A BELEZA POÉTICA DE BRUNA LOMBARDI
José Neres
(Membro da AML e da Sobrames-MA)
Muitas pessoas se comprazem em viver colando etiquetas de identificação nas outras. Quase sempre, alimentam-se da certeza de que apenas uma etiqueta é suficiente para definir alguém. Dessa forma, um professor deve ser sempre um professor, um atleta nunca pode ir além do esporte, um engenheiro deve passar a vida mergulhado em seus projetos, uma atriz terá que representar, representar e representar... E assim por diante.
No entanto, a vida real não é assim. O mundo não veio ordem alfabética, como certa vez disse o poeta Manoel de Barros, e as complexidades da vida não se eximem das inúmeras pequenas facilidades e dificuldades que as compõem. Uma, duas, três, dez ou cem tabuletas, adesivos ou etiquetas nunca serão suficientes para definir ou limitar talentos e habilidades humanas.
Geralmente, essas pessoas que gostam de colar etiquetas se assustam quando descobrem que cada ser humano pode ser visto como um infinito palimpsesto, com inúmeras camadas que escondem formas, traços, cores e refolhos que, embora invisíveis aos olhos, não deixam de existir e ficam à espera de quem possa escavar e descobrir valores que sempre estiveram ali, mas que por serem ignorados por uma parcela da população, tomam a aparência de novidade.
É mais ou menos isso o que ocorre quando algumas pessoas descobrem que Bruna Lombardi, conhecida e reconhecida como uma das mais belas e talentosas atrizes brasileiras de todos os tempos, é também uma escritora com diversos livros publicados e que suas lides com as palavras escritas precedem cronologicamente suas performances nos palcos e nas telas.
Bruna Lombardi é autora de três livro de poemas: “No ritmo dessa festa” (1976), “Gaia” (1980) e “O perigo do dragão” (1984); dois romances: “Filmes proibidos” (1990) e “Meu ódio será tua herança” (2004); e do livro infantil “Apenas bons amigos” (1987), além de livros em outros gêneros.
Mas quem se acostumou a distribuir etiquetas em uma lógica biunívoca costuma duvidar da competência de quem ousa fugir a esses padrões impostos. Torna-se, então, até certo ponto comum encontrar quem duvide da possibilidade de alguém desenvolver múltiplos talentos e de destacar-se em várias áreas do conhecimento. Surge então uma incômoda pergunta: Bruna Lombardi é uma boa escritora?
Apenas um sim ou não como resposta seria algo simplório e sem sentido. Não se pode avaliar o talento de alguém apenas por seu nome, por sua beleza física ou por sua condição social. No caso da literatura, é preciso ler e esmiuçar os textos, observar o uso que o escritor faz das palavras, seu poder de sugerir metaforizações e de alterar o eixo das significações.
O que se percebe ao ler os três títulos de poesia de Bruna Lombardi é que, sem se preocupar com as limitações impostas pelas regularidades métricas e pela busca de rimas esdrúxulas (embora estas apareçam vez ou outra nos poemas, mas quase sempre quando são extremamente necessárias), ela optou desde o princípio por valorizar o ritmo e de imprimir em cada poema suas digitais em forma de imagens poéticas que encantam e desconcertam ao mesmo tempo.
Utilizando habilmente uma mescla de sensualidade, ousadia, recato e lucidez no uso das palavras, ela constrói uma imagem que aguça os sentidos com relação ao corpo feminino, porém sem vulgarizá-lo, conforme ocorre em:
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
(...)
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora (p. 280).
A frequente aposta em temas extraídos do cotidiano aproxima os textos do leitor que busca um livro com o objetivo de encontrar em suas páginas um reflexo da vida viva e verdadeira que nos rodeia e nos espreita a cada esquina. Em tom quase coloquial, a escritora consegue “desenhar” alguns painéis que oscilam entre o lirismo e o social, com a recorrência de elementos verbais que fazem parte do dia a dia das pessoas que transitam por cenários carregados de simplicidade e de vida, como é o caso do poema “Sábado”, transcrito a seguir:
Eu te trouxe lá da feira
uma cabaça, uma panela
e uma macaxeira
um apito de saíra
e aquele capim que cheira
vim andando pela estrada
que era só sol e poeira
trazendo pimenta da quente
esse colar de semente
e saudade da tua esteira (p. 171).
Nas quase quatro centenas de páginas da “Poesia Reunida” de Bruna Lombardi (2017, Editora Arqueiro) há espaço para temas que vão da crítica social aos limites da sensualidade e do erotismo sem apelos para as futilidades verbais. Os poemas podem ser lidos em qualquer sequência, mas, quando apreciados na ordem de publicação dos livros, deixam perceber um certo apuro vocabular que torna alguns poemas mais vívidos, porém sem desmerecer os demais.
Conclusão: Bruna Lombardi é extremamente competente em sua tessitura poética e consegue trabalhar questões até certo ponto polêmicos com maestria e com a sabedoria de quem sabe que as palavras podem ter vida própria e que é preciso muito cuidado ao tentar domá-las. Sua poesia é límpida e faz bem aos olhos e aos ouvidos.
Para satisfazer a quem gosta de colar etiquetas nas pessoas, no caso de Bruna Lombardi, e de tantas outras pessoas, bastaria colocar apenas uma com os seguintes e sintéticos dizeres: “Extremamente talentosa”.
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