
*Mhario Lincoln
Nada mais significativo do que entrar na minha biblioteca e olhar tantos livros valorosos os quais, de uma forma ou de outra dignificaram seus autores, seus prefaciadores, seus observadores, seus resenhistas e seus leitores.
É assim que eu vejo, por exemplo, “História do Maranhão-A Colônia”, do aplaudido Carlos Lima. E não sou só eu quem qualifica o autor desta forma. Basta ler o que dizem outros homens brilhantes que, ao livro, acrescentaram suas avaliações e discordâncias, como Mário Martins Meireles e José Sarney, enquanto nasciam os anos 80.
Mas há uma passagem brilhante no Prefácio de José Sarney, que instiga o leitor a ir até o fim: "Nada de retrato de Cochrane". Leia e vai saber o porque dessa frase!
CARTA-PREFÁCIO
Meu prezado Carlos de Lima:
Você, logo nos primeiros dias deste novo ano de 1980, fez-me duas surpresas: confiar-me, para uma apreciação crítica, os originais de sua História do Maranhão e solicitar-me, depois, que escrevesse algo a respeito para que você com ela publicasse, à guisa de prefácio.
Despertado em mim, ainda ginasiano, pelo saudoso e querido mestre que foi Jerônimo de Viveiros, o gosto pelo estudo da ciência de Heródoto, cedo, muito cedo, verifiquei quanto difícil era aprofundar-me no conhecimento de nossa História regional, pela quase impossibilidade de chegar aos autores que dela antes tinham cuidado e às fontes em que se haviam abeberado. Os autores eram poucos e suas obras estavam esgotadas; as fontes, praticamente inacessíveis, pela inexistência de arquivos organizados.
E o que já se perdeu, destruído tanto pelas traças e pelos cupins, quanto pela iconoclastia e incúria dos pósteros?!
Não obstante, ou talvez espicaçado por isso mesmo, comecei a estudá-la com muito trabalho, sacrifício e despesa. E, à proporção que ia me adiantando no estudo, decidi publicar o que ia conseguindo saber, mesmo com a certeza de que passível de correção, no propósito único de ajudar os que porventura quisessem me acompanhar ou os que viessem depois de mim. E nisso já lá se vão trinta anos...
Daí a agradável surpresa primeira: o saber, o descobrir que você, silenciosamente, vinha fazendo o mesmo que eu. Não sei se terão sido meus trabalhos que o chamaram para o caminho que venho tentando desbastar para facilitar os passos dos que o quisessem também trilhar. Se o foi, só por isso sentir-me-ei devidamente pago das muitas canseiras e noites indormidas, principalmente pela excelência de seu estudo; e mesmo que não, menor não será meu agrado pela certeza de que agora terei mais um companheiro.
Mais um, digo-o, porque já não estava sozinho; aí estão Domingos Vieira Filho, José Nascimento Moraes Filho, Jomar Moraes, Raimundo Carvalho Guimarães, Eloy Coelho Netto, Aderson Lago, Milson Coutinho, José de Ribamar Caldeira e uns poucos mais que não nomeio para não fazer o rol enfadonho. Mas não se há de esquecer Josué Montello, que tanto se tem valido da História da terra para a tessitura das estórias de seus soberbos romances e de algumas de suas interessantíssimas crônicas, com que a vai, com seu renome, fazendo conhecida de todo o Brasil.
O agradável da surpresa segunda foi o envaidecimento que me proporcionou o pedido que ora atendo, porque me deu a convicção - não a certeza, é claro - de que tenha querido acompanhar-me e ajudar-me, por ter verificado, por meus trabalhos publicados, que eu me propusera tarefa superior às minhas possibilidades e de que já estou carecendo de ajuda, e urgente.
Se assim o foi, o que tenho a dizer é simplesmente muito obrigado.
Muito obrigado, porque, além da prova material de ter alcançado aquele meu propósito, esta prova - e aqui fala o professor - merece nada menos que grau dez. E não digo dez com louvor, como outrora se atribuía aos alunos que eram por isso laureados, porque talvez não fosse compreendido nestes tempos em que se afere o fruto dos estudos por meio de cruzinhas em cartões de computador, tal como se tenta semanalmente a sorte na Loteria Esportiva...
A apreciação que eu tinha a fazer, já a fiz por escrito, após a leitura dos originais, e estou certo de que ela lhe terá sido útil. Foi apenas, em ligeiríssimos pormenores, como viu, ditada pela experiência maior de quem há mais e tanto tempo, como quero crer, vive às voltas com Abbeville e d'Évreux, com Bettendorf e José de Moraes, com Berredo e João Lisboa, com César Marques e Henriques Leal, com Ribeiro do Amaral e Barbosa de Godóis, etc., e que teve a ventura de gozar da intimidade e da amizade de Jerônimo de Viveiros e de Ruben Almeida... Que pena... e que perda para nós, que este último não tivesse querido nos deixar uma "História do Maranhão"...
E se isto empresta alguma autoridade para apresentar sua História, o que posso antecipar aos que me lerem antes de passarem a suas páginas, é que o trabalho está bom, e que, com sua leitura, que hão de ver quanto agradável será, terão bastante que aprender.
Mais do que isto não tenho a dizer, porque não sou crítico; apenas professor, e modesto, sem falsa modéstia, e como tal já dei minha nota. Se em uns pouquíssimos pontos, o que aliás discutimos, divergimos na interpretação dos fatos e dos personagens, isto não me dá a certeza, embora me fique a convicção, a meu favor, de que eu esteja de todo com a razão; talvez o correto seja seu ponto de vista, que sempre soube explanar e expor com facilidade, elegância e correção, na bem estruturada seqüência dos capítulos em que distribuiu a matéria.
Meus parabéns. Grau dez, confirmo; e peço que prossiga, porque em nossa História ainda há muito que estudar, corrigir e escrever. A messe é grande e os obreiros...
São Luís, 31.1.1980.
Mário M. Meireles
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PREFÁCIO II
É vasto o material bibliográfico à disposição dos estudiosos sobre a história do Maranhão. Muito maior, contudo, é a nossa própria história. Sofrido, dominado, liberto, dominado e livre, o Maranhão constitui um dos mais ricos veios da própria história brasileira. Carlos de Lima não ficou preso aos limites do Maranhão no trabalho que acaba de concluir. Ele escreveu, verdadeiramente, uma história do Brasil, onde o Maranhão entra com um vasto cenário, laboratório onde foram examinadas as etapas da colonização, o problema do sofrimento dos indígenas, as ocupações, as invasões, as sagas populares, o povoamento, o caldeamento das raças, a riqueza e a miséria, o mundo amargo da política e os homens.
Carlos de Lima, entretanto, não é um narrador frio dos fatos. Ele apaixona-se, interfere, opina, discute, protesta, investiga raízes e sugere as soluções não encontradas dentro da própria história. Seu trabalho é um misto de amor e revolta. Amor pelo Maranhão, esse fascínio irreprimível que esta terra desperta nos seus filhos e até mesmo nos visitantes. Abbeville, d'Évreux, Berredo, Lichthart, Simão Estácio da Silveira, nenhum fugiu a este encantamento.
O Padre Vieira, que tanto criticou o Maranhão na sua revolta missionária, descobriu em sua História do futuro que aqui era a terra de que o Profeta Isaías falava: "Assim que vem a dizer Isaías que a terra de fala que é terra que usa embarcações que têm nome de santo; e estas são pontualmente os maracatins dos Maranhões."
Mas, perto de morrer, Vieira, que aqui afirmou "que se espremesse sua batina, em vez de suor, sairia sangue", disse, ao ser perguntado onde queria fechar os olhos:
No Maranhão.
É essa linha apaixonada de todos os que mergulharam na nossa vida que motivou Carlos de Lima a esse trabalho longo e cuidadoso de pesquisa. Amor e revolta. Esta mistura bem próxima daquela de Leopardi, quando fala que "amor e morte engendraram a sorte". A paixão de Carlos de Lima ao escrever a História do Maranhão é, também, um grito permanente de inconformação. Rasga a chaga do sofrimento do índio e desmitifica as missões.
Em cada página escreve a História protestando contra a História. Analisa a participação portuguesa e fala de sua decadência aqui desembercada. O Cabrinha, O Dente-de-Alho, O Curuba, antigos governadores, são personagens vivas que ele fustiga como se estivesse na noite das taperas daqueles tempos, à luz das tochas, escrevendo a última verrina contra velhos desmandos. Esse calor vivo de participação, esse amor de protestos permanentes, vão da primeira à última página. Da Fundação à Colônia, passando pela Independência, pela República, e chegando aos nossos dias.
Esse desejo de discordar da História é uma constante bem maranhense. Deixa de ser um fato frio de análise, para ser um dado emocional que se transmite de geração a geração. Veja-se o exemplo de Cochrane. Até hoje, de pai para filho, existe um sentimento maranhense geral de desamor para com ele. Lembro-me que ao pedir a Raimundo Cardoso para preparar a edição da História da Independência, de Vieira da Silva, ele, para ilustrar o volume, incluiu o retrato do Lorde inglês. Bandeira Tribuzi e Joaquim Itapary, ao tomarem conhecimento do assunto, falaram comigo e rápido decidimos um telegrama para o Rio: "Nada de retrato de Cochrane".
Há alguns anos, na Abadia de Westminster, o guia levou-me a visitar um túmulo importante: "Lord Cochrane, Marquês do Maranhão". Fiquei indignado. Rapidamente afastei-me. É que dentro de mim estavam a pirataria e o saque de que todos nós do Maranhão o acusamos, na cobrança à cidade de São Luís do resgate pela sua participação na guerra da Independência. Resgates que jamais o contentariam.
Odylo dizia que bom maranhense não gosta de Cochrane nem de Jerônimo de Albuquerque. Gosta de La Ravardière e do Padre Vieira. É que, no fundo, abominamos a violência. Carlos de Lima mantém esse sentimento vivo no livro que escreveu.
Podemos discordar dos seus conceitos, de alguns juízos e de outras análises, mas não podemos negar que este livro é um trabalho importante, é um grito longo de protesto, é uma história escrita por um historiador apaixonado. E Carlos de Lima é apaixonado na dedicação a tudo que faz a sua vida, aos seus ideais, aos seus amigos, a sua Zelinda.
José Sarney
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