nesse período, tinha aula de Francês. Decidi cursar Letras (Port / Francês). A falta de professores e de conteúdo me fizeram dedicar-me a compreender minha língua materna para poder orientar meus alunos da melhor maneira possível. 

05 – MHL - Pelo visto, você tem se adaptado muito bem a esses tempos da dialética virtual, seja através das redes sociais ou dentro das salas de aula. Assim, como avalia o contexto da nova política educacional de instituições particulares, pioneiras no uso de recursos tecnológicos, enquanto, do outro lado da moeda, raras são essas mesmas oportunizações e modernizações nas escolas públicas?

RB - Trata-se de duas realidades distintas: público e privado. E outro fator de suma importância. Existem vários BRASIS! Hoje, século XXI, ainda temos professores e alunos andando quilômetros em prol do conhecimento. As condições das instituições são diversas. Vai da mais equipada ao chão batido e quadro verde e giz. Não adianta os melhores recursos, se a metodologia for a mesma. É preciso reestruturar as práticas pedagógicas. Renová-las é preciso! Estamos vivendo imersos em poluição visual, sonora... alunos almejam aulas dinâmicas, rápido resolução das atividades propostas.  O Censo Escolar revela que, na educação infantil, a internet banda larga está presente em 85% das escolas particulares. Já na rede municipal, que é a rede com a maior participação na oferta de educação infantil, o percentual é de 52,7%. Quando se trata do ensino fundamental, a rede escolar dos municípios, maior ofertante também nessa etapa de ensino, é a que tem a menor capacidade tecnológica. Nesse caso, 9,9% das escolas possuem lousa digital, 54,4% têm projetor multimídia, 38,3% dispõem de computador de mesa, 23,8% contam com computadores portáteis, 52,0% possuem internet banda larga e 23,8% oferecem internet para uso dos estudantes. Entre as regiões do país, o Centro-Oeste revelou ter uma infraestrutura expressiva, com 83,4% das escolas de ensino fundamental com internet banda larga. Em seguida estão Sudeste (81,2%) e Sul (78,7%). Já os estados do Norte (31,4%) e do Nordeste (54,7%) são os que têm a menor conectividade. No que diz respeito à disponibilidade de internet voltada ao uso dos alunos, o Sul se destaca. Na região, 65,4% das escolas que têm ensino fundamental oferecem aos estudantes acesso a esse recurso. Sudeste (51,8%) e Centro-Oeste (48,3%) aparecem em seguida. 

06 – MHL - Com relação a necessidade de trazer novas tecnologias para os estudos, você foi uma das incentivadoras do projeto “Eu, a vida e a Poesia Visual”. Pode falar um pouco mais sobre o assunto, destacando essa maravilha chamada “Poesia Visual”, cujo mentor, em nosso país, acredito, seja Arnaldo Antunes? Aliás, não sei se essa “Poesia Visual” pode ser considerada, igualmente, “Poesia Concreta”. Caso haja similitude, podemos citar o maranhense Ferreira Gullar como um dos integrantes desse movimento que chegou ao Brasil em 1956?

RB - Meu conhecimento da Poesia Visual foi em uma peça teatral onde poemas visuais de Tchello d’ Barros eram projetados no corpo ou ao fundo do palco do teatro ao longo da encenação. Aquelas imagens me causaram estranhamento, me intrigaram. Na mesma época, havia a exposição do artista no segundo andar. Visitei. Conheci outras obras, artistas apreciadores desta vertente literária. E, ainda mais, extasiada fiquei.  Arnaldo Antunes é um multiartista (poeta e músico) assim como Tchello d’ Barros. A produção do ex-Titãs já foi objeto de estudo de diversas monografias até teses. Cabe esclarecer que ela é um desdobramento da Poesia Concreta dos irmãos Campos, de Décio Pgnatari e de Ferreira Gullar. Esta vertente literária consiste em uma junção entre a literatura (o texto do poema) com as artes visuais (a imagem criada através das palavras).  Pode-se dizer que o poema visual é uma poesia que está amparada na imagem. Ele funciona com base na união das palavras com especial atenção para a aparência da composição final. Na poesia visual, a organização das letras e das palavras é fundamental, porque a imagem formada transmite um sentido. Utiliza-se tanto as palavras quanto a disposição gráfica para comunicar, existe há muito mais tempo. Há registros de poemas visuais presentes desde a Antiguidade. Aproximadamente em 325 a.C. foi produzido, por exemplo, o poema O Ovo, de autoria de Símias de Rodes, um nome importante da literatura grega. Trata-se do mais antigo poema visual que se tem conhecimento. Em 1914, o poeta francês Guillaume Apollinaire (1880-1918) criou o celebrado Chove (no original Il pleut), uma poesia visual que remete para o movimento das gotas de água em direção ao chão. Os versos, que imitam a chuva caindo, não são escritos como é habitual, na horizontal, e sim no formato vertical, oblíquo, rumo ao solo. Assim, constata-se que, inicialmente, surgiu na Europa e chegou ao Brasil em 1956, durante um intitulado “Exposição Nacional de Arte Concreta”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1957, Wlademir Dias-Pino Pioneiro rompe como o Poema Concreto, passa em 1969 ao Poema Processo e, depois, se dedica à Poesia Visual. Há uma confusão entre a poesia concreta e visual, porque ambas têm um apelo à imagem muito forte. Mas esta nem sempre se utiliza da palavra, ela passa sua mensagem pela imagem, tendo ela caracteres tipográficos ou não. Naquela, a palavra está sempre presente, fragmentada, fundida, reinventada, mas está lá. Há grandes poetas visuais no Brasil, Tchello d’ Barros (SC), Diego Dourado e Luis Lima do (MA), Paulo Bruscky, Yuri Bruscky, Hugo Pontes, Renato Gonda, dentre outros. Cabe ressaltar as mulheres que, infelizmente muitas vezes não são mencionadas. Não têm visibilidade como: Neide Dias de Sá, Helena Trindade, Alice Ruiz (viúva de Paulo Lemiski) e Regina Pouchain (viúva de Vladmir Dias Pino). Urge evidenciar as mulheres que produzem Poesia Visual. Vale destacar que há uma prática pedagógica desenvolvida por min nesta vertente literária disponível o ebook em: https://oifuturo.org.br/e-nave/. E outra parceria com a Unicef em: https://oifuturo.org.br/oi-futuro-unicef/ Finalizo esta entrevista com uma reflexão de Fernando Aguiar “Os poetas visuais, como autores dessa intersecção, isto é, operando numa “terra de ninguém”, entre a escrita e as artes plásticas, não têm o seu trabalho aceite tanto por outros artistas da palavra como por artistas da plasticidade…”. Entrevista concedida a  Manaíra Athayde, em 10/10/2013 (https://matlit.wordpress.com/2013/10/10/fernando-aguiar-sei-que-poderia-participar-em-mais-festivais-de-poesia-e-antologias-se-nao-fosse-poeta-visual/

PARTE 02

RENATA BARCELLOS ENTREVISTA MHARIO LINCOLN

RENATA BARCELLOS - Mhario Lincoln é jornalista, advogado, escritor, poeta e presidente da Academia Poética Brasileira. Como representante de uma instituição e a partir de um dos pensamentos de Rubem Alves sobre ”a poesia salva e liberta”, qual sua percepção sobre a prática e a função de academias, associações e institutos na atualidade (sobretudo como foi a experiência no auge da pandemia)?

MHARIO LINCOLN - As Academias realmente academias, antes de visarem lucros, “joias”, mensalidades, anuidades ou apenas palco de egos exacerbados, representam muito para a comunidade em que habitam. Começo lembrando os pilares da Academia Francesa de Letras, os quais, se originam de um desejo intrínseco de conservar o que se pode chamar de Unidade Literária, sem quaisquer interferências político-sociais e com constância de propósitos. Assim, também foi constituída a nossa ABL. Todavia, não entro no mérito de analogias com a coirmã francesa, em razão desses pilares virem sendo, a cada tempo, diluídos. Tanto do lado francês, quanto do brasileiro. O que posso asseverar é a minha concepção ao fundar a Academia Poética Brasileira. Trouxe para seus Estatutos, o rigor da essência francesa, isto é, não ser a escolha dos membros, influenciada por discriminação de castas, amizades pessoais, escolas literárias ou intentas ideológicas. A meu ver, só nessa originalidade de pensamento e ação, que “a poesia salva e liberta!”. Não enxergo outra forma.

(Continuar lendo. Siga o link: https://www.facetubes.com.br/noticia/2758/renata-barcelos-pergunta-para-mhario-lincoln)

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias