NONNATO MASSON, UM MESTRE DA PALAVRA
José Neres
(Especial para o Facetubes)
Talvez, hoje, em pleno final de fevereiro de 2024, o nome Raimundo Nonato da Silva Santos possa passar despercebido até mesmo pelos estudiosos da literatura e do jornalismo maranhense. Porém, caso alguém cite o nome artístico-literário desse senhor nascido no dia 28 de fevereiro de 1924, os amantes das letras hão de, com brilho nos olhos, recordar-se de um dos mais elegantes e cultos escritores da língua portuguesa em terras maranhenses. Trata-se de Nonnato Masson, renomado cronista, poeta, jornalista e membro da Academia Maranhense de Letras, instituição na qual ocupou a cadeira 21, de janeiro de 1986 até março de 1998, quando faleceu.
O que sempre chamou a atenção em Nonnato Masson era sua elegância ao escrever. Ele conseguia fazer com que o leitor se sentisse dentro dos textos transitando entre um parágrafo e outro em uma articulação de palavras na qual o ritmo e a sutileza das argumentações clareavam a ideia das pessoas até mesmo sobre os assuntos mais polêmicos e complexos.
Essa capacidade de escrita fez com que ele fosse bem recebido nas redações de diversos jornais de seu estado natal, como é o caso de O Combate, Jornal da Tarde, Jornal do Povo, A Pacotilha e O Estado do Maranhão, veículos de comunicação nos quais ele teve significativa passagem, seja como redator, cronista, chefe de reportagem ou secretário. Porém, sua atuação profissional não se limitou a sua terra natal. Ele, na qualidade de exímio jornalista e cultor das palavras, teve também importante participação no Jornal do Brasil, onde ao lado de seu amigo e conterrâneo Odylo Costa, filho, muito contribuiu para a modernização desse importante jornal brasileiro.
As atividades laborais de Nonnato Masson levaram-no a percorrer praticamente todo o Brasil em busca de assuntos de interesse público que pudessem ser convertidos em reportagens de grande impacto na imprensa nacional, como é o caso da série de textos publicados sob o título geral de “Brasil, Brasis, brasileiros”, na qual levou a público diversas situações ocorridas no Brasil, mas que não eram conhecidas até mesmo por muitas pessoas bem informadas.
História também é sua vasta pesquisa sobre Virgulino Ferreira da Silva – o famosíssimo cangaceiro Lampião – e seu bando pelo sertão nordestino. Dividida em oito partes, essa série de reportagens foi publicada na revista Fatos e Fotos, nos meses finais de 1962 com o título de “A aventura sangrenta no cangaço” e teve grande repercussão na época, sendo até hoje é tida como um exemplo de investigação jornalística.
Além de tudo isso, é importante lembrar que esse intelectual maranhense viajou por vários países e fez cobertura de diversos eventos esportivos, como, por exemplo, todas as Copas do Mundo ocorridas durante seu período de atuação no Jornal do Brasil, de 1956 até 1980, quando se aposentou desse jornal e passou a chefiar a sucursal maranhense da Empresa Brasileira de Notícia, cargo no qual ficou de 1985 até 1990.
Com o falecimento do acadêmico Salomão Fiquene, em 1984, Nonnato Masson, que sempre foi uma figura extremamente respeitada nos meios intelectuais de seu estado, resolveu candidatar-se à vaga da cadeira 21 da Academia Maranhense de Letras. A eleição aconteceu no dia 11 de outubro daquele mesmo ano e o escritor foi eleito para essa cadeira patroneada por Maranhão Sobrinho e fundada por Raimundo Lopes da Cunha. A posse se deu apenas em janeiro de 1986 e o acadêmico escolhido para recepcioná-lo foi o escritor José Sarney, que, possivelmente por estar repleto de afazeres por estar no exercício da Presidência da República, não pôde comparecer à solenidade de posse, mas enviou o discurso de recepção, que foi lido pelo também acadêmico Evandro Sarney.
Embora tenha escrito bastante, Nonnato Masson publicou poucos livros. Muitos de seus trabalhos ainda se encontram dispersos em jornais e revistas esperando para serem reunidos em livros e/ou servirem como tema para estudos de cunho acadêmico. No entanto, em 1984, alguns de seus textos foram publicados pelo Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (SIOGE) em dois livros: Inês é morta e Corpo de moça. Nesses dois pequenos volumes, que hoje constituem raridades bibliográficas, o leitor pode ter uma amostra do talento desse escritor e de seu cuidado no uso com a palavra escrita.
Neste 28 de fevereiro de 2024, esse talentoso escritor batizado como Raimundo Nonato da Silva Santos e rebatizado literariamente como Nonnato Masson completa seu primeiro centenário de nascimento. Infelizmente, ele é mais uma dessas personalidades brilhantes de nossas letras a quem tanto devemos e que, nesses tempos obscuros de sucesso efêmeros, precisa ser relembrado, lido, estudado e aclamado. Seu talento é eterno.
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