Susana Pinheiro, APB/RIO
As pipas coloridas de vermelhos vibrantes, laranjas intensos e amarelos de cádmio sob tons neutros, contrastando com um azul profundo, intenso que vibra luz com toques de brancos e violetas, são lembranças que me veem à memória quando ouço falar nas pinturas de Jesus Santos. O conheci, quando ainda estudante de arte na graduação, e estagiava no Palácio dos Leões. Na ocasião, fui apresentada a ele, por Maria Helena Duboc Andrès, crítica de arte e curadora do acervo das obras de arte do Palácio, e minha tutora durante o estágio.
O centro histórico da cidade de São Luís, no estado do Maranhão, seus habitantes e as histórias locais, serviu de constante inspiração para a realização dos trabalhos deste singular artista, que recentemente partiu, mas que nos deixa uma importante contribuição de valor artístico para as novas gerações e para a geração presente. Jesus Santos estudou arte com profissionais como Norberto Pedrosa, que morava no centro da cidade, e que teve como professor, o mestre, também artista, Espírito Santo. Foi com Pedrosa e Floriano Teixeira, que Jesus desenvolveu parte de suas habilidades com as tintas e pincéis, e pode ainda, desenvolver suas temáticas, aprendendo técnicas e estudando profundamente a história da arte e seu contexto mundial.
Observador e estudioso, apreciava a vida que acontecia pelo centro histórico da cidade, em especial saia para ver e ouvir, sentir os eventos nos bares e a vida noturna dos cabarés. As personagens de suas pinturas são figuras dramáticas, mascaradas e sensuais que ora contrastam com acontecimentos corriqueiros como um passeio de bicicleta, ou ora contrastam com o brilho da luz noturna que costumava acompanhar a cidade dormida. Em suas obras a forte presença do imaginário fantástico, que une a beleza e o medo em cada pintura executada. Costumava afirmar que arte era uma missão em que deveria buscar a cada novo trabalho, a superação do anterior.
Artista questionador, inquieto e boêmio, o cotidiano noturno, por exemplo, foi tema em muitos de seus quadros, em especial, a vida das prostitutas. Certa vez, afirmou em entrevista, o seguinte: “As prostitutas é que salvaram o imaginário romântico de São Luís”. Assim, era figura assídua buscando em cada realidade, poetizar a lúgubre dureza das ruas e das relações humanas.
Aos artistas certos eventos nos marcam sobremaneira, e ficam impregnados em nossa memória, e de tão intensos nossos trabalhos refletem tais vivências. Foi o que aconteceu com Jesus Santos, quando em uma viagem a Cusco, cidade situada nos Andes peruanos, outrora, capital do império Inca, atualmente muito visitada devido sua arquitetura colonial espanhola e vestígios arqueológicos, viu de dentro do carro que havia um vilarejo onde as portas e as janelas das construções eram pintadas com um certo pigmento colorido que viria a ser uma de suas marcas registradas.
Curioso, perguntou ao guia do lugar, que cor era aquela, pois o impressionara de tal modo, que gostaria de saber onde poderia encontrá-la para usar em seus trabalhos. A cor em questão era o azul, mas um azul diferente. E perguntando sobre o fato, disseram a ele, que se tratava do que chamavam de azul boliviano, uma cor somente encontrada nos bairros mais populares da Bolívia, usada nas portas e janelas para afastar o mal.
Desde então o artista passou a usar a referida cor, chamada de azul boliviano, largamente em suas pinturas. O azul para Jesus Santos, representava, além de tudo, a cor do infinito, uma cor completa, dizia ele, e era a mais enigmática e forte de todas as cores.
Destacava que artistas importantes como Cândido Portinari a usara causando grande comoção e verdade nas suas pinturas.
Para Jesus Santos, a cidade de São Luís desdobra-se antagônica, pois ao mesmo tempo em que ela se apresenta linda, de uma luminosidade inigualável, revela-se embevecida de uma ignorância ainda maior. E, nos deixa um questionamento para refletir, pensar e quem sabe a partir da própria arte de cada obra literária, pintura, canções, poesias, peças encenas, filmes e fotos, possamos chamar a atenção e impulsionar, quem sabe, rumo a um transformação mais consciente e crítica. Ao finalizar sua entrevista, nos provoca dizendo: “Como é que a gente vai fazer, e agora, como é que se vai fazer?
Ensaio a apartir da leitura da entrevista do artista ao documentário feito sob direção de Beto Matuck e direção geral de Joaquim Haickel .
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