Nota do Editor: "Claro que foi empatia à primeira vista. Gosto muito de ler 'essência', de tentar descobrir a linha tênue que os poetas guardam sob as lágrimas de seus olhos e o sorrido de seus lábios. Aqui, neste texto, por exemplo, nenhuma surpresa diante de um estilo impecável, mais lírico que prosa, propriamente dita. Este é meu olhar sob um belo argumento que revela uma sensibilidade e uma conexão profunda com a natureza e a arte, evocando imagens vívidas e reflexões sobre o quântico-sentimental.
Ao descrever as várias janelas ao longo da vida, o texto sugere uma jornada de descobertas e contemplações, com referências pessoais sensíveis, ao status quo de quem aprendia a delinear seus caminhos com exigentes renovações constantes. A metáfora das pétalas de jasmim sendo jogadas na estrada da vida evoca uma imagem de delicadeza e gratidão diante das experiências vividas.
A referência à Casa-museu da Cora Coralina adiciona uma dimensão histórica e cultural ao texto, introduzindo a figura da poetisa brasileira e seu legado de simplicidade e doçura, exemplificado pela história da Maria Grampinho. Essa narrativa ressalta a importância de acolher o outro e transformar a vida em poesia, mesmo diante das adversidades.
Em síntese, esse texto é uma celebração da vida, da natureza e da poesia, que me convidou a refletir sobre a efemeridade e a beleza do mundo ao nosso redor, através de uma linguagem mais poética, mais rica e mais evocativa. Seja bem-vinda Fernanda Figueiredo. Muito feliz publicar em nossa Plataforma Nacional do Facetubes, este belo exemplo de raciocínio qualitativo. (Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira).
Janelas com Jasmim
Fernanda Figueiredo, bibliotecária, escritora e poeta.
Ao longo da vida tive várias janelas. Algumas janelas para o mar e o Pão de Açúcar, janelas para os mais belos alvoreceres. Estive sempre pronta para descortiná-las e ver o sol, jogar pétalas de jasmim na estrada da vida. Borboletear. Vislumbrar novos horizontes.
E, assim, cheguei na Casa-museu da Cora Coralina. Quantas janelas! E quanta doçura! Conheci a história da Maria Grampinho, uma senhora humilde que perambulava pelas ruas e ela deixava que dormisse nos fundos da casa.
Cora Coralina gostava de fazer doces e poesias:
"Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz da tua vida mesquinha um poema."
Também, tenho admiração pela obra poética de Cecília Meirelles. "Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem triste. Sou poeta." Até prefiro essa denominação de poeta do que poetisa.
Nos meus vinte e poucos anos, surgiu a oportunidade de publicar duas poesias por uma editora que buscava novos talentos, da Christina Oiticica, companheira do escritor Paulo Coelho, nos anos 80. As minhas poesias selecionadas foram "A noite" e "Natureza morta."
Da minha janela, lembrei o professor Josemar, nos tempos de escola, que pedia para que os alunos declamassem. O meu poema foi "Renúncia", de Manuel Bandeira. "Chora de manso e no íntimo..."
E gostava do poema "Vandalismo" do Augusto dos Anjos. "E no desespero dos iconoclastas, quebrei a imagem dos meus próprios sonhos."
Da minha janela vi o século 21 começar. Estava com quarenta anos. O triste é saber que não veremos o fim do século. Certo dia, fiz os cálculos e não veremos os 500 anos do Rio de Janeiro. Nossa geração, na melhor das hipóteses, talvez, celebre os 500 anos de São Paulo.
O tempo passa, mas a poesia fica eterna.
Da minha janela, há muitos anos, descobri um poema do Carlos Pena Filho, poeta pernambucano que faleceu muito jovem, em 1960. Dedicado ao Francisco Brennand. "Lembra-te afinal, que resta a vida com tudo que é insolvente e provisório, de que ainda tens uma saída, entrar no acaso e amar o transitório." Tempos depois o Zuenir Ventura escreveu um artigo "Amar o transitório" em que cita o poema.
Por fim, um poeminha da minha autoria.
Sou a turmalina paraiba
Obra rara, tesouro esquecido
Talvez, página virada
A caliandra do cerrado
joia rara
essência da dama da noite de estrada
Flor de maracujá...
Namastê
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