O monopólio da palavra e os donos da verdade: uma sombra sobre o nosso século
Por: Rogério Henrique Castro Rocha
Gostaria de lançar algumas questões. Questões que haverão de conduzir algumas percepções apresentadas ao longo do texto. Alguém pode deter o monopólio da linguagem, dela assenhoreando-se a ponto de declarar-se dono da “última palavra” sobre alguma coisa? Podem as palavras, e os discursos que com elas construímos, possuir proprietários e/ou proprietárias? E mais, a “última palavra” é a que vale enquanto verdade?
Antes de qualquer coisa, não pretendo selar o destino das questões ora levantadas, dando a elas respostas definitivas. Em verdade, para mim vale aqui muito mais o percurso a que nos levam as perguntas do que propriamente alguma certeza que delas pudéssemos extrair, à moda dos que possuem respostas prontas para cada indagação que a vida apresenta. Afinal, se assim o fizesse, calaria em mim a própria liberdade do pensar, o enclausurando em cascas de verdades endurecidas. Incorreria, ademais, também na mesma prática que é objeto desta breve elucubração, qual seja, a de tomar posse das palavras, em meio ao reino da linguagem, como se elas me pertencessem em suas inteirezas de vigores e sentidos.
A linguagem origina-se na abertura para o ser que nela habita. É com ela que nos tornamos disponíveis para o mundo, para toda a teia de relações performativas do dizer, no qual buscamos compreensão. Do mesmo modo, num plano onde estivéssemos teoricamente em condições iguais nesse dizer e compreender, no âmbito do pensar e performar nossas falas, em abertura para o que o outro tem a compartilhar, a palavra seria livre. Circularia em meio ao ir e vir de intenções buscadas no entrelaçar de mentes e vivências, sabedora de sua disposição para com os consensos e dissensos, contudo, na dinâmica natural de um lugar último, onde os múltiplos olhares se encontrariam. Nesse sentido, a tomaríamos como aberta e livre, palavra apenas. Sem proprietários que as tomassem por suas e só suas.
Dadas tais condições, é estabelecido um plano situacional em que qualquer pessoa pode falar sobre o que quiser, como quiser, sem base mínima, no movimento de um simples dizer, arrogando a titularidade de um discurso, de uma fala, de um repertório qualquer de ditos sobre coisas, ideias e circunstâncias.
Com isso, surgem o gestual de fachada e o discurso de superfície. Encenações fúteis que ornamentam o palavrório instituído, que não consegue superar, em diálogo, os limites mínimos de seus próprios muros, encerrado nas grades de um cárcere indevassável.
Para piorar, a coisificação tecnológica do mundo em que vivem os humanos (ainda em humana condição) também os abocanha, sugando-os para dentro dessa imparável zona de banalização desumanizadora.
Afastado o humano de sua condição essencial, deixa de ser ponte e laço, deixa de fazer e dar travessia ao outro, de ser e estar com o outro, e isola-se no seio da impotência que ajudou a alimentar.
Cada vez mais distantes da verdade, esses senhores e senhoras, ‘donos e donas da palavra’, da Terra e inimigos capitais de todo o pensar que lhes é contraposto, fecham as portas dialógicas que conduzem a sentidos mais profundos, passando a viver de si e para si, na pequenez das mundanidades.
Nesse quadro, ódio e hostilidade representam um universo de não-sentido, assegurado pela vontade insaciável de hegemonia, sustentada à base de uma disposição quase sempre bélica para a disputa, visando violar, sobrepujar e vencer. Com isso, imaginam assegurar a durabilidade do seu pensar e dizer em modo de palavrório.
O espetáculo que vemos avultar celebra homens e mulheres de rebanho. Homens e mulheres da repetição do mesmo. Que perigosamente amplificam o deserto da linguagem, derrubam as pontes e monopolizam os discursos, devastando e desgastando a essência da verdade no fosso da inviabilização dos diálogos. Enquanto isso, como diria Nietzsche, “o deserto cresce”.
E o que nos sobra, afinal, quando alguém se apropria da verdade e arroga-se o ‘direito’ da “última palavra”? Sobram as aparências e o brilho tímido de alguns acordos forçados, feitos para compartilhar verdades circunstanciais. Sobra a vertigem que nos envolve, turvando nosso presente, devastando nosso futuro.
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